segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A morte

Desde sempre a morte obedeceu a rituais conforme a religião professada, o poder económico e político e até o meio em que ocorre.

Os rituais têm sofrido modificações no decorrer dos tempos e nos últimos anos os meios de comunicação céleres fomentam alterações mais rápidas e mais consentâneas com o mundo em que vivemos.

O que diriam os nossos avós às frequentes e cada vez em maior número de cremações?

Quem não ouviu contar aos soldados portugueses que estiveram nos anos sessenta em Goa, Damão e Diu, as cremações hindus que tanto os admirava?

Ainda que de uma maneira geral se mantenha o fundamental, a verdade é que o ritual da nossa morte já não vai ser igual ao dos nossos pais e ainda mais diferente do dos nossos avós.

Os testamentos até cerca de metade do século XIX tinham como principal fim a salvação da própria alma já que davam directrizes para o efeito, de uma maneira geral debaixo de um normativo que pouco variava. (1)

A confraria das almas que tinha o seu altar próprio em todas as igrejas paroquiais estava relacionada precisamente com a morte.

[Igreja Matriz da Freguesia do Pereiro. Foto JV]

Ainda me lembro dos confrades se apresentarem com as opas cumprindo a sua missão nos enterramentos.

Após o último suspiro e tentando sempre que lhe tivessem sido ministrado os últimos sacramentos, o corpo era lavado e vestido com o melhor que tivessem, por familiares e amigos. Eram-lhe atados os pés com um nastro e a boca através de um lenço e as mãos sobre o peito cruzadas. Uma vez hirtos, recolhiam-se os atavios.

Com a chegada do caixão era necessário armar o altar.

Escolhida a divisão da casa, normalmente a mais espaçosa, colocava-se uma arca, o que normalmente todas as casas tinham, em posição central e perto de uma das paredes. Cobria-se com uma toalha branca colocando-se depois o caixão, ficando a cabeça mais próxima da parede escolhida, na qual se colocava estendido um lençol branco ao meio do qual era preso por uma das pontas um lenço preto.

[Candeeiro de defunto. Foto Ana Teixeira, 2006]
Um candeeiro de cobre, de quatro bicos e alimentado por azeite que ardia através de pavios, tomava o seu lugar. Era exclusivo destas cerimónias, por isso, recebia o nome de candeeiro de defunto e só possuído pelas famílias mais abastadas que o emprestavam a quem não o tivesse.

Na aldeia o acontecimento era transmitido através do sino da igreja com um toque próprio e conhecido de todos.

Não havia telefones e era muitas vezes necessário dar parte do sucedido a familiares que viviam em povoações mais ou menos próximas. Havia na aldeia um homem que se dedicava a efectuar recados e era ele que cavalgando em bom muar efectuava esse trabalho.

O velório começava à noite e estendia-se pela noite fora, entrando uns e saindo outros conforme as suas necessidades.

Atendendo a que o azeite é um bem precioso e que o consumo se fazia sentir, as pessoas que iam ao velório levavam sempre uma garrafa de azeite para assim auxiliarem a família do defunto nessa despesa.

O cortejo fúnebre lá seguia a caminho do cemitério sendo o caixão transportado pelos homens que se iam revezando.

[Portão do cemitério da Freguesia. Foto JV,2006]

Nos tempos mais recuados pagavam-se a pessoas para chorarem o defunto (carpideiras) e não há muitos anos o povo comentava sempre o nível de pranto praticado!

A missa do mês era sempre cumprida. Quando o altar era mais paramentado, chamavam-lhe missa de pano o que encarecia o preço.

Era obrigatória a distribuição da esmola aos assistentes. Todos os que saíssem pela porta principal a ela tinham direito recebendo os adultos o dobro dos moços e quem saísse pela porta lateral era porque não queria receber a esmola.

Bem me lembrou a principal fonte deste tema, na habilidade que tinha de usar para fugir à mãe e passar pela porta principal! (2)

A morte dos pais obrigava a um ano de luto, quanto aos avós estava fixado em seis meses. Filhos e marido, os lutos eram permanentes

As viúvas punham um xaile preto de lã sobre a cabeça que por vezes ainda era coberto por uma saia. Os homens, quando lhe morria a mulher, filhos ou pais, além de se vestirem de preto, enrolavam-se numa manta e não faziam a barba durante um certo tempo e não se lavavam.

As casas e em sinal de luto não eram caiadas durante dois anos e os tachos de arame e outros utensílios eram escondidos ou emborcados com o mesmo sentido.

Já há muito que os defuntos vão para a igreja e poucas reminiscências que referimos se podem encontrar.


NOTAS
(1) – “Como era a vida entre gente rústica do norte e nordeste transmontano vista através dos testamentos do século XVIII”, António Maria Mourinho, in Amar, sentir e viver a história, Eições Colibri, 1995.
(2)- A então Presidente da Junta de Freguesia.

N.B.

Este texto foi extraído do nosso livro A FREGUESIA DO PEREIRO (do concelho de Alcoutim)«do passado ao presente», Edição da Junta de freguesia do Pereiro, 2007.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Ginjas em Alcoutim !



Não tenho dúvida, as três ginjas que a foto apresenta foram criadas mesmo em Alcoutim ou por outra, num monte próximo (2005).

Dois anos antes não vingaram três unidades mas sim mais de um quilograma, o que é algo de muito excepcional. Dessas não tenho foto, pois não me encontrava no local para fazer o “boneco”, do que, aliás, me penitencio.

É do conhecimento geral que cerejeiras ou ginjeiras, uma variedade destas, não se dá por terras algarvias, visto não possuir clima e terreno que lhe sejam propícios à sua maturação.

Um amigo, a quem há muitos anos adquiro ginjas para fazer o meu licor, sabendo que eu tinha para as bandas do Algarve um terreno em que fiz horta com a plantação de parreiras e árvores de fruto, fez questão de me oferecer em vaso uma ginjeira colhida no seu pomar com o intuito de eu a plantar na minha horta.

Agradeci a oferta dizendo-lhe, contudo, que ela não iria vingar e muito menos dar fruto, mas ele insistiu dizendo-me que não custa nada experimentar. E assim fiz.

Pegou muitíssimo bem e desenvolveu-se com facilidade.

A floração apareceu abundante e bela como sempre, é a que a foto representa. O fruto vingava, mas pouco depois ao ter o tamanho de uma semente de coentro pecava, quando muito escapavam duas ou três, como foi o caso que apresento.



No ano em que deu mais de um quilo, o clima correu-lhe excepcionalmente de feição, com frio e chuva e ausência de geadas, justificando assim a produção que até deu para fazer licor! Ginjinha de Alcoutim!

Já lá vão uns anos e nunca mais aconteceu o mesmo e será difícil de acontecer.

Entretanto a ginjeira secou, já se havia reproduzido por rebentos ,como é sua característica, ainda que sejam auto-férteis.

Existem várias espécies de ginjeiras mas a que vos falo é uma ginjeira-brava, nativa da região de França, Espanha, Portugal, Marrocos, Açores, Madeira e Canárias. Planta espontânea, apenas sobreviveu em alguns enclaves húmidos mas drenosos.

Nesta espécie o fruto não é agridoce aproximando-se do amargo, o que o torna excelente para o fabrico do licor de ginja ou ginjinha, que considero o rei dos licores.

No século XV a ginja era um fruto comum em Portugal. Por volta de 1755 existiam em Lisboa estabelecimentos comerciais que vendiam ginja mergulhada em aguardente.

A floração tem lugar no mês de Abril e a colheita em finais de Junho.
Conseguirei voltar a fazer licor de ginja de Alcoutim? Não será fácil.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Taipas, dois montes em zona montanhosa

O caminho mais curto, por estrada, entre estes dois montes e Alcoutim, sede do concelho a que pertencem, é de 43 km e isto tomando em consideração que já não é necessário passar por Martim Longo e Vaqueiros, como acontecia antes da construção da estrada nº 508 que englobou a feitura da ponte sobre a Ribeira da Foupana e depois com a 505 com a qual entroncou.

Depois de passarmos por Malfrade vamos encontrar ao Montinho da Revelada a estrada oriunda de Vaqueiros, a 506. À ponte dos Bentos, sobre a Ribeira de Odeleite, tomamos a direcção de Fernandilho e uns quilómetros andados vamos encontrar estes dois aglomerados populacionais que se situam possivelmente na zona mais montanhosa do concelho.

A eles também podemos chegar através do C.M. 1049 das Madeiras que daqui para a frente e depois de atravessarmos a ribeira de Odeleite através de um pontão, por um caminho muito íngreme, nos leva ao despovoado monte do Galego e cerca de 2 km andados a estes montes.

Ao aproximarmo-nos da povoação por este lado, começam a aparecer sinais de comunidade como hortas, tanques, casa circular ou velho moinho aproveitado para arrecadação. Os terrenos nas redondezas apresentam-se limpos o que significa que ainda há alguma vitalidade.

[O maior monte, visto do norte. Foto JV]

Próximo da povoação, a estrada já está alcatroada. À nossa esquerda, numa elevação, encavalitam-se as habitações da pequena povoação. A placa toponímica que aparece não faz a distinção entre os dois montes. A curta distância, depois de um entroncamento e do outro lado da estrada, situa-se o outro monte.

Encontrámos um painel de 15 caixas de correio instalado em 1996 (1), que pode levar a concluir que existiam outros tantos fogos habitados.

Encontra-se a 13 km de Vaqueiros, sede da freguesia. Os montes mais próximos são Alcarias a 3,5 km, Fernandilho a 4,5 e Alcaria a 6.

As Memórias Paroquiais de 1758 já referem as Taipas e são-lhe atribuídos 10 vizinhos, número aproximado ao seu vizinho de Alcarias com 11 e só ultrapassado por Zambujal (31), Alcaria Queimada (21), Pão Duro (18) e Preguiças (17). Todos os outros tinham menos vizinhos.

Em 1839, Silva Lopes não indica o número dos seus fogos e no censo de 1991 são-lhe atribuídos 44 habitantes o que para o zona e época era um número considerável. Dez anos depois, ou seja, no censo seguinte, tinha baixado para 34, pelo que hoje rondarão duas dezenas.

[O outro monte, vista geral. Foto de JV]

O fornecimento de energia eléctrica foi inaugurado em 19 de Dezembro de 1984 (2) e a pavimentação da estrada desde a ponte dos Bentos tinha ocorrido em 1992 (3), sofrendo novo revestimento em 2004 (4). O telefone chegou em 1995. (5)

Depois da instalação de fontanários (2001) a água foi levada ao domicílio em 2004. (6)

Os arruamentos foram beneficiados em 2006. (7)

Existe uma Zona de Caça Associativa.(8)

O topónimo é frequente no país, principalmente no sul, onde existe em Silves, Monchique, Portimão e Ourique. O singular é próprio do norte. Terá o sentido de parede feita de barro e pequenas pedras suportadas por enxaiméis, técnica que os árabes nos deixaram e muito usada nestas zonas, foi devido a esse tipo de construção que ruíram muitas casas em Alcoutim a quando da chamada “Cheia Grande” ocorrida em 1876.

Se não estiver aqui a razão do topónimo, poderá estar na feitura de tapumes.

O Cerro do Castelo das Taipas deve ter constituído um núcleo de habitat relacionado com a exploração dos recursos mineiros e a actividade pastoril. No local foi recolhido um machado de pedra polida, na posse de um dos habitantes do monte, um fragmento de cerâmica e vários de mós de vaivém. (9)
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NOTAS
(1) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 4 de Dezembro de 1996, p. 12
(2) - Jornal do Algarve de 27 de Dezembro de 1984
(3) - Boletim Municipal, nº 10 de Abril de 1992
(4) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 11 de Janeiro de 2005, p. 11
(5) - Alcoutim, Revista Municipal nº 1 de Maio/Junho de 1995
(6) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 11 de Janeiro de 2004, p. 9
(7) – Alcoutim, Revista Municipal nº 13, de Dezembro de 2006, p. 13
(8) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 10 de Dezembro de 2003, p. 27
(9) – “O Algarve Oriental durante a ocupação islâmica”, Helena Catarino, em Revista do Arquivo Histórico Municipal de Loulé, nº 6, 1997/98, p.539.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O comércio da laranja em Alcoutim

Pequena nota
Mais um importante apontamento que o nosso colaborador Gaspar Santos traz a este espaço, recordando e interrogando-se sobre algo que teve importância na economia alcouteneja e que parece ter desaparecido completamente.
Ainda em finais dos anos 60 do século passado a laranja alcouteneja era o sustentáculo de algumas famílias da vila.
Os laranjais ocupavam as margens da parte terminal da Ribeira de Cadavais, estendendo-se depois pela margem direita do Guadiana, a norte da Vila.
Eram muito sumarentas e doces, procuradas pelos comerciantes do ramo vindos do litoral algarvio que como diz o nosso colaborador as compravam na árvore.
Era de tal maneira que por vezes os filhos da terra, principalmente os que estavam fora, pretendiam adquiri-las e já não as encontravam.
Hoje os laranjais estão praticamente abandonados. Não conheço as razões para que isto tivesse acontecido mas também não é difícil imaginá-las.
Se nós não defendemos o que é nosso, quem o há-de defender?


JV




Escreve

Gaspar Santos


[Velhos laranjais na parte cimeira das margens da Ribeira de Cadavais. Foto JV]

Quem vem de fora, em noite sem vento, na época da Páscoa, passadas as Cortes Pereiras, sente o vale da Ribeira de Cadavais. O ar, que é sempre agradável, de múltiplos cheiros, tem agora o suave e ao mesmo tempo intenso aroma da flor de laranjeira. Mas não é só o cheiro da flor o mérito destas laranjas. Também, quando madura, é sumarenta, de casca fina, sem caroços, saborosa como não há outra e assim é reconhecida por todos que as provam.

Alcoutim tem muita laranja. E dela já teve outrora um bom rendimento. Quando estava em flor, negociantes de Moncarapacho compravam-na ainda na árvore. Depois, em Dezembro, Janeiro e Fevereiro enchiam grandes cabazes de ripas de madeira e, de barco até ao comboio, ou de camioneta, levavam-na para o Mercado da Ribeira em Lisboa. Um cunhado meu a quem há anos dei uma dúzia delas dizendo: - “come que são as laranjas melhores do mundo!” Dias depois ele me respondeu: “as melhores do mundo não sei, não conheço todas, mas que são muito boas, são”.

[Laranjais próximo da foz da Ribeira de Cadavais. Foto JV]

E hoje perdem-se. Por razões que são com certeza várias, os negociantes de fora deixaram de procurar estas laranjas. E em Alcoutim temos muita produção e muitas pessoas a produzi-las o que torna muito reduzida a sua procura local. Uns meus familiares que no ano passado estiveram uns dias em Alcoutim, no início de Março, pediram num restaurante um copo de sumo de laranja e a resposta foi que não tinham, não faziam tal coisa… apesar de se avistarem a apodrecer nos campos. Admiramo-nos como ainda as cultivam, quando se comem tão poucas. Mas isto diz-nos que ainda não há crise ou pelo menos que ainda não chegou aqui a moda do sumo. Quando for oportuno não é difícil nem caro que o Quiosque ou alguns restaurantes comprem e façam funcionar um espremedor eléctrico de laranjas e… já se tem o sumo todo que se quiser.

Por outro lado, temos no país o nosso “progresso” que até parece de novo-rico. Endividamo-nos ao estrangeiro com importações excessivas, algumas escusadas, desnecessárias. Comemos laranja espanhola, do Brasil e de África do Sul; melão de Espanha e do Brasil, sumo de laranja (por sinal muito saboroso) da Califórnia E.U.A., espargos do Peru (América latina). Batata de Espanha e de França. E, até já vi vender em Alcoutim batata-doce dos Estados Unidos da América. Nos cereais como nos frutos secos, o Algarve de exportador passou a importador. São os figos e as amêndoas da Argélia e da Turquia. Nem sei mesmo se alguma alfarroba não vem também de fora e se os tradicionais bolos de amêndoa ainda são feitos com alguma amêndoa portuguesa. E os cereais então, são quase todos importados. Como se já não bastasse termos que importar todos os combustíveis que os automóveis consomem.

Em parte são consequências do abandono da nossa agricultura. Por um lado incentivou-se muita gente a afastar-se do campo, porque sendo muitos os agricultores, isso configurava um mundo atrasado. Por outro lado os preços das produções deixaram de ser compensadores. Há mesmo outros frutos que se perdem nas árvores por não pagarem a sua colheita.

Mas hoje, na TV e nos jornais já vemos alguns daqueles que nos quiseram convencer das vantagens do abandono da agricultura a querem-nos “desconvencer” disso e apregoam agora os benefícios do regresso à agricultura, para sermos um bocado mais auto-suficientes. Há mesmo quem aconselhe a fazer uma reserva alimentar preventiva. É bem verdade que no mundo, à medida que alguns países mais carenciados vão tendo acesso a alimentos, eles vão começar a escassear e no futuro teremos que voltar a aproveitar todas as terras, mesmo as que hoje se encontram incultas por serem pouco produtivas.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Mantas de lã

Irá ser pouco o que vamos dizer sobre o assunto pois os conhecimentos são reduzidos sobre a matéria.

Podemos dividir as mantas de lã em dois grandes grupos: as que se destinam ao trabalho e que aqui já referimos (mantas premedeiras) e as de agasalho ou «graves» que se destinam às camas, são as mais trabalhosas e valiosas.

Dentro destas divisões não existe uniformidade de padrões. No primeiro grupo, que era utilizado por maiorais e camponeses utilizavam três cores, as naturais da lã, ou seja branco, castanho-escuro e beije.

No segundo grupo, que é aquele que pretendemos referir, a variedade de decoração era maior com a utilização de figuras geométricas como quadradinhos, rectângulos compridos (fuzis), losangos e círculos, a que se juntavam «espigas».

Eram utilizadas as cores naturais da lã: branco, castanho escuro (preto) e beije, Muitas vezes tinham barras onde as cores eram mais variadas, como azul, verde e vermelho, estas em pequenas aplicações.

Apresentamos pormenores de três mantas. A primeira tem o branco por cor dominante, sendo decorada com duas barras onde predominam as espigas e os fuzis e com riqueza pela variedade e harmonia das cores.

Calculo-a como peça centenária e não conheço semelhante.





A outra, igualmente muito bonita, tem por base o azul que contrasta com o branco em desenhos geométricos igualmente harmoniosos.

Esta saiu do tear de D. Senhorinha Gonçalves e das suas mãos experientes e habilidosas. Adquirimo-la numa feira de artesanato e consideramo-la uma interessante peça.





A 3ª e última que apresentamos é de idade próxima da 1ª.

Aqui o fundo é beije, as barras bem coloridas como a primeira e o padrão geral de configuração próximo da 2ª.

Estas mantas são conhecidas por mantas alentejanas pois eram confeccionadas nomeadamente no Baixo-Alentejo mas esta arte estendia-se à Serra do Algarve e a todo o concelho de Alcoutim, ainda que na freguesia de Giões tivesse maior expressão.





As duas mantas que apresentamos tendo por bases losangos e barras são conhecidas por “montanhac” e que no concelho de Alcoutim ouvimos designar por “montanhecas”.

Parece que o tipo decorativo destas mantas teria tido origem nos berberes do norte de África.

A valoração destas mantas era grande e ainda o é, apesar dos motivos serem diferentes.

Daí uma avó as ter oferecido a uma das netas, atendendo ao valor que elas representavam.

Como a avó nasceu em 1874 é fácil calcular que as peças são centenárias.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Peter o inglês que veio para ficar...

Pequena nota
Nunca falámos com Peter ainda que quando nos cruzávamos havia sempre um aceno de cabeça como saudação.
Com a passagem dos anos, tornou-se uma pessoa carismática de Alcoutim, não tenho sobre isso a menor dúvida.
A quando do seu falecimento fizemos referência ao facto na nossa rubrica "Viagens sem Regresso" com os poucos elementos que dispúnhamos, mas entendíamos que era necessário escrever mais alguma coisa.
Como sabíamos que a nossa amiga, Dra. Alexandra Gradim cimentou uma amizade com Peter Francis, convidámo-la a escrever esse texto.
É isso que temos o prazer de apresentar aos nossos leitores agradecendo à Dra. Alexandra Gradim o seu contributo.


JV





Escreve

Alexandra Gradim




Se estivesse entre nós, Peter completaria hoje 77 anos. Os nossos destinos de pára-quedistas em Alcoutim (designação dada pelos alcoutenejos, àqueles que assentam “arraiais” na sua terra) cruzaram-se no seu barco Golden Miller, aportado no cais fluvial, por entre o entusiasmo infantil de duas dezenas de criaturas que procuravam comunicar na sua língua.

[O barco Golden Miller no cais de Alcoutim, que serviu de residência a Peter durante os anos 90 e inícios do novo século XXI.]

Este exercício lectivo ocorrido em inícios de 1993, cerca de um ano após a sua chegada à vila, foi o despoletar de uma longa e enriquecedora amizade partilhada em redor da arqueologia, da paixão por Alcoutim, do desvendar do Guadiana e dos gostos particulares de cada um que, claro está, por vezes convergiam e outras se descobriam.

O capitão Peter Francis Carey, o peculiar inglês que chegou a Alcoutim não como mero turista de passagem, mas que por aqui foi ficando, intrigou sem dúvida os habitantes da vila que, no entanto, o foram paulatinamente aceitando como mais um dos seus residentes. Este foi aliás o sentimento que me foi transmitido, desde aquela primeira experiência com a população mais jovem de Alcoutim e continuadamente, depois, sempre que o tema surgia naturalmente em qualquer conversa de circunstância.

O facto de Peter se recusar a falar outro idioma que não fosse o seu, dificultava, naturalmente, o contacto com os demais. Limitava-se a comunicar num dialecto próprio, à base de pouco mais do que monossílabos portugueses misturados com um inglês gutural, que compunha com alguns gestos que entendia serem suficientes para transmitir o restritamente necessário à sua sobrevivência. A sua simpatia e sorriso sincero, aliado ao facto de todos nós o imaginarmos em fato vermelho e a distribuir presentes por aí, tratavam do resto e ajudaram sem dúvida a que fosse frequente, ao longo dos anos, eu escutar por parte da população palavras que denotavam uma espontânea preocupação que só as pequenas comunidades devotam a um dos seus.

[Peter no seu barco Golden Miller (fotos cedidas pela sua filha Claire).]

No entanto poucos saberiam ao certo, o que o trouxe até Alcoutim, o que o fez persistir em ficar ou porque decidiu adoptar esta terra como o seu derradeiro pouso. Menos ainda conheceriam o seu humor mordaz, a sua habilidade para os trabalhos em madeira ou o seu gosto pela música clássica! Esta sua paixão levava-o a improvisar brilhantemente um violino numa serra de madeira. Recordo divertida a forma como arrancava prodigiosamente à contorcida lâmina os mesmos sons agudos e melodiosos do instrumento, do qual apenas se reconhecia o arco que utilizava.

Uniu-nos provavelmente o mesmo espírito curioso que cada um, à sua maneira, orientava para a área de investigação que mais lhe interessava. A dele era sem dúvida o Titanic. Esta quimera levou-o a reunir uma considerável documentação, extraída em infindáveis horas de pesquisa em bibliotecas da Inglaterra e Holanda à qual juntou a conseguida através da troca de correspondência que mantinha com outros investigadores e curiosos do tema. Chegou mesmo a publicar em boletins da especialidade.

O seu espírito de lobo do mar, adquirido pelo entranhar de cinco décadas na marinha mercante, impuseram lhe o culto de um certo isolamento, bem mais aparente do que real, pois era um excelente conversador, culto e surpreendentemente conhecedor de áreas tão diversas como pintura, mecânica, arqueologia, biologia ou arquitectura, entre outras.

Foi a incumbência de um serviço que o direccionou rumo a Alcoutim, foram as insondáveis incongruências do destino que o amarraram ao Guadiana e lhe entranharam cada vez mais profundamente a convicção de que a vila de Alcoutim seria a sua derradeira morada! Assim sucedeu no início de um Outono de má memória, em que a dele se inscreveu como a do primeiro inglês a ser sepultado no actual cemitério da vila.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O Ensino Primário na aldeia de Vaqueiros



No concelho de Alcoutim, a aldeia de Vaqueiros foi a última sede de freguesia para quem foi pedida uma escola, o que aconteceu em 1860.

Num relatório elaborado nos primeiros dias de Fevereiro de 1876, pelo Administrador do Concelho, José João Viegas Teixeira, natural da aldeia, diz-se que a casa da escola pertence à Fábrica (da Igreja) e tem as seguintes medidas:- 4,42 m de comprimento, 2,70 m de largura e de altura 2,50. Tem falta de soalho, pouca luz e é de telha vã. No dia da visita foi frequentada por onze alunos e três alunas. Era regida pelo professor temporário, Francisco de Sousa Valente. Em 1874 era professor da mesma escola Ernesto Ribeiro Mendes.

Em 1880 o Presidente da Junta de Paróquia é informado que é “única e exclusivamente da escolha da Junta de Paróquia” o local para a escola, tendo, contudo, em consideração o mais próprio para a construção da casa, podendo ser, se as condições forem boas, na casa onde a mesma escola já se acha. (1)

Nesta altura, o professor de instrução primária é nomeado para servir por mais três anos. (2)

Em 1887 a Câmara diz que devido à “fria concorrência de alunos” a escola podia ser mista em dias alternados.

Dois anos antes, foi informado superiormente que em Vaqueiros existiam em idade escolar cinquenta e oito crianças, sendo trinta e cinco do sexo masculino. Em grande parte não podem frequentar a escola pela sua extrema pobreza. (3)

Em 1914 é nomeada professora da escola masculina, Francisca Rosa Guerreiro, funções que, pelo menos, já tinha exercido no ano anterior e Isaura da Conceição Palma de nomeação interina na escola feminina. (4)

No ano de 1933, possivelmente a escola mista continuaria no mesmo local, já que se pagava de renda à Junta de Freguesia 216$00 anuais.

O último edifício escolar, de uma só sala e situado à esquerda de quem sai da aldeia, tomando o sentido Sul, tinha um logradouro apetrechado de baloiço e escorrega e foi construído na década de sessenta dos nossos dias.

Em 1990 a Câmara Municipal de Alcoutim manifesta-se contra o encerramento de várias escolas no concelho, entre as quais a desta aldeia, a do Zambujal e da Traviscosa, o que acontece devido ao número de alunos ser de 10 ou inferior e isto em conformidade com o decreto-lei nº 25/88 de 4 de Fevereiro.(5)
Os alunos existentes passaram a frequentar a escola de Martim Longo tendo sido integrados na Escola Básica Integrada daquela localidade.

Relacionado com este assunto, tenho dois factos a contar.

Em 1968, encontrando-me na vila, no exercício da minha profissão, fui visitado, como então era normal, pelos serviços de inspecção. Fiquei admirado quando o inspector me disse ser natural do concelho, freguesia de Vaqueiros.

Pela mesma altura, lendo a necrologia de um jornal diário que já não existe, deparei com a notícia do falecimento de um general, natural de Vaqueiros, o que também muito me admirou, já que o nome de família também não era conhecido por ali.

O “mistério” acabou por se deslindar - eram filhos de professoras do ensino primário que no exercício das suas funções tinham passado esporadicamente por ali.

NOTAS

(1) - Ofício nº 20 de 28 de Fevereiro de 1880 ao Presidente da Junta de Paróquia de Vaqueiros.
(2) - Ofício nº 175 de 21 de Dezembro do Professor da Escola de Vaqueiros
(3) - Ofício nº 151, de 26 de Setembro de 1885 ao Inspector da 10ª Circunscrição Escolar do Distrito de Faro.
(4) - Acta da Sessão da C.M.A. de 2 de Julho de 1914
(5) – Boletim Municipal, nº 7 de Abril de 1990, p. 2

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Duarte Moura, uma personalidade

Até meados dos anos 70 do século passado passaram por Alcoutim muitos funcionários, principalmente com funções de chefia que ali eram colocados por promoção.

As regras de então obrigavam a um certo tempo de permanência após o qual era permitido pedir a transferência.

Aconteceu isso com funcionários de finanças, nomeadamente chefes de secção, tesoureiros da Fazenda Pública e aspirantes, verificando-se o mesmo com a chefia da Câmara Municipal, tal como os serviços de Registo Civil e Notariado no relativo aos conservadores-notários e mesmo ajudantes.

Comandantes da Secção da Guarda Fiscal, sargentos, cabos e muitos soldados vindos de todas as partes do país, principalmente do norte.

A esmagadora maioria, depois de cumprir o seu tempo, rodou para outras paragens, mesmo quando aí constituíram família.

Muitos deles nunca mais tiveram qualquer ligação com a Vila por onde passaram, com outros assim não aconteceu.

José António Duarte Moura, que presumo fosse oriundo do Alentejo, em 1939/40 esteve destacado em Alcoutim como responsável da Federação Nacional de Produtores de Trigo (FNPT), vulgo Celeiro, pois havia sinais de prática de irregularidades.

[Antigo edifício da FNPT (Celeiro) onde Duarte Moura exerceu funções e hoje degradado. Foto JV]

O nosso Amigo e Colaborador, Eng. Gaspar Santos, que iniciou naquele departamento ainda bem jovem a sua vida profissional, teve oportunidade de ouvir da boca do então responsável os maiores elogios feitos a Duarte Moura e leu alguns dos relatórios que ali estavam arquivados muito bem organizados e redigidos.

Gaspar Santos revela a grande consideração com que era tido na vila e até a utilização de alguns aparelhos que eram verdadeiras novidades para os alcoutenejos.

Vim a conhecer Duarte Moura numa festa de confraternização (15 de Junho de 1988) que então se fazia entre os alcoutenejos residentes na cintura industrial de Lisboa, teve lugar no Seixal e penso que extinta há uns anos por falta não sei de quem.

Eu e ele fomos convidados pela organização, no meu caso por intermédio do Sr. Eng. Gaspar Santos , para estarmos presentes, o que efectivamente aconteceu, tendo eu proferido uma pequena palestra, o que não foi possível a Duarte Moura por falta de condições de saúde, problema que o veio a vitimar algum tempo depois.

Foi para mim uma grande honra conhecer uma pessoa de tão fino trato, com postura própria de uma geração. Teve a amabilidade de me oferecer com autógrafo uma colectânea de contos que tinha sido acabada de publicar.

Esse trabalho reuniu treze contos, alguns distinguidos com 1ºs prémios e outras distinções em Jogos Florais a que se apresentaram nos anos 50 e 60 do século passado.

O trabalho comporta 123 páginas A/5, foi composto e impresso na Associação de Municípios do Distrito de Beja e numa edição de autor. Não é referido o ano da publicação mas deve ser de 1985/87.



Penso que a Câmara Municipal de Alcoutim teve conhecimento da publicação do trabalho visto Duarte Moura ter tido a amabilidade de enviar como oferta uns tantos exemplares.

Alguns dos contos retratam através do grande poder de observação e escrita bem elaborada as vivências alcoutenejas que não lhe passaram despercebidas, apesar de ter sido curto o tempo que passou em Alcoutim.

Porque considerei importante este trabalho para o conhecimento alcoutenejo, lembrei o Senhor Presidente da Câmara para o facto, sendo de todo o interesse que a Câmara Municipal viesse a adquirir um certo número de exemplares, ao preço de capa, para oportunas ofertas.

Consultado o autor respondeu nos seguintes termos:

... informo que o meu livro “Guadiana” não tem preço e solicito que o aceite como uma oferta a Alcoutim.

Os 500 exemplares que refere estão à Vossa ordem aqui em minha casa.... .

Motivos de saúde impedem-me de me deslocar a Alcoutim para os entregar pessoalmente.

...

A Câmara fez o obséquio de me enviar uma cópia da carta e foi ao revê-la que me lembrei de escrever este texto em HOMENAGEM A UM HOMEM DE GRANDE ESTATURA MORAL E INTELECTUAL.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Como aparece um topónimo



Os antigos habitantes das Cortes Pereiras, Vascão, Afonso Vicente, Santa Marta, Coito, assim como da vila e outras povoações circunvizinhas, nas suas caminhadas para a vila ou nas deslocações para trabalhos do campo através de pequenas carreteiras ou caminhos de pé posto, trilhados durante séculos por pessoas e animais de carga e sela, foram encontrando determinados pontos de referência para se poderem situar.

São aproveitados para tal, acidentes do terreno, a existência de água e outras circunstâncias.

O conhecimento ia naturalmente passando de pais para filhos, pelo que era uma linguagem que todos dominavam e utilizavam com frequência.

Não sendo oriundo da região, não aprendi com os familiares estes saberes, mas bem depressa se me aguçou a curiosidade e sem conhecer os locais fixei entre outros “a voltinha das noivas”, as “águas nascidias”, “a alfarrobeira” e “o carapeto” situados nos caminhos que serviam esta parte norte da freguesia de Alcoutim.

Entretanto, nos anos 60 do século passado, foi construída a estrada para servir o Monte do Sol, só tendo seguimento após o 25 de Abril, construindo-se a ponte sobre a Ribeira de Cadavais o que motivou a vila ter deixado de ser um beco sem saída, situação que veio a ser melhorada com a construção da estrada marginal.

Sendo assim, alguns pontos de referência deixaram de ter uso pois as estradas deixaram naturalmente alguns fora dos seus trajectos.

A alfarrobeira ficou-lhe próximo, pelo que, mesmo viajando de automóvel continua a ser referência.

Porque é que se dizia sem confusão por exemplo - começou a chover quando íamos à alfarrobeira - e toda a gente sabia onde era? Era e é a única existente por aquelas paragens.

Os terrenos por ali não devem ser propícios a tal cultura mas naquele local uma semente arranjou condições para germinar, contudo as sementes que foi criando nunca conseguiram vender as condições adversas que encontravam.

Há uns anos um incêndio no mato acabou por devorá-la mas isso não evitou que as pessoas mantivessem a mesma referência.

Quando isto aconteceu perguntei a uma octogenária se a alfarrobeira era muito velha. Respondeu-me que quando era “moça pequena” já tinha aquele tamanho.

Tempos depois começou a notar-se que a alfarrobeira tinha rebentado e em 2009 já tinha o aspecto que a foto apresenta.

Ali, aconteça o que acontecer, será sempre A ALFARROBEIRA mesmo que ela desapareça.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Lavagem das mantas

Este uso ou costume ancestral, ainda que em moldes ajustados à vida actual, continua a praticar-se nesta freguesia e em todo o concelho de Alcoutim, embora o seja em número mais reduzido.

As mantas poder-se-ão dividir em dois grandes grupos, as mantas de retalho (trapos), destinadas à coberta da cama, tapetes e passadeiras e as de lã as mais variadas e valiosas.

Utilizando o preto, o castanho e o azul como cores, tinham decoração variada constituída por listas, barras, quadrados e outras figuras geométricas. Ouvi sempre falar muito nas “montanhecas”.

Estas mantas eram tecidas em teares rústicos que existiam por quase todos os montes da Serra Algarvia, o que igualmente acontecia na região vizinha do Baixo-Alentejo. Tudo acabou por volta de meados do século passado.

Se a riqueza era avaliada pela qualidade e extensão da terra possuída, para se merecer a designação de lavrador, além do mais era necessário possuir uma boa parelha de machos, bem tratados (gordos) e aparelhados.

Entre as mulheres, a disputa era feita com colchas e mantas, pelo número e sua confecção, tomando em consideração a decoração apresentada.

Se muitas das mantas se guardavam nas grandes arcas de castanho, outras naturalmente andavam em serviço pelo que se sujavam e consequentemente tinham de se lavar.

[Padrão de manta premedeira. Foto JV]

[Padrão de cobertor de lã. Foto JV]

A alcouteneja fazia-o anualmente, no Verão. Como eram peças grandes, escolhiam os pegos das ribeiras e dos barrancos mais próximos e que tivessem condições para a prática.

Vizinhas e familiares juntavam-se para o efeito pois havia necessidade de entre ajuda.

No dia combinado, saiam logo pela manhã com os animais carregados, não esquecendo o taleigo com o farnel. Os homens conduziam as bestas e as mulheres lá iam como podiam, umas a pé, outras a cavalo.

Nesta freguesia recorria-se naturalmente aos pegos das ribeiras do Vascão e da Foupana, aos do Barranco do Alcoutenejo, Ladrões e Malheiro, entre outros.

O sabão utilizado era feito pelas próprias mulheres e ainda que passassem o dia a trabalhar, era um dia diferente devido à confraternização.

As mantas eram estendidas nos restolhos próximos e devido à época de forte calor, secavam rapidamente.

Regressavam ao cair da tarde com todo o trabalho realizado.

Os poços dos montes começaram a ser apetrechados de bombas manuais elevatórias, por volta de 1965, nos locais mais populosos construíram-se lavadouros públicos, após 1975 a energia eléctrica começa a espalhar-se por todo o concelho e o fornecimento de água é feito através de fontanários, para depois o ser casa a casa, na quase totalidade ainda que sem rede de esgotos. Na freguesia, só a aldeia a possui.

A rede viária, então quase inexistente, começa a surgir e hoje chega-se a locais então impensáveis.

Apesar de tudo continuam a existir pereirenses que cumprem a tradição, mas agora o transporte já se realiza de veículo automóvel e há lugar a grande piquenique.

Existem mulheres que não admitem lavar mantas de qualquer outra maneira!

Nas casas antigas, ainda não é muito pacífica a divisão das mantas entre os herdeiros.




Pequena nota
Este texto foi retirado do meu livro “A Freguesia do Pereiro (do Concelho de Alcoutim) «do passado ao presente»”, Edição da Junta de Freguesia do Pereiro, 2007.p. 171 a 173.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

As escadinhas da Rua da Parada

(PUBLICADO NO JORNAL DO BAIXO GUADIANA Nº 73 DE MARÇO DE 2006)

[A Rua de Nª Sª da Conceição com as escadinhas. Óleo de JV]

Ainda que aquilo que escrevo, como não podia deixar de ser, seja da minha inteira responsabilidade, traduz sempre a minha análise sobre as coisas.

Acontece algumas vezes que sou alertado para determinadas situações, muitas delas já por mim observadas e com as quais concordo, outras já assim não acontece por sensibilidades diferentes.

Quando há dilatados meses me foi dado reparar que por encanto tinham desaparecido completamente as velhas, conhecidas e toscas escadinhas, que o povo designava por Escadinhas da Rua da Parada, fiquei perplexo, não queria acreditar. Mas isto era a minha sensibilidade, podendo ser diferente da maioria dos alcoutenejos. Se isto se tivesse passado no norte do País, tudo seria diferente pois se o povo não tivesse gostado do seu banimento, de certeza se teria manifestado imediatamente, dizendo da sua justiça.

Ao sul, as reacções são diferentes, mais comedidas, preferem criticar aqui e ali e por vezes até com medo de serem ouvidas. Em alternativa, mesmo que não tenham gostado, cultivam o dito popular cala-te boca!

Uma ou outra queixa escondida ou pouco explícita não fez ferver a minha opinião até que, em Agosto último, quando alguém que me acompanhava verificou que as escadinhas onde tinha brincado, onde aprendeu a elevar o pesito para vencer o degrau, já não estavam lá, perguntou-me, como se a culpa fosse minha, então destruíram as escadinhas que eu conheci toda a minha vida! ? Não posso acreditar, se por aqui já passava pouco, muito menos vou passar agora – penas que não se vêem, não se sentem, como diz o povo, com razão.

Quando esta troca de (más) impressões teve lugar, logo apareceu, talvez por ter ouvido a conversa, outra alcouteneja, esta que igualmente por ali nasceu e brincou e rondando já as oito décadas que apoiou as críticas abertas que estava ouvindo.

Comentavam as então utentes das escadinhas a circunstância de por “encanto” terem desaparecido. Fazíamos as nossas conjecturas numa tentativa de encontrar uma razão justificativa.

Porque seria? Haverá por aqui alguém que deseje passar com o seu veículo automóvel e assim o possa ter junto da residência ou em garagem? Se assim fosse, tinha acesso pela travessa de Nª Sª da Conceição!

Terá a ver com a recolha do lixo?

Será que desapareceu o grau de inclinação justificativo da existência das mesmas?

Pela nossa parte não encontramos justificação. O grau de inclinação não diminui, pelo contrário, aumentou. Os cubos de pedra que vieram de outras paragens têm faces mais regulares e depois de polidos, estamos convencidos, podem provocar quedas de consequências imprevistas.

Os responsáveis alcoutenejos de então, apesar da falta de técnicos, não tiveram dúvidas de ali mandarem construir aquelas escadinhas, com uma pequena inclinação e tudo isto para proteger de qualquer percalço, os seus utentes.

O xisto e o grauvaque utilizados naturalmente na vila pois são produtos locais, começaram a ser substituídos pelo mármore e pelo calcário!

Para as minhas interlocutoras, aquela já não é a sua rua!

Serão actuações como esta que defendem o seu património construído?
Sinceramente que NÃO.

[Local onde se encontravam as escadinhas na Rua de Nª Sª da Conceição. Foto JV, 2010]

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Quem foi quem? 200 Algarvios do Século XX



Valioso e interessante trabalho de 510 páginas no formato de 16X24 cm de capa cartonada numa edição de Edições Colibri, Lisboa, 2000, com o Patrocínio da Delegação Regional da Cultura do Algarve e a que se juntaram as Câmaras Municipais de Tavira, Faro, Silves, Loulé, Monchique, Lagos, Portimão, S. Brás de Alportel, Alcoutim, Castro Marim, Vila Real de Santo António e Lagoa.

Como o título indica, divulga o conhecimento sobre 200 algarvios do século XX em notas biográficas e que abrange todos os concelho do Algarve, naturalmente com participações não homogéneas.

Nesta plêiade de Algarvios e só nascidos no Algarve não entram e bem aqueles que se afeiçoaram e fixaram na região, encontramos políticos, cientistas, artistas, militares, escritores, etc.

Dos concelhos menos representados, o que é natural, está Alcoutim com quatro representantes que a autora seleccionou dentro dos parâmetros que a nortearam.

Apresenta-nos um militar, o Brigadeiro Trindade e Lima, dois políticos, sendo um indicado com uma vertente dupla, Francisco do Rosário (republicano e empresário), enquanto Trindade e Lima é referido exclusivamente como Professor do Ensino Primário Oficial, ainda que tivesse sido politicamente presidente da Câmara e acérrimo defensor do chamado “Estado Novo”.

É interessante verificar que a quarta figura “seleccionada” é uma mulher, Maria Eduarda Brak Lamy Lopes Alves Barjona de Freitas que efectivamente nasceu em Alcoutim, mas pensamos que dificilmente terá conhecido a sua terra natal porque nasceu por acidente na vila sede de concelho onde seu pai exercia funções de Chefe da Alfândega local.

Tivesse conhecido ou não, a verdade é que é efectivamente uma alcouteneja, como tal tem de ser assim indicada.

Neste blogue já fizemos a sua apresentação com os elementos que dispúnhamos (Vide entrada de 13 de Julho de 2008).

O médico Dr. João Francisco Dias aparece logicamente como representante do concelho de Castro Marim pois nasceu na freguesia de Odeleite.

Na Bibliografia é referido o nosso trabalho, Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio, edição da Câmara Municipal de Alcoutim, 1985.

Falta-nos dizer que esta obra é de autoria de Glória Maria Marreiros, também ela algarvia pelo nascimento.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O Ensino Primário na aldeia de Martim Longo

[Martim Longo. Um aspecto da Rua Antero Cabral, antiga Rua Direita. Foto de JV, 2010]

A escola masculina desta aldeia é tal como a da vila anterior a 1840, mas desconheço a data da sua fundação.

Em fins de 1874 o Administrador do Concelho informa que apesar dos professores cumprirem regularmente os seus deveres, nem por isso os alunos tiveram grande aproveitamento, o que é devido à frequência irregular, pois os chefes de família só mandavam os filhos à escola quando não tinham com que os ocupar em casa. Mais se informa que os professores que exerciam funções no concelho não possuíam o curso das duas Escolas Normais de Lisboa.

No relatório que elaborou nos primeiros dias de Fevereiro de 1876, depois de visitar as escolas do concelho, o Administrador, João José Viegas Teixeira, concluiu que nenhuma delas tem as condições que a lei recomenda mas, fazendo-se-lhe os melhoramentos de que careciam, podiam servir pois não havia melhores por estes sítios.

Podemos informar que das seis existentes, segundo o relatório, nenhuma era assoalhada, a maioria de telha vã e a do Pereiro nem janela tinha!

A primeira referência que dela apanhei, é a do relatório que já referi e que me informa que a casa é alugada, tem de comprimento 5,18 m de largura, 4,83 e de altura, 2,33 m. Tem pouca luz, não tem soalho e é de telha vã. No dia da visita, foi frequentada por vinte alunos, sendo regida pelo professor vitalício, José Guerreiro Cotta, que pede a aposentação em 1881 e é substituído interinamente por João Francisco Gomes Delgado.

Neste ano, a 9 de Outubro, a Junta de Paróquia deliberou requerer à Câmara a criação de uma escola de ensino primário para o sexo feminino, tendo em conta a muita população daquela aldeia, com o que a edilidade acordou. (1)

Não vendo satisfeitas as suas pretensões, a Câmara, em 11 de Agosto de 1883, volta a deliberar, por ser de grande utilidade pública, pedir a criação da referida escola.

Um surto de febres tifóides que grassou em Martim Longo e que já tinha atacado quatro alunos, obrigou o professor, Pedro Severiano Teixeira a fechar a escola depois de ordem superior recebida. (Sessão de 31.07.1884).

A Câmara, em sessão de 9 de Fevereiro de 1882, para evitar abusos e haver igualdade, fixa o seguinte horário para as escolas do concelho.

“Desde Outubro até Março, inclusive, a entrada para a escola será às 8 horas da manhã e a saída às 11 horas e de tarde às 2 e a saída às 5 horas para todos os alunos de 8 a 12 anos. Nos outros meses do ano a entrada será de tarde uma hora depois da marcada.
Aqueles que forem menores de 8 anos só frequentam a escola por tempo de três horas por dia. Isto é, hora e meia de manhã e hora e meia de tarde.
O senhor professor dará aos alunos um quarto de hora de descanso hora e meio depois da entrada, para refrescarem as forças de espírito e designará a entrada para a escola aos menores de oito anos ou a quem tenha dado descanso.”

Em 1887 a escola continuava sem ser criada e a Junta de Paróquia voltou a insistir na sua criação. No pedido formulado, a Câmara lançou o seguinte despacho: - “Acordam em vereação indeferir a presente petição por não poder ser criada mais escola alguma neste concelho, pois para a sustentação das existentes está sendo subsidiada pelo Governo”. (2)

Com a entrada em funções da Escola Básica Integrada, em Setembro de 1999, os alunos do 1º Ciclo foram nela integrados ficando o edifício escolar devoluto.

Segundo informação recolhida tornou-se a sede social da Associação Inter-Vivos.

NOTAS
(1) - Acta da Sessão da C.M.A. de 17 de Novembro de 1881
(2) - Acta da Sessão da C.M.A. de 22 de Abril de 1889

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Azinhal de Martim Longo

[Azinhal, vista geral. Foto de JV, Maio de 2010]

Existem pelo menos 15 povoações no país com esta designação, quase todas no Sul. A única a Norte que encontrámos foi no concelho de Almeida.

Além de Azinhal que já aparece no século XIV (1) existem outros topónimos com a mesma origem.

Azinhal é como se sabe um local onde crescem azinheiras, uma espécie de carvalho, também conhecidas por azinheiro e azinho e abundantes do Sul no país.

É um dos muitos casos de toponímia derivados do reino vegetal.

Situa-se a cerca de 5 km de Martim Longo, sede da freguesia e localiza-se entre duas estradas, a que segue de Martim Longo para o Barranco do Velho (EN 124) e uma derivação desta que começa por servir o Silgado, passando pelo populoso monte do Pessegueiro e os que ficam nessa linha como Mestras e Barroso, vindo entroncar na já referida EN 124. Foi feito na altura, 1989 (2) um pequeno desvio de cerca de mil e quinhentos metros, alcatroado e que serve o Monte do Azinhal.

A nível de população, em 1911 tinha 72 habitantes e sessenta anos depois descia 22%. No censo de 1991 possuía trinta e cinco moradores e no seguinte (2001) eram apenas 29 prevendo que actualmente deverão ser cerca de 20.

Em Maio de 1844 pairou sobre esta povoação huma horrível trovoada que devastou as searas destes sítios. (3)

Existiram nas proximidades deste “monte” dois moinhos de que restam ruínas. Um era branco, isto é, tinha mós “alveiras” que fabricavam farinha de trigo para pão, o outro, o moinho preto moía vários cereais para alimentação dos animais.

[Ruínas do Moinho. Retirado com a devida vénia de http://alcariaalta.blogspot.com]

Em 25 de Setembro de 1849, Silvestre Rodrigues natural deste lugar prestou provas perante o juiz-moleiro nomeado pela Câmara Municipal e ficou aprovado para exercer a profissão de moleiro e pensamos que devia estar relacionado com estes dois moinhos. (4)

Em 1931 a Câmara Municipal concede um subsídio à população do “monte” no montante de 350$00 para arranjo do poço público que estava muito necessitado. (5)

Depois de beneficiar da distribuição de água por fontanários a mesma foi levada ao domicílio em 2002, tendo sido colocada uma bomba de desinfecção. (6)

Em Sessão Camarária de 22 de Julho de 1992 foi adjudicado um conjunto de obras de arruamentos em muitas povoações do concelho e no qual esta estava incluída. (6) Em 2002 houve uma reparação dos mesmos.

Sabemos também que em 2001 foi colocado um abrigo destinado a passageiros de transportes públicos. (8)

Temos conhecimento que por volta do ano 2000 existia na povoação um produtor de ervas aromáticas e medicinais que tinham certificação biológica.
__________________________________

Notas

(1) – Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, José Pedro Machado, Horizonte/Confluência, Vol. I, 1993, p196.

(2) - Boletim Municipal nº 5 de Setembro de 1989

(3) - Acta da Sessão da C.M.A. de 3 de Novembro

(4) – Blogue Alcoutim Livre, entrada de 5 de Julho de 2010.

(5) - Acta da Sessão da C.M.A. de 6 de Agosto

(6) – Alcoutim, Revista Municipal nº 9 de Dezembro de 2002, p.6

(7) - Boletim Municipal, nº 11, de Setembro/92, p. 4

(8) – Alcoutim, Revista Municipal, Nº 8 de Setembro de 2001, p.13

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Irá perder-se a vetusta Igreja da Misericórdia de Alcoutim?

Pequena nota

Apresentamos hoje o último artigo, que tenhamos conhecimento, publicado pelo nosso saudoso Amigo. Não sei, mas possivelmente este teria sido o último.

Nesta altura e são passados trinta e sete anos, já eu escrevinhava sobre Alcoutim e Luís Cunha, pelo que me dizia, era um dos meus leitores.

Sou eu o amigo que lhe deu a conhecer o que ia acontecer à Igreja da Misericórdia e lhe pedi para escrever algo, como ele sabia, para denunciar a situação e tentar chamar a atenção para o facto.

Concordou inteiramente com a minha opinião, como se deduz do texto e teria libertado a sua consciência, como bom filho que era desta terra.

Já se sabia que de nada iria servir. Mais ninguém levantou a sua voz. O que eu me apercebia é que toda a gente estava satisfeita por ir ter um Centro de Saúde – não existia o mínimo de sensibilidade para defender o seu património. Todo o altar e arco triunfal de pintura marmórea penso que da época de D. João VI foram arrasados.

A filha de um alcoutenense que presidiu à Câmara resgatou num amontoado de tábuas que ia para o lixo, o brasão real de D. João VI. As próprias pedras sepulcrais foram mudadas do seu lugar de origem.

A Igreja ficou reduzida a metade e transformou-se numa simples capela mortuária, sem qualquer interesse artístico.

Confesso que me sinto reconfortado por ter dado a conhecer a muitos leitores deste blogue esta série de artigos muitíssimo bem escritos por este nosso saudoso Amigo e que de outra maneira seria muito mais difícil conhecer

A foto amavelmente cedida por sua filha, Dra. Margarida Cunha, partilho-a com os leitores nesta “postagem”.


JV






Escreve


Luís Cunha



(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE, nº 861, de 22 de Setembro de 1973)

Mais pelas tropelias dos homens que por efeito das partidas que o tem às vezes prega, pouco se sabe do passado de Alcoutim.

Os arquivos municipais, ao que cremos, nunca foram vasculhados por alguém habilitado, e, pelo menos à primeira vista, os mais antigos documentos ali existentes, são os diários das sessões a partir de mil oitocentos e vinte e tal, já que uma das primeiras registadas é a consagrada ao juramento da Constituição de 1820 decretada por D. João VI em 1825. Vários incêndios e outros acidentes dão causa a essa raridade.

O alcaide da vizinha S. Lucar contava terem existido no seu “ayuntamiento” ou na Igreja local, inúmeros livros levados de Alcoutim durante a dominação e que desapareceram.

As tropas napoleónicas também por cá fizeram tropelias, segundo parece e a seguir o bando de salteadores que acompanhava o Remechido incendiou por duas vezes a Câmara e demais repartições. Talvez por tudo isto não exista nada anterior a essa data.

Na década de 30 do presente século – diz-se – saiu da Câmara enormíssima quantidade de papeis vendida a farrapeiros. Pomos isso em dúvida, pensando tratar-se de satisfação a algum apelo dos arquivos históricos, na recolha de documentos. Certo é que, pelo caminho da procura de documentos, quer localmente, quer em Lisboa, onde já foi tentada, pouco se tem conseguido. Um amigo radicado há anos em Alcoutim e que por natural temperamento dedica parte do seu tempo a este género de pesquisas, tem-se visto em embaraços por esta razão. Deste modo, restar-nos ia a tradição oral, outrora muitíssimo rica, mas até dela estamos privados porque os que a podiam haver transmitido, desapareceram sem ter a quem fazê-lo.



Vem este largo preâmbulo a propósito do perigo que corre a velha igreja da Misericórdia de Alcoutim, a qual, segundo parece, vai ser destruída na sua parte mais importante (altar, arco triunfal, lápides sepulcrais e porta lateral encimada por um lintel de 1628) para adaptação a Centro de Saúde.

[Lintel de 1628 (*). Foto JV]

É na realidade lamentável, não só porque sempre será mau o remedeio – com perdão por meter foice em seara alheia – como por se perder o que tanto esforço e abnegação custou a essa pobre Irmandade, das primeiras a fundar-se no Reino, e que, sempre pobre e sem auxílios externos, tudo deveu ao muito carinho das antigas populações concelhias. Desconhece-se a data rigorosa da sua fundação, mas se em uma das pedras sepulcrais se assinala 1513 como a de um passamento, é evidente que a igreja lhe será anterior. De qualquer modo, mesmo que de 1513, terá sido das primeiras do País, já que a instalação da Irmandade em Portugal se deve a frei Miguel de Contreiras, em 1498, durante a regência de D. Leonor, viúva de D. João II, na ausência em Espanha de seu irmão D. Manuel.

Não podemos deixar de fazer coro nas lamentações do amigo que de Alcoutim nos presta tais informes porque, se a terra é de si tão pobre, como privá-la mais ainda, derrotando o pouco que lhe resta?

[Luís Cunha. Foto gentilmente cedida por sua filha, Dra. Margarida Cunha]

Ali bem perto, na Praça da República, exibem-se vergonhosamente, uma velha cadeia em ruínas e um grande quintalão anexo, cujos muros, no mesmo estado, fazem ao visitante a pior apresentação possível da vila, dois autênticos mamarrachos, que não podiam ter melhor utilização, resolvendo de uma vez dois grandes problemas; a falta de hospital e o saneamento da praça.


[A igreja da Misericórdia em 1970, por isso antes de parte ter sido anexado ao Centro de Saúde. Foto JV]


A benemérita instituição, com seus períodos altos e baixos, prestou até tempos recentes, inestimáveis serviços mas no princípio deste século entrava definitivamente em decadência. Conhecemos-lhe ainda a altruísta missão do transporte de todos os falecidos pobres e o não pouco arriscado serviço durante a “pneumónica”.

Um idoso e pobre amigo do monte de Afonso Vicente, a propósito da extrema miséria que o lançara na necessidade de este4nder a mão à caridade pública, contava-nos, há anos uma antiga forma de caridade tradicional cuja belisca não resistimos à tentação de relatar.

Em tempos antigos – disse-nos – existia em quase todos os montes uma casita chamada dos pobres e que mais propriamente se destinava às pessoas em trânsito, porque se desconheciam então no concelho quaisquer pedintes. Para os indivíduos com as suas actuais condições, sem familiares e incapazes de mais nada, agia-se muito singelamente da maneira seguinte: nessa casita, pertença da Irmandade, existia um dos seus hábitos com capuz e uma alcofa.

As amassaduras faziam-se so sábado e em nenhuma faltava o pão ou “brendeiro”para o necessitado. À meia noite, um dos irmãos, embuçado, percorria as casas e depositava a colheita à porta do pobre. Sem ficar especialmente devedor a qualquer, este não era nunca o menos beneficiado, pois de tudo ali vinha em quantidade mais que suficiente para a semana.

No princípio deste século as coisas já se tinham modificado bastante e a Irmandade atravessava um período de crise, mas a emigração é que acabou de arruinar a vida dos campos. Os velhos e inválidos que restam quase não agricultam e só raramente engordam o porquito. Recebem dos ausentes o dinheiro com que adquirem tudo, por vezes até temperos, e se naquela antiga forma nada lhe custava dar um pão ou naco de toucinho, são agora incapazes de ceder um só tostão, norma até há bem pouco praticamente desconhecida na terra. Daí a extrema penúria em que se encontrava aquele amigo.

É deveras curiosa a explicação simplista que a seguir nos deu, do encadeamento de circunstâncias conducente a este estado de coisas: substituição do arado pela charrua, constituição do trigo em produto de venda como efeito de legislação moageira que, encerrando azenhas e moinhos de vento, obrigou os homens a isso; esgotamento e degradação dos solos por falta de pousios e, por fim, emigração em massa.

Embora discordando de tão singela explicação, já que não existe entre o progresso e a caridade o mais pequeno ponto de atrito ou incompatibilidade, lamentamos que ela haja pura e simplesmente desaparecido, em vez de evoluir, acompanhando nesse mesmo progresso a abertura da inteligência às novas condições.

Quanto à iminência de destruição da parte da igreja da Misericórdia mais valera estarmos enganados em tal suposição por não haver modo de podermos concordar com ela, não considerando que seja a única nem a melhor solução, pois o que irremediavelmente se destrói, mal resolve, se é que o faz, o que se propõe e relega “ad vitam aeternam” a questão dos dois mamarrachos que apontámos.


Nota
(*)
- Esta porta com a adaptação ao Centro de Saúde foi retirada à igreja e englobada naquele. A fotografia é recente e por ela se vê a pouco sensibilidade que existe para preservar o património visto não ter havido o cuidado de o mandar proteger, evitando o que aconteceu, ficou pintado.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Abóbora de casca



Como é do conhecimento geral, existem muitos e variados tipos de abóbora, quase todas comestíveis.

As plantas são rastejantes ou trepadeiras, necessitando que o terreno seja bem estrumado e que a água não lhes falte.

Abóbora-cabaça ou cabaceira não comestível em Portugal mas que outros povos utilizam na sua alimentação, abóbora-gila ou chila utilizada em doçaria e onde segundo a tradição (será só tradição?) não pode ser partida com objecto metálico pois se o fizerem adquire mau gosto, abóbora-menina de polpa alaranjada, de formatos muito diferentes, que por esta região é conhecida como “frade” e abóbora-porqueira por ser muito utilizada na alimentação dos porcos.

A abóbora de casca que adquire o nome devido à rijeza ou consistência da sua casca é conhecida, pelo menos, em grande parte do Alentejo como abóbora de casca de pau.

O seu estado de maturação é avaliado através da unha. Quando o homem não a consegue introduzir é sinal que está pronta a ser colhida e confeccionada.



Não deixa de ser interessante a máxima que encontrámos no concelho de Alcoutim. A abóbora de casca só deve ser cozinhada nos meses que não têm “R” ou seja: Maio, (quando começa a aparecer) Junho, Julho e Agosto. A partir daqui, começa a perder as suas características.

Como já dissemos, consideramo-la uma matriz do jantar de grão ou de feijão, sendo confeccionada com a casca da qual se retira o recheio com uma colher.

Para a partir atira-se ao chão, já que a faca não entra ou corta-se com uma machada. Pela nossa parte, cortamo-la com uma serra às fatias.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Jantar de grão ou de feijão



Esta recente rubrica criada por sugestão de um dos colaboradores, como já verificaram, não tem o intuito de apresentar receitas como normalmente acontece. Pretende chamar a atenção para alguns pratos característicos do concelho de Alcoutim e que por vezes aparecem indicados, quanto a nós, com adulterações que desvirtuam o que é original.

Este prato, que consideramos dos melhores do concelho, desde que seja confeccionado com produtos locais, o que hoje se torna muito difícil, começa logo por nos oferecer alguma controvérsia quanto à sua designação.

Apresentamo-lo como “jantar” e não como “cozido” ainda que efectivamente se trate de um cozido.

Jantar em vez de cozido porquê?

Foi assim que o conhecemos e observámos que era um jantar ao almoço.

Só mais tarde viemos a perceber porque assim era.

O número de refeições e a sua designação não tem sido constante ao longo dos tempos e nos sítios mais rurais, ainda há alguns anos, se falava na ceia.

Na Idade Média havia duas refeições diárias, o jantar por volta das 10/11 horas, de uma maneira geral a refeição mais substancial e a ceia por volta das 19/20 horas (um intervalo de cerca de oito horas). Com o rodar dos tempos e o desenvolvimento das actividades, foram aparecendo outras refeições, mata-bicho, pequeno almoço, merenda, merendinha e o jantar começou a ter lugar mais tarde, passando de jantar para almoço e a ceia perdeu essa designação passando a chamar-se jantar.

De uma maneira simplista foi assim que as coisas se passaram e estará aqui encontrada a designação de JANTAR, já que este prato se destinava principalmente a essa refeição e não à CEIA.

Quanto mais isolados fossem os locais e isso acontecia com Alcoutim, mais genuínos se tornavam os pratos, pois tinham de ser confeccionados com aquilo que se ia produzindo e não com o que vinha de fora, de difícil acesso e onde o dinheiro não abundava para a sua aquisição. Ainda no primeiro quartel do século passado o peixe do mar que vinha pelo Guadiana acima trazido por gente do litoral algarvio era muitas vezes comerciado no sistema de troca, trocam-se sardinhas por ovos ou pelanganas de barro por trigo.

Fica assim explicado porque preferimos “Jantar” a “Cozido”.

Dando uma volta por livros de culinária e pela Internet, encontrámos de tudo com mais ou menos razão.

É evidente que o prato que se pratica em todo o Sul do país, apresenta naturalmente diferenças, algumas bem acentuadas.

O que pretendemos aqui referir é o JANTAR de GRÃO ou de FEIJÃO que consideramos genuíno do concelho de Alcoutim. Um Jantar completo não podia ter lugar em qualquer época do ano já que os produtos não existiam.

Para nós, o que mais caracteriza um jantar de grão ou de feijão, além deste legume seco, é a indispensável abóbora de casca e não frade, as beldroegas, a vagem (feijão verde), a batata (batata doce já que a outra é a batata redonda) e o toque final dado pelo vinagre de vinho, sem o qual o cozido não tem significado, rematando com o ramo de hortelã.

O grão ou feijão, depois de demolhado, era cozido então numa panela de barro e ao fogo de lenha (normalmente esteva), o que hoje se faz numa panela de pressão, com chouriça preta, linguiça, um osso salgado de porco, toucinho entremeado ou da faceira, orelha ou pé (como aqui dizem) de porco, não ficando mal juntar um pouco de galinha, na altura sempre do campo ou carneiro.

Estas quantidades tinham de ser bem doseadas pois a salgadeira tinha de dar para o ano e afinal se o prato tiver carne demais perde valor, pois as carnes funcionam mais como tempero.

É conveniente que as carnes fiquem bem cozidas, tal como o grão e que haja molho com alguma abundância onde se cozem a abóbora de casca (é mesmo cozida com a casca), as beldroegas, a batata-doce, a batata redonda e a vagem.

Entretanto, cortaram-se fatias finas de pão tipo caseiro que se colocaram num recipiente alto em cima do qual se colocou um ramo de hortelã.

O caldo bem quente e consistente é deitado sobre o pão que o vai absorvendo.

Tanto a carne de vaca, arroz ou qualquer outro enchido não se justifica nos jantares de grão ou de feijão no concelho de Alcoutim, segundo a nossa modesta opinião.

A qualidade do jantar depende de produtos regionais sendo a abóbora de casca fundamental.

N.B. Os pratos que se apresentam não estão completos e o jantar foi confeccionado em Maio de 2009, no concelho de Alcoutim por D. Claudina Colaço Costa de 80 anos.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Resta-nos uma cabidela on-line...






Escreve

Amílcar Felício


Quero agradecer publicamente ao amigo Nunes o belíssimo galo com que me presenteou na sua Câmara Escura de 24 de Janeiro e dizer-lhe que concorre perfeitamente com o galo de que vos falei na minha última crónica, pois se bem me lembro pesava entre 6Kg a 7Kg depois de "descascado". Quero sossegar também o amigo Nunes, até porque acredito que tenha mesmo o galinheiro desactivado e que não esteja apenas a dar-me uma falsa pista, para me desmotivar de qualquer aventura.

Quanto à falta de galináceos no nosso Concelho ainda segundo o amigo Nunes, francamente já suspeitava que tal acontecesse e naturalmente tenho andado atento para arranjar uma solução para o problema... E parece que encontrei.

Há dias telefonei ao meu primo Zé Manel dando-lhe os parabéns por mais um aniversário. Trata-se de um alcoutenejo de raiz com a minha idade, embora com vivência citadina quase toda a vida. Então rapaz, passaste um bom dia de aniversário (?), perguntei-lhe eu, ao que ele respondeu: "olha pá, passei o dia todo na horta!". Estupefacto questionei-o, mas tu agora tens uma horta? "Não é esse tipo de horta de que estás a pensar, é uma horta na Internet!" respondeu-me ele meio a sorrir. Francamente parecia-me estar a ser interlocutor de uma conversa entre malucos, não dava para entender...



[Regalos de uma horta real. Fotos de JV]

Depois de nos despedirmos e de uma pequena investigação lá descobri que também já se semeiam couves, alfaces, tomates etc., na internet e que aquilo vai crescendo, mas que precisam de ser tratadas todos os dias para um crescimento normal. Prometo-vos que vou ficar à coca para descobrir a criação das melhores galinhas de algum internauta na Farmville do Facebook e depois comunico.

Assim e ao que tudo indica, tenho fortes razões para não perder a esperança de fazer uma boa cabidela nem que seja on line. Estão desde já convidados. Terei é que refinar rapidamente os processos de apanha e confecção, já percebi! Lá vou ter que fazer uma formação acelerada com o Julian Assange chefe da WikiLeaks!

Este mundo está um espanto e a ficção é cada vez mais uma realidade para muita gente! Cada vez estamos mais perto da natureza...

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

A esteva, arbusto dominante no concelho de Alcoutim

[Esteva florida. Foto JV, 1990]

Há muito que pensava escrever algo sobre este arbusto que domina como mato os solos xistosos do concelho de Alcoutim.

É planta espontânea e própria de locais incultos do sul de França, Espanha e Portugal, sendo mais vulgar no sul nosso do País. Nasce com frequência nos intervalos das rochas, rasga o chão através das fendas dos xistos, conseguindo sobreviver onde poucos o fazem.

Procura solos ácidos não calcários de xisto, granito e quartzo. É um arbusto perene.
Da família das cistáceas (cistus ladanifer) é também conhecida por xara, havendo uma espécie de esteva a que se chama roselha.

[Roselha]
Atingindo até cerca de 2,5 m de altura, as folhas são persistentes e lanceoladas, de verde-escuro na face superior e um pouco mais claro na inferior.

As flores de cinco a oito centímetros de diâmetro compõem-se de cinco pétalas brancas, com um ponto de vermelho sangue a castanho na base de cada uma, sendo os estames amarelos.

Principalmente as folhas apresentam-se recobertas de uma espécie de resina aromática.

Os frutos constituem cápsulas globosas.

Uma das funções da resina é a de proteger a planta contra a acção do calor.

Quando cortada no estado de adulta resiste com dificuldade secando na maioria das vezes, mas quando jovem rebenta no ano seguinte com muito mais força.

É conhecida a utilização da esteva em vários campos: as folhas libertam uma espécie de resina (ládano) usada na perfumaria principalmente como fixador.

O médico português, João Rodrigues de Castelo Branco, mais conhecido por Amato Lusitano (1511-1568) já o utilizava como unguento.

O seu óleo também é utilizado para combater doenças de pele e acredita-se que tem propriedades sedativas.

Sabe-se que a esteva constitui um anti-séptico, anti-bacteriano e anti-viral.

Popularmente nalgumas regiões era utilizada para desinfectar feridas e aliviava as picadas do insectos. Igualmente era usada para combater a queda do cabelo.

É também utilizada na tinturaria para obter um tom verde-escuro.

O que acabámos de referir nem tudo é aplicável ao concelho de Alcoutim, pelo menos que seja do meu conhecimento.

A grande utilidade da esteva prendia-se à sua utilização como bom combustível. Era arrancada a pulso, no Inverno, pois é quando o terreno está mais brando. Atava-se, com a ajuda de outras plantas, como o loendro, aos molhos formando faxinas que umas sobre outras ficavam a secar para na altura própria serem carregadas nos burros que as levavam aos montes, por isso, ao lugar onde as pessoas viviam.

["Arreigota" de esteva. Foto JV]
Eram com elas que se aqueciam os fornos onde se coziam as amassaduras semanais do indispensável pão, base da alimentação. Por outro lado era a esteva que alimentava o fogo em que se faziam as refeições, muitas delas confeccionadas em panelas de barro.

Por estes dois pontos compreende-se facilmente a utilidade da esteva na vida comunitária.

Mas não fica por aqui a sua utilidade .

O seu uso como prego em várias situações, por exemplo, cortiços para abelhas e para fazer agulhas.

Na feitura de pequenas paliçadas para protecções de vários tipos, principalmente de carácter agrícola, na cobertura de abrigos para animais e ainda protegendo árvores novas do dente nocivo dos animais.

Com a modificação da vida e o abandono dos campos, os estevais vão naturalmente desenvolvendo-se. Hoje, protegem os coelhos e lebres, perdizes e javalis dos seus predadores. Tendo-se desenvolvido de um e de outro lado dos caminhos, muitos deles já não dão passagem ao homem que hipoteticamente poderia passar por lá.

Os veados que já vão existindo no concelho de Alcoutim encontram neles um bom refúgio e segundo afirmam os entendidos, as cápsulas do fruto da esteva proporcionam às mães fornecerem melhor leite aos cervatos.