quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O corte de carnes verdes na Vila de Alcoutim

(PUBLICADO NO JORNAL ESCRITO, Nº 61, DE MARÇO DE 2004, P.IV, ENCARTE DE "O ALGARVE" Nº 4785)

A vila de Alcoutim não possui qualquer talho fixo, ainda que tenha há muito mercado municipal, onde quase diariamente funciona a venda de peixe fresco e de espaço a espaço, frutas e hortaliças.

Há trinta anos matava-se em qualquer quintal, de vez em quando uma cabeça de gado, normalmente ovino, que se adquiria nos chamados talhos da vila.

Hoje a vila é abastecida por um talho móvel que aparece aos sábados de manhã e onde as pessoas formam fila.

Mas não é sobre o actual abastecimento de carnes verdes à população que queremos escrever, mas sim sobre o que se passava na vila na segunda metade do século XIX.

Em 1836 cada pessoa que matasse na vila, pagaria por cabeça, vinte réis, satisfazendo assim o imposto Real de Água.

Achando-se o açougue em estado absoluto de ruína e carecendo de ser reparado, mas não havendo fundos para o efeito, acordou a Câmara em estabelecer um imposto, aplicado exclusivamente para a conservação e reparos do mesmo açougue, mandando que se observe o seguinte: - “Todo o indivíduo que vender carne ao público sem ter antes manifestado e pago 40 réis por cabeça abatida, aplicados para reparação e conservação do açougue, terá de multa quinhentos réis.”

Esta postura compreende não só o gado lanígero e de cabelo, assim como o suíno e começará a vigorar no 1º de Novembro próximo futuro, em diante. (1)

Em 1844 a Câmara Municipal decide pôr à arrematação o Corte Exclusivo de Carnes Verdes no Açougue da Vila, com as seguintes condições:

1º-Começa em 1 de Junho e finda em 30 de Junho do ano seguinte;

2º-Deve de haver dois cortes por semana, ao Sábado e à 3ª feira, desde o Sábado de Aleluia até ao dia 4 de Outubro e um só corte no resto do ano, alterando-se o corte do dia de Entrudo para a 2ª feira-gorda.

3º-Dar corte de chibato aos sábados, carneiro às 3ªs e quando houver um só corte ser sempre de chibato e matar, além disso, cabra nos meses de Junho até Setembro, inclusive.

4º-Vender o chibato e carneiro a 35 réis nos meses de Fevereiro e seguintes até Julho, inclusive, e de igual montante nos meses de Outubro e Novembro, enquanto em Agosto e Setembro seria a 30 réis e a 40 em Dezembro e Janeiro. No que diz respeito à cabra, em Junho e Julho seria a 25 réis e nos outros dois meses, Agosto e Setembro, passaria para 20 réis.

5º-Finalmente, as cabeças a abater não deverão ter idade inferior a dois anos e deverão ser capados, o chibato sempre, o carneiro nos meses de Julho, Agosto e Setembro.

O corte de carnes verdes, sob estas cláusulas, foi posto a concurso sendo arrematado por Manuel Madeira, do Monte de Afonso Vicente. (2)


No preço referido não consta a quantidade a que diz respeito, não estando ainda em vigor o sistema decimal. Seria o arrátel que em Alcoutim equivalia a 448,75 g.

Eram estas as condições que a Edilidade procurava impor para defesa do povo (estávamos no liberalismo) tanto a nível de número de cortes, do preço, que oscilava conforme a época, como da maturidade da cabeça a abater.

Igualmente, o aspecto religioso é tomado em consideração.

As arrematações foram-se sucedendo dentro destes parâmetros, já que só em 1868 voltámos a extrair ficha do assunto, atendendo a que existem algumas mudanças consideráveis.

A principal começa logo por só se ter apresentado um interessado ao corte exclusivo de carne, na vila. Trata-se de Custódio Domingues, do Balurco de Cima com quem a Câmara convencionou as seguintes condições:

1º-Que ele, Custódio Domingues, fica obrigado a fornecer carne de chibato e de carneiro aos habitantes desta vila desde hoje (16.05.1868) até 1 de Novembro do corrente ano;

2º-Que a carne de carneiro que só podia matar até ao fim de Junho, será vendida a cento e vinte réis o quilograma (já tinha entrado em vigor o sistema decimal) e a de chibato a 140 rs., igualmente ao quilo;

3º-Que haverá dois cortes por semana, um nas 3ªs feiras e outro nos sábados;

4º-Finalmente que fica proibido a qualquer outra pessoa o matar e vender carne ao povo “dentro dos muros da villa”. (3)

As condições propostas e devido aos condicionalismos, proporcionam uma maior liberdade de movimentos.

Quinze anos depois, em 1883, aparece-nos um auto de Contracto de Fornecimento de Carnes Verdes feito com João Francisco Pimenta desta vila por tempo de um ano a começar no 1º de Maio e findando em 30 de Abril. Não encontrámos expressas mais clausulas no contracto.

Décadas depois, ainda conhecemos um familiar de João Francisco Pimenta em tarefas da mesma natureza, mas sem o espartilho imposto nas arrematações.
Atendendo a que o açougue, palavra de origem árabe (4) é o lugar destinado ao abate de rezes e onde pode ter lugar o corte e venda de carnes a retalho, ajusta-se que digamos aquilo que encontrámos nas nossas leituras, ainda que seja reduzido.

Sabemos que em 1860 o açougue da vila situava-se na Rua da Misericórdia, junto ao local onde Manuel José da Trindade e Lima estava edificando um prédio para habitação. (5) Convindo-lhe esse espaço para incorporar na casa, apresenta à Câmara Municipal um requerimento solicitando permissão para a sua inclusão na construção que estava realizando, obrigando-se a construir outro açougue com as dimensões do actual, no sítio que a Câmara julgar por conveniente.(6)

[Casa mandada contruir por Manuel José da Trindade e Lima, na Rua da Misericórdia e ainda existente. Foto JV, 1972]

A Câmara aceita a proposta e deu um prazo de três meses para a sua construção.

O Presidente da Câmara, José Joaquim Madeira, informa a mesma que não tendo o cidadão Manuel José da Trindade e Lima, cuidado ainda de aprontar a casa que destina para açougue, era conveniente lembrar-lhe a necessidade de fazer a referida obra dentro do prazo de três meses que se lhe havia marcado no princípio de Março, pelo que foi aprovado fazer-se a competente intimação, em termos legais para se for necessário poder ter lugar ulteriores procedimentos. (7)

Não encontrámos mais qualquer referência a esta construção. Dezoito anos depois temos a informação dada à Câmara, pelo Administrador do Concelho, que havia feito mudar de um local imundo, onde se achava, a casa do açougue, passando este serviço para outra dentro do castelo, no qual se dão as precisas condições higiénicas. A Câmara reunida, louvou esta medida e autorizou a remoção das estrumeiras. (8)

Neste mesmo ano, em data que não podemos precisar, é dito que as casas do castelo pertencentes ao Ministério da Guerra e que já foram aquartelamento estão de tal forma deterioradas que não reúnem nenhuma das condições indispensáveis para serem hoje ocupada pela força militar.

Dez anos depois (9) o Administrador do Concelho informa que foi arrendado o castelo desta vila com exclusão das casas onde se acham depositados os utensílios pertencentes às obras públicas.

Em 1892, o terreno e figueiras do castelo, bem como todas as casas que se achem dentro deste, à excepção da anteriormente referida, estavam arrendadas a António Maria Xavier.(11)

Estas últimas informações fazem pensar que nesta altura já o açougue não funcionava no castelo.

Aqui ficam alguns factos passados no decorrer dos tempos que nos podem levar à reflexão.


NOTAS

(1)- Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 20 de Outubro de 1841

(2)- Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 25 de Maio de 1844

(3)- Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 16 de Maio de 1868

(4)- Do ár. As-sõq, “mercado, feira”- Vocabulário Português de Origem Árabe - José Pedro Machado - Editorial Notícias - 1991

(5)- Trata-se do prédio onde está hoje instalado o Bar "Vila Velha".

(6)- Acta da Sessão Câmara Municipal do Alcoutim de 3 de Agosto de 1860

(7)- Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 10 de Abril de 1870

(8)- Acta da Sessão da Câmara Municipal de Alcoutim de 5 de Setembro de 1878

(9)- Ofício nº 140, de 2 de Julho de 1888, do Administrador do Concelho ao Director de Obras Públicas de Faro.

(10)- Ofício nº 169 de 29 de Outubro de 1892, do Administrador do Concelho ao Chefe da Comissão de Engenharia de Tavira.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

História de Portugal - II Vol. (1415-1495)



No Escaparate de hoje iremos abordar o II Vol. da História de Portugal, de Joaquim Veríssimo Serrão, Editorial Verbo. De formato idêntico ao I Vol. é composto por 373 páginas.

Este volume trata da FORMAÇÃO DO ESTADO MODERNO. É dos tomos publicados até agora, o que possui maior número de referência a Alcoutim.

Assim:

Pádg. 246
Vida municipal
Foram mais tardias as obras municipais no Algarve, onde, em 1475, o panorama era desolador quanto a fortificações militares: os castelos de Alcoutim, Castro Marim e Cacela tinham os muros derrubados, o mesmo sucedendo com a maior parte dos muros de Tavira (…)
Pág. 251
Coutos de homiziados
A política régia de protecção aos homiziados manteve-se no reinado de D. Afonso V levando por variáveis razões à instauração de coutos em Colmenar das Donas (1450), Alcoutim (1458), Vilar de Mouros, Caminha (1462), Odemira (1465) (…)
Pág. 256
Judeus
Nos finais do século XIV havia várias comunas judaicas, sendo as mais importantes Lisboa, Santarém, Coimbra, Porto, Guarda, Évora e Faro.
(…)
A partir da segunda metade do século XV, devido à aglomeração dos judeus em várias terras, surgiram novas comunas em todo o Reino. Assim, ao Norte do País (…) Na parte que respeita ao sul do Tejo, surgem bairros judaicos em Avis, Crato, Fronteira, Évora-Monte, Estremoz, Palmela, Juromenha, Alvito, Beja, Moura, Alcoutim, Silves, Portimão e Alvor- Tal facto permite defender que a presença social dos hebreus já era marcante no Reino antes da forçada imigração de Castela, o que comprova a importância desse estrato da população no período que se abre com a dinastia de Avis.


Pág. 272
Moinhos e azenhas
Nos últimos anos do século XV, tem-se notícia da existência de moinhos em Leiria, Fundão, Tavira, Ota, Pernes, Trancoso, Lamego, Alcoutim, Loulé, Lagos, (…) Havia vários engenhos de água na região de (…)

Págs 283 e 284
Alfândegas e portos secos
O surto do comércio externo ao longo do século XV traduziu-se no movimento alfandegário e dos portos secos (…) No que respeita sobretudo ao comércio terrestre com o reino vizinho, tornou-se considerável o número de pontos de ligação, quer em regime de alfândega (Caminha, Chaves, Alfândega da Fé, Alcoutim e Castro Marim), quer de portos (…)
Diogo Pereira, «nosso criado», obteve a recebedoria da Alfândega de Alcoutim (carta de 9 de Maio de 1475)


Pág. 321
Humanismo e tipografia
Pelo ano de 1485 veio para o Reino o humanista italiano Cataldo Parício Sículo, crê-se que atraído por D. Fernando Coutinho, futuro bispo de Lamego, ainda que a tradição mantenha que foi o Príncipe Perfeito que o chamou para a educação do bastardo D. Jorge, que vivia junto de D. Joana no Convento de Jesus de Aveiro. O humanista passou depois ao serviço da corte estabelecendo relações com os nossos letrados e cortesãos (…) o que levaram Costa Ramalho a considerá-lo o introdutor do Humanismo em Portugal. (…) Mas a existência de nomes como D. Pedro de Meneses, conde de Alcoutim (…) basta para compreender o ambiente cultural, de raiz italiana que se viveu no Reino na última fase do século XV.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Portas de Tavira


[Rua D. Sancho II, antiga Rua Portas de Tavira. Foto JV, 1986]

A Edilidade não manteve o velho nome de Rua das Portas de Tavira e crismou-a com D. Sancho II, o rei que conquistou (?) a vila para sempre aos mouros. Sem dúvida que o nome do monarca tinha um lugar a ocupar, mas havia outros locais (ruas, praças e largos) onde não ficaria mal.

Parece-nos não andar distante da verdade localizando-a ao cimo dessa rua, junto às escadinhas de Nª Sª da Conceição.

Em 1 de Maio de 1873, João Francisco “Pimenta” e António Barão pedem terreno municipal junto às “Portas de Tavira” para construírem um prédio, mas não foi concedido porque não estava decidido por onde a estrada nacional havia de sair da vila. (1) Um ano depois, João Francisco Pimenta pede à Câmara terreno para fazer umas casas, agora fora das “Portas de Tavira”, já demolidas e no sítio que lhe for demarcado. (2) Por isso, em 1874 as portas já não existiam.

A parte cimeira da Rua D. Sancho II constituiu a “nova” vila, sendo as habitações de construção mais recente em relação ao núcleo histórico situado dentro das muralhas.

Esta “porta”, além de servir o caminho da forca, devia ser o término duma estrada que partia das proximidades de Tavira e atingia a “serra”, percorrendo as principais povoações deste concelho.

Novamente encontrámos a razão da designação de “Portas de Tavira”. Dela ainda possuímos um interessante documento, uma pedra gravada, encimada por brasão de armas real e com a seguinte inscrição ALFOMSVS VI REX PORTVGALI ET ALGARAVIORVM MDCLXI, assunto que já aqui abordámos e para não nos repetirmos.

A lápide está colocada na muralha da igreja matriz, mesmo junto ao cais velho.

Se em 1661 a “porta” existia, porque não aparece no desenho de Duarte de Armas (Século XVI)?

Tal como nas duas já referidas, as "Portas de Tavira" tinham a sua guarda própria.

NOTAS
( 1) - Acta da Sessão da C.M.A. de 1 de Maio de 1873.
( 2) -Acta da Sessão da C.M.A. de 13 de Março de 1874.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Três alcoutenejos de verdade


A Câmara Escura de hoje apresenta três alcoutenejos de verdade, pois nasceram os três na pequena vila de Alcoutim, à beira do Guadiana.

Quem sabe quem são? Não será fácil.

A fotografia deve ter sido tirada à volta de 1937, mais ano, menos ano.

O mais velho, já não é propriamente um menino, mas sim um rapaz. Parece que está a fazer continência, com estilo militar e chamava-se Fernando. O menino, que está como condutor do bólido e teve sempre tendência para a condução, dava pelo nome de João e que, apesar da falta de qualidade da fotografia, como era próprio da época, se olharem bem para ele, conhecerão.

A menina, a mais nova, de sapatinho e peúgo branco, tal como o casaco e que parece ir à boleia, dá pelo nome de Marina.

A fotografia é tirada no quintal da casa do Dr. Dias e trata-se dos saudosos amigos, Fernando José Lopes Dias, fundador do Grupo Desportivo de Alcoutim e 1º Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Alcoutim, após o 25 de Abril e o Dr. João Lopes Dias, ilustre clínico que tanto trabalhou em prol da população alcouteneja que contava só com a sua vontade de servir e competência médica.

A menina é a Professora Marina Ramos Themudo, doutorada em Filosofia e que exerceu a sua actividade na Universidade de Coimbra, felizmente ainda entre nós.

Foi ela que teve a amabilidade de nos ceder a fotografia. Bem-haja por isso.

Deste “bólido” já me tinha falado o nosso amigo e colaborador Eng. Gaspar Santos que agora o irá recordar.

domingo, 18 de outubro de 2009

Tacões, "monte" da Freguesia do Pereiro, concelho de Alcoutim (apontamentos monográficos)

(PUBLICADO NO JORNAL DO BAIXO GUADIANA Nº76 DE JUNHO DE 2006, P. 16)


[Tacões, vista parcial, 1992. Foto J.V.]

No decorrer dos meus escritos sobre Alcoutim que se têm vindo a estender ao longo de mais de três décadas, já abordámos de carácter concreto, alguns montes do concelho de Alcoutim, principalmente da sua freguesia, ainda que já tivéssemos feito incursões nas de Vaqueiros e Giões.

Para que isso aconteça são considerados vários factores que vão desde a proximidade, o que por vezes nos proporciona um melhor conhecimento, do interesse que a povoação nos suscita, pela sua pequenez ou grandeza, por algum facto que consideramos importante que lá tivesse ocorrido, pela residência ou naturalidade de algum familiar ou amigo, etc. etc.

Conheci o “monte” de Tacões em 1974, quando não era fácil ao automóvel lá chegar e quando minha mulher tinha lá o seu posto de trabalho. Apesar de na altura a desertificação já se fazer sentir, ainda possuía umas dezenas de habitantes o que originava o número suficiente de crianças para a existência de uma escola.

[Professora e alunos na escola em 1974. Foto J.V.]
Muito recentemente consegui saber que no “monte” onde meu filho fez a primeira classe (como então se dizia), nasceu em 1804 um dos seus tetravós, de nome Manuel João Dias!

Para além destas duas curiosidades, a que se junta o seu intrigante nome, o monte foi sempre dos principais da sua freguesia.

Nas nossas leituras e pesquisas fomos coleccionando dados que hoje nos possibilitam apresentar um puzzle ainda que com muitas falhas.

Quem estiver na vila e pretender encontrar esta pequena povoação, tomará a estrada nacional 122-1, encontrará o Cruzamento ou Quatro Estradas e seguirá pela nº 124.

Cerca de dez quilómetros percorridos e agora em terrenos mais ou menos planos, encontrará à direita uma placa que nos indica um desvio que nos levará a este monte pertencente à freguesia do Pereiro de que dista cerca de quatro quilómetros.

Este troço de estrada, numa extensão de cerca de mil e quinhentos metros, foi executado por administração directa da Câmara Municipal e consistia na pavimentação do troço com uma camada betuminosa, montando o seu custo a cerca de seis mil contos. (1)

O monte, que ainda hoje apresenta uma área considerável, é de tipo concentrado e em 1839, segundo Silva Lopes, era na freguesia o que possuía maior número de fogos, vinte e nove. (2)


[Antiga escola hoje transformada em Capela]
Numa zona de terrenos muito pobres, toda a actividade das suas gentes se baseava numa agricultura de subsistência, representada pela cerealicultura, nomeadamente o trigo, base da alimentação. A isto se acrescentava a pastorícia, principalmente de gado miúdo que possibilitava a obtenção de uns escudos para fazer face às despesas mais prementes.

A lã e o linho originaram uma tecelagem artesanal, de grande qualidade que ainda existia em finais da década de sessenta do século passado. Havia pelo menos um tear de onde saíam interessantes colchas de carapulo.

Temos conhecimento que em 1771, Afonso Vilão, dos Tacoenz, isto para indicar a ortografia de então, procedia na Câmara ao manifesto dos seus gados e em 1767/68, tinha exercido o lugar de fabriqueiro (tesoureiro) da Igreja do Pereiro. Por essas alturas, Gaspar Lourenço, deste monte, pagava de foro à mesma Igreja, dois alqueires de trigo.

Outros habitantes de Tacões exerceram as funções de fabriqueiro como aconteceu a Francisco Dias (3) (1785/86), Tomé Vilão (1787/88) e Marcos Rodrigues (1797/98) (4)

Em 1840 os moradores deste monte pedem à Câmara para serem considerados coimeiros para o gado miúdo, até 15 de Agosto, os restolhos situados entre o sítio da Eira d`Anna Dias (5) e a Fonte do Serro Gordo, o que foi deferido. (6)

O monte tinha um rossio em 1850 e Manuel Cavaco pediu terreno dele para fazer um curral, o que lhe foi concedido. (7)

É curioso o facto passado em 1880, em que José Bárbara (ou Barbosa) possui um boi que investe com todas as pessoas que se lhe aproximam, como sucedeu há pouco com duas mulheres que ficaram muito maltratadas. Neste sentido, o Regedor da freguesia é mandado intimar o possuidor do animal para que num prazo curto o faça retirar do concelho. (8)

Em 1883 havia no monte doze crianças do sexo masculino em idade escolar (9) e possivelmente outras tantas ou mais do sexo feminino que para o efeito, na altura, não eram contabilizadas.

Na sessão da Câmara de 2 de Dezembro de 1939 foi deliberado pedir a imediata criação de um posto de ensino escolar, o que veio a acontecer.

Segundo informação verbal que me forneceu o pároco da freguesia, nessa altura, o povo acabou por construir um edifício que serviu de escola até à sua extinção que deve ter ocorrido na década de oitenta do século passado. Em 1996 foi adaptado a capela e casa mortuária. (10)

Foi dos poucos montes da freguesia que possuiu um estabelecimento comercial misto que segundo o Anuário Comercial de 1947 pertencia a António Marques Romeira e que eu conheci ainda funcionando por volta de 1975 e propriedade de Eusébio Romeira Marques, certamente familiar do anterior proprietário.

Após o 25 de Abril recebeu o fornecimento de energia eléctrica que motivou a criação de sete fontanários para distribuição do precioso líquido e nove particulares, na altura, aproveitaram para mandar abrir outros tantos furos artesianos.

Os arruamentos foram cimentados em 1994 por proposta aprovada em reunião de Junta da Freguesia e as caixas de recepção do correio instaladas em 1997.

O Censo populacional de 1991 ainda lhe atribui sessenta e dois habitantes, devendo ter hoje pouco mais de uma dezena.

Ficou para o fim aquilo com que muitas vezes iniciamos trabalhos deste tipo – o topónimo.

Tendo merecido sempre a nossa atenção, acaba por não ser inédito visto haver outro lugar com o mesmo nome na freguesia de S. João dos Caldeireiros, do vizinho concelho de Mértola.



Localmente nada encontrámos, nem as tão tradicionais lendas que mais ou menos bem arquitectadas tentam explicar os nomes.

O estudioso José Pedro Machado, algarvio recentemente falecido, interroga se não alude a pessoas de família local com o apelido Tacão. (11) É nome de família que não existe na freguesia e que nunca encontrámos em documentação do século passado e do anterior. O singular também existe. Quererá significar uma alcunha proveniente do substantivo masculino tacão e que deu origem a um antropónimo? Ou terá a ver com o adjectivo tacanho?

Não encontrámos mais nada escrito sobre o assunto.

Aqui fica o que consegui reunir sobre este típico monte da freguesia do Pereiro, concelho de Alcoutim.

NOTAS
(1) – Boletim Municipal, nº 10 de Abril de 1992.
(2) – Corografia do Reino do Algarve, Lisboa, 1841
(3) – Nasceu nas Furnazinhas, freguesia de Odeleite, concelho de Castro Marim, sendo 6º avô de meu filho.
(4) -Livro de Contas da Fabrica da Parochial Igreja do lugar de Pereiro, nº 2, com termo de abertura e encerramento de 19 de Junho de 1767
(5) – A título de curiosidade dizemos que uma Ana Dias, nascida na primeira metade do séc. XVIII em Tacões, era 5ª avó de meu filho.
(6) – Alcoutim visto através das Posturas Municipais (1834-1858), José Varzeano, Peniche, 1989, pág. 6
(7) – Acta da Sessão da Câmara Municipal de 26 de Agosto daquele ano.
(8) – Of. Nº 108 de 4 de Setembro de 1880 do Administrador do Concelho ao Regedor da Freguesia.
(9) – Livro do Recenseamento Escolar da Freguesia de Pereiro - Sexo Masculino, termo de abertura de 26 de Janeiro de 1882.
(10) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 3 de Junho de 1996, pág. 9.
(11) – Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, III Vol., Horizonte/Confluência, 1993.

sábado, 17 de outubro de 2009

A espeteira



Esta peça normalmente utilizada na cozinha e constituída por ripas de madeira cruzadas com alguma distância entre si e onde eram colocados pregos (salientes), camarões ou escápulas que se destinavam a pendurar louça.

Enquanto o Dicionário da Língua Portuguesa, de Fernando J. da Silva, Editorial Domingos Barreira, Porto (4ª Edição, 1984), define como "Louceiro em que se pendura louça, carne, etc.", Eduardo Brazão Gonçalves no seu Dicionário do Falar Algarvio (2ª Edição aumentada) 1996, indica como "estrutura de madeira com ganchos metálicos para pendurar louça".

Eram constituídas normalmente por quatro ripas pois as peças para pendurar não seriam muitas, aliás, como representa a fotografia que encima o texto.

Na região das nossas origens, esta peça foi muito utilizada mas com mais ripas e que na parte inferior possuía uma prateleira antecedida pela colocação de duas ripas mais estreitas possibilitando a colocação das tampas de tachos e panelas. Aqui não se chamava espeteira, mas grade a que normalmente se juntava “de esmalte” visto serem deste tipo as peças de louça que mais lá se colocavam. Era o luxo da dona de casa apresentar uma grade bem fornecida de louça que muitas vezes não era usada, mas que estava ali para se mostrar.

No concelho de Alcoutim as panelas eram de barro e os tachos de arame por isso com exposições diferentes.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Marim, pequeno monte da freguesia de Giões


Para alcançarmos esta pequena povoação, saindo da vila de Alcoutim, tomamos a estrada nº 122-1 e às Quatro Estradas seguimos pelo nº 124. Passamos pela aldeia de Pereiro e sete quilómetros percorridos encontramos à nossa esquerda um entroncamento sinalizado, que por estrada construída em 1987 (1) (nº 1046) estreita e asfaltada, ladeada de terrenos de arvoredo exíguo, nos levará à pequena povoação.

À esquerda, um aramado que se destina ao encerramento de gado. O traçado telefónico vai acompanhando o caminho. Curva à esquerda seguindo-se a contra curva. Uma charca. Algumas curvas e uma perdiz que atravessa a estrada faz lembrar a zona cinegética que já foi. Pouco depois divisa-se o “monte” e aparece a placa toponímica.

À direita o poço público e o lavadouro. Painel de caixas do correio. Ruas cimentadas que permitem dar a volta à povoação de automóvel. Serviço de recolha de lixo e distribuição de água por fontanários, hoje penso que já é feita ao domicílio.

O telefone público foi instalado em 1989. (1)


Percorrendo a pequena povoação, que se situa em sítio alto, com muito poucos moradores, mesmo assim ainda podemos ver com agrado pelo menos duas casas ao gosto antigo devidamente caiadas e nas molduras de portas e janelas utilizam o azul vivo, conforme costume dos vizinhos alentejanos. Os típicos poiais junto das fachadas principais, lá estão cobertos por largas lajes e caiados como manda a tradição. Tinham várias utilizações, incluindo de banco para se apanhar o fresco nas cálidas noites de Verão.


Interessante também um pocilgo desactivado, mas muito típico da região, onde a pedra faz quase tudo e o portelo tem muita singularidade.

Igualmente em desuso ainda se podem ver grandes construções de pedra e barro destinadas a palheiros e arramadas, já que Marim foi monte de lavradores

Ao sair do “monte”, do lado direito, existe um caminho que nos leva à pequena lagoa de Marim e onde nasce o Alcoutenejo (3) que juntando-se próximo da Corte Tabelião ao dos Ladrões dão lugar à Ribeira de Cadavais ou de S. Marcos.

Em princípios do século XIX, vivia neste monte João da Palma Vilão, natural de Giões, mas que casou com Maria Mestra, daqui natural. Homem de representação concelhia foi licenciador para a eleição da Câmara Municipal em 1834.


Em 1855 o maior proprietário da freguesia de Giões e segundo no concelho era Manuel da Palma, que poderá ser filho do anteriormente referido, pagando de décima 17.294 réis.

Ocupava a terceira posição, a nível de freguesia, João Mestre Teixeira, também desta localidade.

De 1939 a 1941 presidiu à Câmara Municipal, Francisco da Palma Vilão também daqui natural. (4)

Como se vê pelo que antes referimos, o monte era de gente abastada e com importância política como acontecia então a todos os endinheirados.

O topónimo, que de uma maneira geral aparece associado (o que aqui não acontece), é mais frequente no sul do país e parece de origem árabe, de marin, nome de pessoa, tal como Marinho que terá a mesma origem. Saber quem foram os Marin que deram origem aos topónimos é que não será fácil. (4)

Em 1976 sabemos que tinha 30 habitantes, tendo dezoito em 1991.Presentemente e segundo informação recolhida localmente, andará por metade.

NOTAS
(1) – Boletim Municipal nº 1, de Outubro de 1987, pág. 5
(2) – Boletim Municipal nº 5, de Setembro de 1989, pág.2.
(3) – A Freguesia do Pereiro (do concelho de Alcoutim) do passado ao presente, António Miguel Ascensão Nunes (José Varzeano), Ed. da J.F.do Pereiro, 2007, pág.36.
(4) – Idem, ibidem, pág.223
(5) – Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, José Pedro Machado, Horizonte/Confluência, II Vol. – 1993, p. 949.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Os bailes em Alcoutim nos anos 40 e 50






Escreve
Gaspar Santos











[Mestre João Ricardo aos 80 anos]


Em Alcoutim tínhamos baile quase todos os fins de semana. Era uma festa com clarinete ou saxofone tocado por Mestre João Ricardo acompanhado em bateria pelo Lázaro Martins ou pelo Manuel “Arrana”. Quando o tempo o permitia bailávamos ao ar livre na esplanada do Cais. A Professora Teresa Rita Lopes nossa amiga e muito amiga de Alcoutim, que também aqui muito se divertiu, fala em lembrança emocionada destes bailes na crónica que escreveu para o Jornal do Baixo Guadiana, em Setembro 2009, nestes termos:





“ E os bailes no cais! / animados pelo clarinete do João Ricardo, o barbeiro, / ou tão só pelo canto das nossas gargantas”.

Como bom alcoutenejo não gostava de faltar aos bailes quer na vila quer nos montes. Os locais foram os mais variados Álamo, Laranjeiras, Guerreiros do Rio, Corte da Seda, Cruzamento de Alcoutim, Cortes Pereiras, Pereiro.

O primeiro baile a que assisti sem a tutela da família foi no Álamo, o último dos montes do rio, no Carnaval de l948. A casa ainda lá está: é a única neste monte do lado nascente da estrada e pertencia ao Senhor Madeira. Abrilhantou esse baile o “tocador” António Manuel acordeonista.

Curiosamente o meu último baile antes de deixar Alcoutim foi também no Carnaval mas de 1954 num antigo armazém na Rua do Município. Hoje está ali um bar. Continuei a frequentar esses bailes sempre que visitava ou fazia férias em Alcoutim.

Os bailes eram, também, abrilhantados por tocadores de acordeão do concelho, o António Manuel de Farelos, o Romão de Soudes, o Ildefonso de Balurcos, ou por músicos de fora nomeadamente o Felício, o José da Felicidade, o Bexiga, o José Ferreiro e outros. Não fosse o acordeão o instrumento por excelência da música e do folclore Algarvio. Outras vezes também com instrumentos de cordas (bandolim, banjo, guitarra e viola) de que eram executantes jovens como o Felício, o Fernando Martins, o Leopoldo, Primo do Antunes e o Manuel Serafim.

Ainda se recorreu a grafonolas e radiotelefonias, aliás sem grande êxito, dada a falta de volume de som que então estes aparelhos produziam.

Com muitos forasteiros e bem acompanhados musicalmente eram os bailes que se realizavam pelas Festas de Alcoutim.

Antes de 1948 na feira anual de Alcoutim, chegaram a realizar-se três bailes na vila com públicos distintos.


A partir de 1948 apesar destes bailes se terem mantido passou a realizar-se também um no Cais que era abrilhantado por um vocalista e uma orquestra com cerca de 7 ou 8 músicos. Poucos anos depois apenas se dançava neste baile.

Na feira de S. Marcos, no Pereiro, também havia baile no salão do comerciante Rosa com um ou dois acordeonistas acompanhados por um baterista.

[Mastro dos nossos dias. Foto JV, 2009]





Chegados os festejos dos santos populares, havia três ou mais bailes na vila em torno de mastros “vestidos” com alecrim, rosmaninho e murta, encimados por arcos de cana guarnecida com papel de seda às cores. Eram muitas vezes bailes de roda cantados e acompanhados por gaita-de-beiços ou instrumentos de cordas. Recordo esses mastros em frente da Casa dos Condes, na Rua da “Aparada”, junto à casa do Sr. Mário Vicente e no Largo na Rua D. Sancho II.

[Foi no quintal desta casa ou nas suas proximidades que se realizou o baile de 1940. Foto JV, 2009]
Também os meus pais fizeram um baile em torno de mastro, no início dos anos 40, no nosso quintal. Acompanhado por instrumentos de cordas dedilhados por jovens da vila. Foram muitos os convidados e dançou-se e petiscou-se muito pela noite dentro. Foi muito badalado.

Nós os rapazes saíamos de casa com 5 escudos pagávamos vinte e cinco tostões de entrada e ainda ficavam com dinheiro para uma bebida. As moças eram umas felizardas. Não pagavam para participar nos bailes. O único encargo que tinham era fazer algum arroz doce para se comer durante a festa, mas isso era tradição só nas Maias, bailes que ocorriam no dia 1º de Maio.

O Estado Novo que era muito tristão e tinha grandes preocupações com a segurança tornava teoricamente quase impossível a realização de um baile por exigir uma licença camarária e pagamento de assistência da GNR. Quando o baile era grande e explorado comercialmente era obrigatória a licença e a assistência da GNR.

Quando se tratava de pequeno baile organizado por jovens locais, bastava um compromisso com o cabo da GNR, que tinha a boa vontade de nos dispensar da licença com prévio conhecimento do Presidente da Câmara. O cabo da GNR confiava simplesmente nos jovens, ou mandava passar por lá a patrulha. Normalmente não havia qualquer rixa, devido aos nossos brandos costumes e à grande preocupação e atenção da comissão organizadora.

A gestão destes encargos exigia grande ginástica para os conter.

Tanto na Vila como nos montes, no verão ao ar livre ou em recinto coberto, nos bailes os rapazes trajavam informalmente umas calças e camisa lavadas. Mas se o baile era no Inverno em sala tanto os rapazes como as raparigas usavam um trajo mais cuidado.

As jovens, eventualmente acompanhadas das mães ocupavam cadeiras ou sentavam-se em banco corrido junto à parede. Quando a música começava, era engraçado de ver cada rapaz com o casaco (convenientemente abotoado ou a abotoar durante o trajecto), a dirigir-se à jovem com quem desejava dançar com as falas da praxe “ A menina dança?”

Nesses tempos predominava a música de origem espanhola ou da América Latina incluindo o Brasil e também a italiana. E por isso dançavam-se marchas, passo dobles, valsas e tangos. E como não podia deixar de acontecer no Algarve o corridinho que por cá é rei. Muito em voga a Cantiga da Rua, La raspa, La vaca lectera, etc.

Em geral músicas que os filmes em voga divulgavam.

A CASA DE VILA REAL E A CONSPIRAÇÃO DE 1641 CONTRA D. JOÃO IV


Da autoria de Mafalda de Noronha Wagner e numa edição Edições Colibri, de 2007, compõe-se de 513 páginas no formato de 16X23 cm.

A autora apresenta no trabalho uma análise feita com base na documentação inédita consultada e apresentada, outra face de um conflito político, diferente da versão oficial, a única, segundo penso, conhecida. Pela minha parte, ao procurar leitura sobre este assunto, a versão era sempre a mesma com pequenas diferenças a nível de conteúdo mas sempre com a mesma base.

Os novos elementos trazidos a público constituem um importante contributo para o conhecimento da intrincada história política da época.

Tem, como não podia deixar de ser, bastantes referências aos Condes de Alcoutim e igualmente a João Freire de Andrade e sua filha, D. Maria Freire, que veio a ser a 1ª Condessa de Alcoutim.

Por ele vim a saber que o título de Conde de Alcoutim foi oferecido a D. Carlos de Noronha que o rejeitou.

A leitura do livro está longe de chegar ao fim ainda que já tivesse percorrido os pontos que mais nos interessam.

Recomendo vivamente este trabalho aos meus visitantes/leitores interessados nestes assuntos.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Portas do Rio

Das portas existentes na muralha da vila as quais todas as noites se fechavam e se abriam de manhã, segundo o Pároco que respondeu aos quesitos que constituíram as Memórias Paroquiais, foram aquelas que me motivaram mais dúvidas quanto à sua localização e a de que tinha menos informação.

Isso está demonstrado no que sobre elas escrevi no meu livro Alcoutim, capital do nordeste algarvio (subsídios para uma monografia).
A planta da Praça de Alcoutim (legendada) executada por José Sande de Vasconcelos em 1788 e possivelmente por me ter chegado às mãos por fotocópias, não me proporcionaram uma leitura clara sobre alguns dos aspectos.

Designadas umas vezes por Portas do Rio, outras por Portas do Guadiana e ainda por Portas do Mar ou de Sanlúcar, eram notoriamente viradas para o rio, servindo o seu velho cais.

Deviam igualmente ser as mais importantes pois as outras serviam caminhos em direcção a Tavira e a Mértola. Nesta altura, o grande meio de comunicação era o Guadiana que fornecia a auto-estrada da época.

Uma das principais fontes do passado das terras é constituída por aquilo a que se veio a chamar Memórias Paroquiais, datadas de 1758.

Ao responder ao quesito 25, o pároco escreveu (grafia actualizada): - (...) Tem quatro portas esta vila por onde se sai e entra, uma para a parte do nascente, ou de Sanlúcar do Guadiana, a que chamam porta do Rio em cuja entrada está uma porta interior junto da Casa da Guarda, e logo três ou quatro varas no mesmo andar outra porta exterior, estas são duas portas das quatro que digo. Sobre estas portas está um quase revelim na mesma muralha (...).
O Pároco considera a existência de quatro portas mas só dá nome a três pelo que estas duas de que fala e devido à sua proximidade e estrutura passariam a ser consideradas como uma única, tomando um dos nomes já referidos.

Esta diferença em relação às outras duas é mais um factor que determina a sua importância.

A vila como praça da guerra era guarnecida com destacamento, habitualmente vindo da praça de Castro Marim, constituído por companhias inteiras, mas nessa altura, meados do século XVIII, eram apenas quinze soldados comandados por um sargento. Tinham a seu cargo a guarda e defesa das Portas.


A Casa da Guarda, que o pároco refere, ainda existia em 1875, como se deduz da seguinte passagem:- Ao alferes engenheiro colocado em Tavira que pediu alguns esclarecimentos sobre a “casa da guarda”, sita às Port as do Rio, é respondido pela Câmara Municipal, entre outras coisas, o seguinte: “Que é uma e a mesma a casa da guarda que umas vezes é descrita como situada às Portas do Rio e outras na Rua de Sto. António.” (do ofício nº 18 de 23 de Abril de 1875).
A partir do conhecimento deste ofício, para mim desapareceram as dúvidas. As Portas do Rio situavam-se próximo das escadas para a Igreja Matriz, frente à actual Agência da C.C.A.M., servindo assim o cais.