quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Preguiças, um "monte" importante da freguesia de Vaqueiros


Este “monte” da freguesia de Vaqueiros começa logo por chamar a atenção pelo seu topónimo curioso.

A existência de um pequeno monte relativamente perto deste, e designado por Preguiça, por isso, no singular, pode-nos ajudar a uma explicação.

Naturalmente que fomos à procura em livros da especialidade se algo havia escrito sobre o topónimo.

José Pedro Machado no seu Dicionário Onomástico (...) (1) indica a existência do topónimo tanto no singular como no plural do concelho de Alcoutim, referindo mais seis espalhados pelo país, desde Vila Real a Odemira. Diz que provém do substantivo feminino preguiça.

A tendência natural e simples é tentar ligá-lo à aversão ao trabalho o que nada nos parece consentâneo com a índole desta gente trabalhadora que toda a vida tem mourejado o seu sustento nestes terrenos de fracas produções agrícolas.

Procurámos encontrar nos moradores alguma lenda que explicasse o topónimo mas nada conseguimos obter.

É que preguiça não significa só mandria, mas igualmente pau a que estão pegadas as cangalhas da canoira, sendo esta um vaso que se coloca em cima da mó do moinho e onde cai o grão que vai ser moído. (2)

Quem conhece a actividade cerealífera que foi apanágio daquelas gentes e dos moinhos existentes para a farinação, de que resta pelo menos as ruínas de um exemplar mesmo junto ao “monte”, admite que a explicação possa estar aí.

Nas Memórias Paroquiais de 1758 já aparecem os dois topónimos com um peso muito semelhante ao que têm hoje. Preguiças ocupava o 4º lugar a nível de freguesia e número de fogos e Preguiça pertencia ao grande grupo de pequenos montes tendo nesta altura apenas três.

[Placa toponímica que como tantas outras por esse país fora enganam o cidadão comum sem que ninguém lhe ponha cobro]

Silva Lopes (3) refere-o como Desperguiças e numa acta da Câmara, de 1850, indica-se Despreguiças. A placa toponímica actual indica Monte das Perguiças. O pre e o per foram sempre muito confundidos na nossa língua e aqui damos dois exemplos muito distantes no tempo. Penso contudo que o erro há muito que merecia correcção, mas até agora, ninguém se lembrou disso, pelo contrário visto a Entidade responsável continuar a manter este e outros erros do tipo.

Quem estiver em Vaqueiros e pretender alcançar o Monte das Preguiças toma a estrada municipal 506 e cerca de 3 km andados tem um cruzamento. Toma o da esquerda apanhando assim a estrada nº 505, passando pelo Malfrade e Zambujal e vamos encontrar à direita um entroncamento pelo qual seguimos, passando a percorrer a estrada municipal nº 508 e encontramos à nossa esquerda o “monte” que procuramos.

Utilizei a entrada Sul e ainda que as ruelas sejam estreitas, conseguimos circular por algumas optando por outra saída.

Já se vêem algumas construções de tipo moderno e sem qualquer ligação ao tradicional. Encontrámos contudo algumas que mantêm as características antigas. Ainda se podem ver alguns poiais lajeados ao gosto antigo, junto das paredes principais. Alguns palheiros cuja função já foi abandonada.

Existe um caminho rural, alcatroado entre o Malfrade e este monte.

Os moradores Jacinto Manuel e Manuel Martins, em Junho de 1771 fazem na Câmara Municipal o manifesto do seu gado.

Em 1850 alguns lavradores do “monte” e do vizinho Balurquinho, apresentam um requerimento na Câmara para que fosse feito coimeiro para o gado miúdo, durante o Verão, o restolho que fica entre os ditos “montes” e o Zambujal e Malfrade, para pastarem as reses e bestas. A Câmara, reunida em sessão (4), indeferiu o pedido tendo em atenção a informação prestada pela Junta de Paróquia que dá como não conveniente semelhante pretensão.

Em 1854 um morador pede à Câmara terreno no rossio do “monte” para construir uma casa mas o povo não deixou que se concretizasse tal pretensão.

Anos depois, em 1876, um maioral de gado lança fogo à eira de João Luiz, pelo que tem de responder pelo crime de fogo posto. (5)

Um morador deste monte, de nome José de Orta, no dia 30 de Julho de 1878 deslocou-se à vila, acompanhado de um descomunal varapau. Acabou por ser enviado com o mesmo e acompanhado do competente auto, ao Juiz de Direito da Comarca de Tavira, Bacharel José Júlio de Oliveira Baptista que, antes de ler o auto, libertou o homem dando-lhe o varapau. O José de Orta era simpatizante de D. Miguel e o Administrador do Concelho, Gregório de Morais, ficou fulo. (6) É impressionante como a acção de um político numa altura em que as comunicações eram quase nulas fez chegar a sua voz a um monte tão distante. É notório que só foi preso por ser reconhecido como partidário de D. Miguel Angel de Leon.

A electrificação processou-se em 1984 sendo inaugurado o fornecimento no dia 14 de Junho. (7)

A pavimentação das ruas do monte tem lugar em 1992 (8). Teve água distribuída por fontanários. Como em 2001 foi levada ao domicílio (9), no ano seguinte houve necessidade de proceder a nova pavimentação (10) ou pelo menos ao seu conserto.

Recentemente (2007) o antigo poço do monte, apetrechado de bomba elevatória manual, sofreu obras de restauro e embelezamento com a criação de um pequeno parque de merendas. (11)

Em 2005 foi aberto um furo para extracção de águas subterrâneas e para fazer face a qualquer rotura no fornecimento. (12)

Do que conheço, é na nossa opinião o mais bem conseguido, além do arvoredo adequado no próprio local, à beira da estrada foram plantados loendreiros e medronheiros.

[Poço do monte reconfertido. Foto JV, 2009]

Nas proximidades e no sítio de Caterina Fernandes foi identificada e registada em 10 de Junho de 1898, uma mina de cobre e de outros metais. (13)

A nível de população, sabemos que em 1839 tinha dezassete fogos habitados, os mesmos que Alcaria Queimada e no Censo de 1991 é indicado como o “monte” mais populoso da freguesia, com sessenta e nove habitantes, constituindo vinte e duas famílias e tendo quarenta fogos.

O povo associou-se na Cooperativa Agrícola de Rega, CRL e na Associação de Caça e Pesca.


Notas
(1) – Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, Horizonte/Confluência, pág. 1211
(2) – Dicionário da Língua Portuguesa, Fernando J. da Silva, Editorial Domingos Barreira, 4ª Edição, Porto, 1984.
(3) – Corografia do Algarve, 1841 (Quadro Anexo)
(4) - Acta da Sessão da C.M.A. de 14 de Julho de 1850.
(5) - Of. Nº 78 de 18 de Dezembro de 1876 do Administrador do Concelho.
(6) - Ofício nº 186, do Administrador do Concelho e daquela data.
(7) - Jornal do Algarve de 15 de Junho de 1984.
(8) – Boletim Municipal, nº 10 de Abril de 1992, pág. 5
(9) – Alcoutim, Revista Municipal nº 8, de Setembro de 2001, pág. 2
(10) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 9 de Dezembro de 2002, pág. 8
(11) – Alcoutim, Revista Municipal nº 14 de Janeiro de 2008, pág. 16
(12) – Alcoutim, Revista Municipal, nº 12 de Dezembro de 2005, pág. 25
(13) – “O Algarve Oriental Durante a Ocupação Islâmica”, Helena Catarino, in Revista do Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Loulé, nº 6, 1997/98.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Alcoutim ficou mais pobre

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 5 DE NOVEMBRO DE 1987)

Pequena nota
Este texto foi escrito e publicado há vinte e dois anos, tantos quantos faz de falecido o poeta-músico João Madeira, vulgo João Ricardo.
Já ninguém da sua família vive em Alcoutim.
Este texto serve para o recordar aos que o conheceram e para o dar a conhecer principalmente aos jovens.

JV

Em duas oportunidades, referi-me nestas páginas a duas figuras ligadas à pequena vila raiana. Diz o povoe com razão, que não há duas sem três.

Hoje, referirei, se isso me for permitido, um poeta popular que nos acaba de deixar aos 82 anos.

Penso que a todos nós toca, mais tarde ou mais cedo, a acção da musa e serão poucos os que nunca fizeram pelo menos uma quadra! Mas poucos passamos disto, pois a inspiração momentânea, depressa desaparece.

Uns tantos, não conseguem a “libertação” e quanto mais poesia compõem, mais necessidade sentem de o fazer. Uns, fazem-no com a técnica que a sua erudição permite, outros, nem sequer sabem escrever, mas a memória regista. Todos são poetas, neste leque de que apresentámos as guardas e cada qual terça as armas que tem.

Acaba de se finar na vila de Alcoutim o poeta-barbeiro, João Madeira, que todos no concelho conheceram por mestre João Ricardo, João filho do Ricardo a que o tempos, naturalmente, suprimiram primeiro o “filho” e depois o “do”.

Natural de Cachopo, chegou a esta vila por volta da década de trinta, trazido pelo nome do clínico, Dr. João Francisco Dias, que veio consultar para resolução de problemas de saúde. Entusiasmado pelo médico, acabou por ficar e a vila, além de passar a dispor de mais um barbeiro, ganhou um músico e um poeta. Tocava clarinete, requinta e saxofone.

Há volta de trinta anos, contando com a juventude da vila, organizou um rancho que actuou nos tradicionais festejos anuais. Além de ensaiador, fez a letra e compôs a música daquilo a que chamou “Marcha da Vila de Alcoutim”, que alguns recordarão com saudade.

[João Madeira aos 80 anos. Foto JV]

Da letra, respigámos o seguinte:

Alcoutim é esta vila,
Que fica no meio da serra,
Num canto de Portugal,
Tem o Guadiana a seus pés
Vê bem crescer as marés,
Do rio internacional.

Alcoutim é pitoresca,
Corre por ela aragem fresca,
Da brisa que vem do mar,
Essa brisa pura e bela,
Faz andar barcos à vela,
Pelo rio a navegar.

Os problemas da vila estavam sempre na preocupação de João Ricardo, que os analisava em “quadras” simples, ingénuas e por vezes mordazes.
Uma pequenina selecção é disso demonstrativa:

Alcoutim, terra velhinha
e nada tem aumentado
tem menos gente, coitadinha,
que no outro século passado.

Terra velha, desprezada
e há quem lhe chame bela
Por todos abandonada
e ninguém faz caso dela.
Só se lembram do dinheiro
que lhe dão no fim do mês
não se lembram cá da terra,
vão para a magana que os fez.

Andam-se vinte quilómetros
para ir às Cortes Pereiras
podendo apenas ser cinco,
vejam lá as asneiras.

A ponte e a estradas feitas,
darão vida a Alcoutim,
mas se não as começarem,
nunca chegarão ao fim.

Feitas antes de 74, alguns dos problemas tratados pelo poeta-barbeiro, estão hoje, felizmente, resolvidos, fazendo parte de um passado recente.

João Madeira não fazia poesia para publicar aqui ou ali, para divulgar a este ou àquele. João Madeira fazia poesia para se satisfazer a si próprio. A maioria, perdeu-se no caixote dos papéis, quando se fazia limpeza à barbearia.

Nos últimos anos e como sabia que apreciávamos o seu jeito, confidenciava-nos os seus trabalhos.

Sempre que íamos à vila, visitávamo-lo e nunca vínhamos de mãos a abanar. Nos últimos tempos desesperava-se com a dificuldade que tinha em escrever.

A morte, que a todos preocupa, inspirou-lhe as seguintes quadras, das últimas que compôs:

A morte é coisa daninha,
Que nos vem roubar a vida,
Quando vem, não se adivinha,
A hora da despedida.

Morre-se a comer e a cantar,
Outros morrem a dormir,
Mas quando ele chegar,
Todos ficam sem sentir.

Morre o pobre e morre o rico,
Morre tudo o que nasceu,
Não se vê, mas está escrito,
Todo o ser vivo morreu.

Morre o velho e o rapaz,
Morre a mulher e o menino,
Nem o mais rico é capaz,
De fugir ao seu destino.

Manhosa e sorrateira
É a traiçoeira morte
Chega a hora derradeira
Leva o fraco e leva o forte.

Ter saúde, é ser feliz,
Ser rico, é ter muita sorte,
Mas há um rifão que diz:
Ninguém se livra da morte.

Morrem de barriga cheia,
Morrem muitos em jejum
Medonha morte, é tão feia,
Que não deixa cá nenhum.

Morrem cheios de saúde,
E muitos a passear,
A morte ninguém ilude
Morrem quando ela chegar.

Morre o que está doente,
Morre o que tem felicidade,
Morrem tantos de repente,
Mesmo na flor da idade.

Com estas modestas palavras pretendemos ainda que com muita simplicidade, homenagear o poeta.

João Madeira repousa na vila que tento amou e a que dedicou muita da sua poesia.

Alcoutim perdeu o seu poeta!

Alcoutim ficou mais pobre!

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Por ser o dia que é (um contarelo de Natal)



Em formato A/5 e na horizontal recebemos recentemente esta pequena brochura de 20 páginas e que constitui um interessante conto de Natal, escrito em 2001 pelo nosso apreciado colaborador, José Temudo, que com a ternura de avô dedica aos quatro netos, Clara, Ana, Nuno e João.

Quem se habitou a ler no ALCOUTIM LIVRE os textos produzidos por este nosso colega de profissão e que viveu a sua meninice em Alcoutim, facilmente deduzirá o interesse do conto impregnado de grande sentido de realidade e onde a humanidade não é palavra vã.

Pondo em foco o controverso que as situações originam, acaba por colocar em posição de encontro dois seres com destinos semelhantes e que acabam na desdita por se ampararem mutuamente.

Aqui deixamos o nosso agradecimento ao autor pela generosa oferta.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Igreja Matriz de Alcoutim


[Cristo Salvador]

Tem por invocação O Salvador.

Situa-se na parte baixa da vila, perto do Guadiana, tendo-lhe passado junto, recolhendo-a, a muralha que cercava a vila.

Data o templo da primeira metade do século XVI, do reinado de D. João III, tendo-se aproveitado para capela lateral, hoje a do Santíssimo, a anterior igreja de uma só nave, que existia em 1518. (1)

Admite-se que o trabalho possa ser de André Pilarte, mestre pedreiro de Tavira ou de seus colaboradores. (2)

Existem elementos arquitectónicos semelhantes na Misericórdia de Tavira e na capela dos Falcões no cemitério de S. Francisco de Tavira. (3)

A primitiva igreja de Alcoutim tinha em 1320 por invocação, Santa Maria. (4)

A actual matriz da vila tem merecido, no decorrer dos tempos, várias obras de restauro, algumas tirando-a da ruína, como aconteceu com a última ocorrida nos fins da década de quarenta princípios da seguinte e que a deixou com o aspecto actual.

[Pórtico renascença]

O portal, que constitui talvez a peça de arquitectura de maior valor, está virado para o sul. Simples mas elegante, é em estilo renascença.

De arco perfeito e estreitas colunas, é trabalhado em baixo relevo de finos pormenores, utilizando-se a lei da simetria. De cada lado nota-se esculpido um cálix. No friso cimeiro que os une, predominam linhas curvas e outros elementos decorativos como aves estioladas, aparecendo com relevância as asas e patas.

Sobre o friso, uma faixa. Dois ornatos laterais e outro maior e central, esculpidos com maior relevo e em forma de facho, ladeiam na verga um escudo de tipo francês com a divisa ALLEO entre ramos de azinheira entrelaçados, estando assim representada a Casa de Vila Real, tronco do Condado de Alcoutim que na qualidade de donatários da vila, teriam sido patrocinadores da obra.

[Brasão da Casa-Vila Real]

A mesma inscrição ALLEO e pelos mesmos motivos, encontrámo-la na Capela de Nª Sª da Conceição fazendo parte do brasão de armas da vila.

A porta é de duas folhas e dá-lhe acesso escadaria recente, composta por dez lanços a que se chega pela Rua Eng. Duarte Pacheco.

Na fachada, de empena de bico, sobre o portal abre-se um óculo redondo que areja e ilumina a igreja. É protegido por grade de ferro forjado onde as rectas se misturam com curvas e contracurvas. É obra proveniente do restauro.

Torre sineira de secção quadrangular e três olhais de arco perfeito. Cúpula piramidal da mesma secção em cujo vértice se situa cata-vento de ferro representando o tradicional galo.

Nos vértices da torre existem pináculos de argamassa e de adorno que condizem com a cúpula.
São dois os sinos. O maior, com uma grande cruz em relevo, mede 0,52 m de altura por 0,52 de diâmetro. O seu peso é de cerca de 130 kg.

Dá nota sol 4. As legendas dizem:

Em cima: - Ave Maria Gratia de S. Salvador Mundi
Em baixo: - Anno DE 1?18

Não se consegue ver se é 1718 ou 1818, porque o segundo algarismo está desgastado.

O menor, com a altura de 0,40 m, diâmetro de 0,44 m e peso aproximado de 60 kg., dá nota lá 4.

A inscrição é assim: I H S Maria Jose ano 1779

Estes sinos, segundo o autor de Vozes de Bronze, são a voz de Portugal mais fácil de se fazer ouvir em Espanha. (5)

[Capitel coríntio. Foto J.V. 2008]
Entremos no templo considerado amplo e de boa construção. É de três naves um pouco desproporcionadas e quatro tramos. A nave central assenta em oito fortes colunas de fustes cilíndricos rematados por belos capitais de vários ornatos, predominando elementos florais, mas de estilo pouco definido, constituindo peças de valor arquitectónico.

Dá nas vistas uma pia tetralobada e que envolve uma das colunas. (6)
Pedra sepulcral com a seguinte inscrição:-Aqui jaz Gaspar Gomes na era de 1648.

Foi sargento-mor e Familiar do Santo Ofício.


O baptistério situa-se sob a torre sineira e é defendido por largo portão de ferro forjado no qual se vê o ano de 1905.

A pia baptismal tem cerca de um metro de diâmetro e nada de interesse.

[Baixo-relevo no Baptistério]

Na parede, e como alusão ao acto, um baixo-relevo colorido, de interesse, representando o Baptismo de Jesus. É cercado por uma orla onde se lê a enigmática legenda:- “1653 - CAPITULUM SACROANTAE LATERANENSIS ECCLESIAE”. Que poderia ter o Cabido da Igreja de Latrão com Alcoutim? - pergunta o Prof. Pinheiro e Rosa. (7)

A capela-mor é dividida do corpo da igreja por arco triunfal perfeito, sem ornatos, e que no fecho ou chave tem a era de 1902, certamente indicativa de alguma reconstrução ou reparação.

O retábulo, que foi restaurado, é de madeira trabalhada e forma um conjunto harmonioso.

A abóbada é de berço sem qualquer decoração.
No altar da nave do Evangelho, existiram telas muito estragadas: Cristo Crucificado, S. Miguel Purgatório e mais três pequenas com imagens de santos, mas cobrindo pinturas em tábua de muito melhore qualidade.(7)

O retábulo da capela colateral esquerda classificado como do século XVI princípios do XVII, foi restaurado, mas com desvirtuamento das suas características. (7)

[Interior do templo]

Além dos painéis indicados, havia na igreja mais três de pintura não boa:- um Nascimento, uma Entrega do Escapulário do Carmo e uma Visitação. Estas peças mesmo que não tivessem grande valor artístico, tinham-no iconográfico e histórico e nunca se deviam destruir nem alienar. (7)

O tecto da nave central é de madeira, tal como o púlpito de secção hexagonal e a escada em caracol, circundando uma coluna da nave e que lhe dá acesso.

Tem coro.

O corpo da igreja possui uma porta lateral, de arco perfeito, mas sem qualquer interesse.

A sacristia tem porta e janela para o exterior. Recebe também luz por três frestas de arcos ogivais.

Do outro lado do templo, a confraria. Um lanço exterior de dez degraus de ladrilhos, protegidos por muro, leva-nos a uma porta de acesso. Janela quadrangular guarnecida por grade de ferro forjado.

A nível de alfaias, guarda um cofre eucarístico de prata e madrepérola e uma custódia templete do século XVII, rematada por uma imagem de Nª Sª da Conceição. (8)

Dois cálices de prata, um liso, outro cinzelado, do século XVII. (7)

No inventário dos Bens da Paróquia de 1878, (9) consta um cálix de prata dourado por dentro e bordado por fora, com os Martírios do Senhor.

De paramentos são apontados: uma casula francesa, do século XVI, com sebastos de veludo, panos laterais de seda lavrada e guarnições de brocatel, e uma casula verde, também do século XVI, em damasco com sebastos de brocatel. (7)

Como se disse, o estado actual deve-se ao restauro iniciado em 1948 e que a tirou da ruína. Em 14 de Janeiro de 1951, dizendo-se missa, reabria-se ao culto, considerando o correspondente local do Diário de Lisboa, uma obra do Estado Novo.

Por testamento de 20 de Setembro de 1852, Joaquim Madeira disse que irão para a igreja matriz, onde se conservarão, as imagens de Santo António e de Nª Sª do Carmo, que tem em sua casa. Estas imagens não aparecem referenciadas no inventário de 1878 nem são conhecidas na igreja.
Enquanto esteve em ruína, serviu de matriz a Igreja da Misericórdia.

Ocupa uma área de 417 m2 e pertence à Diocese de Faro. (10)

A Igreja de S. Salvador é considerada um dos melhores exemplares do primeiro renascimento no Algarve. (11)



N.B.Este texto foi retirado da 2ª Edição de Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), em preparação, guardando-se as notas para uma hipotética publicação.

sábado, 2 de janeiro de 2010

A cestaria

Outra actividade artesanal que foi do agrado deste povo. A cestaria é uma das mais antigas actividades artesanais, já que os seus produtos eram indispensáveis, principalmente para a lavoura e pesca.

A cestaria consiste no entrelaçar cruzado de vários tipos de vegetais, dando-lhes a forma adequada ao destino dos objectos.

Vários são os vegetais utilizados, dependendo fundamentalmente da sua existência na zona. No sul, entre outros, usa-se a cana, material fresco e de entrelaçado largo, a permitir arejamento dos produtos e a testemunhar a presença de séculos árabes. (1)



Tinham fama no País os cestos, cabazes e canastras algarvios.

As margens do Guadiana e dos seus cursos afluentes e subafluentes criavam muitos canaviais que abasteciam a arte.

Faziam canastras (reparar na origem do nome - de cana) de variadíssimos tamanhos, cabazes, cestas, cestos e condessas, mas qualquer outro se lhe for indicado o fim, pois depressa era idealizado o modelo.

Na altura, os cestos de papéis nas repartições públicas eram todos de cana, com o pé e receptáculo, o que nunca tínhamos visto. Hoje, certamente que não há nenhum, será tudo mais “fino”, tudo metálico, apesar de se pretender defender o artesanato. Por outro lado, os tabuleiros para a roupa passada a ferro constituíam bonitos cestos baixos de forma elíptica. Também vimos cestos próprios para a roupa suja e até gaiolas para pássaros.



Como nas outras artes, a sua beleza depende da habilidade do artesão.

Eram objectos de grande utilidade, servindo para transportar tudo, desde peixe aos produtos agrícolas e encontravam-se em todas as casas.

Quem estivesse em Lisboa, numa época festiva, pela carga dos tejadilhos das camionetas, facilmente reconheceria as que provinham do Algarve – eram todas as que traziam amontoados cestos e canastras de cana.

Dizem os entendidos que a principal “ciência” está no rachar das canas. Aqueles que faziam desta arte o seu meio de vida executavam a cestaria com uma rapidez surpreendente.



Segundo dizem, não é arte de fácil aprendizagem, pelo menos para se obter bom nível.

A fase mais importante do trabalho é o debruar.

Saber fazer cestos era comum a toda a região, mas a maioria aqui, no concelho de Alcoutim, fazia-o para consumo próprio. Fazia parte da cultura local. Um homem para ser homem tinha, entre outras coisas, de saber fazer um cesto e uma cadeira, incluindo tecer o fundo com junça ou tabua.

A aldeia de Odeleite, que há cerca de cinquenta anos, era considerada a “capital” da cestaria de cana, pertenceu, ainda que esporadicamente, a este concelho.

A vizinha Sanlúcar, ao contrário de Alcoutim, foi grande centro cesteiro, actividade que ainda era intensa na década de sessenta do século passado, vendo-se sair dali camionetas carregadas exclusivamente de cestaria. O Sr. Manuel Francisco, cesteiro da Corte da Seda, e considerado um bom artesão, aprendeu a arte ali.

Hoje, está praticamente extinta.



O aparecimento do plástico deu grande machadada neste e noutros tipos de artesanato, mas hoje nota-se uma vivificação da arte não para a utilização convencional que tinha, mas sim como objectos decorativos e de embalagem, pois são considerados símbolos de arte.

Além da cana, os artesãos alcoutenejos utilizavam a oliveira e o marmeleiro para os covos de pesca usados no rio.

NOTA

(1)-Cestaria Tradicional Portuguesa, Rui de Abreu Lima, - Feira Internacional de Artesanato - 1993.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Pequeno Esclarecimento

Caros Visitantes/Leitores:

Por motivo imprevisto e que tem a ver com o meu mau domínio técnico neste campo, durante o mês de Dezembro último tive algumas dificuldades em manter uma “postagem” assídua no ALCOUTIM LIVRE e no CORREIO DAS LEMBRANÇAS que só nos últimos dias se tornou mais notado.

Para que isto tivesse sido possível o prejudicado foi o e-mail que ficou completamente parado, pelo que peço desculpa a quem me contactou por essa via, a falta da minha resposta, se for caso disso, irá ser dada dentro da brevidade possível.

APROVEITO A OPORTUNIDADE PARA A TODOS DESEJAR UM BOM ANO DE 2010, APESAR DAS PERSPECTIVAS NÃO SEREM NADA AGRADÁVEIS.

SE É ALCOUTENEJO E VIVE AFASTADO DO SEU CONCELHO, SEMPRE QUE POSSA NÃO DEIXE DE O VISITAR E PROCURE MANTER A SUA IDENTIDADE, TOME NOTA DOS ATROPELOS FEITOS E NÃO SE DEIXE INFLUENCIAR NESSE SENTIDO. A SUA CASA NO MONTE NÃO DEVE SER IGUAL À SUA CASA DA CIDADE, AINDA QUE DEVA POSSUIR NATURALMENTE AQUILO A QUE CHAMAMOS ÁGUA, LUZ E ESGOTO, SENDO ESTE ÚLTIMO BEM UMA MIRAGEM NA GRANDE MAIORIA DOS MONTES.
DEFENDA E DIVULGUE AS SUAS TRADIÇÕES.

SE NÃO CONHECE ALCOUTIM, APROVEITE O ANO QUE ACABA DE ENTRAR PARA O FAZER. DÊ LÁ UMA SALTADA E PENSO QUE NÃO SE IRÁ ARREPENDER AINDA QUE TENHA QUE PASSAR, POR VEZES, POR ESTA OU AQUELA CONTRARIEDADE, O SALDO SERÁ FORÇOSAMENTE POSITIVO E NÃO DEIXARÁ DE VOLTAR.

CONTINUE A VISITAR O ALCOUTIM LIVRE.

JV

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Sanlúcar visto do lado de Alcoutim







Escreve
Gaspar Santos







No blogue A Moura do Castelo Velho, Odília Guerreiro uma professora natural de Alcoutim que não esquece a sua terra escreve:

[Brasão de Sanlúcar]

Muitas das minhas recordações de infância e adolescência estão ligadas também a SANLUCAR del GUADIANA. Cresci convivendo com eles e tenho um carinho especial por este povo que é uma extensão do meu. A música de Espanha teve, desde sempre, muita influência em mim. Quando canto para o espelho, nunca o faço em português, que me perdoe o nosso cancioneiro! Nem consigo ficar quieta, ao som dumas SEVILHANAS!
Também eu partilho dessas recordações. De minha casa ouvia-se falar as pessoas de Sanlúcar quando falavam em voz mais alta. Sevilhanas, “flamenco”, passo dobles foram as músicas a que os nossos ouvidos se habituaram e, isso marcou-nos. Era frequente ouvir no Areeiro ou na Lourinhã um camponês no caminho da outra margem, montando uma besta e a cantar uma dessas toadas dolentes acompanhada ou não com viola.

Nesse tempo as duas localidades, aparentemente, estavam de costas voltadas. Por isso o nosso convívio não foi tão grande como veio a acontecer anos depois. Só podíamos ir a Sanlúcar pelas Festas de Nossa Senhora de La Rábida. E os Sanluquenhos vinham a Alcoutim só em Setembro por altura da Feira, ou a partir de 1948 às Festas de Alcoutim. As fronteiras guardadas de ambos os lados, só davam passagem a médicos, padres, à Guarda-fiscal, às autoridades administrativas, e a alguém com poderosas razões para convencer o comandante local da Guarda-fiscal.

Por isso, do nosso lado limitávamo-nos a observar o que se passava do outro. E quando se falava alto ouvia-se, como se ouvia a música ou a cantar.

Mesmo assim, com uma só visita anual nos habituámos a ver Sanlúcar mais avançado do que nós. Foi assim que durante as festas de Nª Sª de La Rábida tínhamos acesso a sabonetes, perfumes e lindas camisas de seda. Ou que comemos pela primeira vez frutas e legumes fora de época (alfaces e tomates) e conservadas em calda (pêssego, peras, pimentos morrones etc).

[Sta. Virgem de La Rabida]

No âmbito dessa Festa anual, os nossos vizinhos tinham sempre um gesto de simpatia, fazendo uma arruada em Alcoutim com a Banda de Música. Era sempre a banda da Casa Cuna (Casa Mãe) uma instituição que educava órfãos e crianças abandonadas. Muitas vezes em Alcoutim a garotada ao mesmo tempo que acompanhava a Banda e apreciava a sua música, tentava descortinar pela fisionomia parecenças com mulheres de Alcoutim que se dizia terem deixado filhos na roda. E que divertidos bailes os nossos vizinhos realizavam na noite dessa festa! Mas o padre passava por lá à meia-noite para recordar a hora às raparigas. Ficavam poucas, apenas as mais independentes ou menos devotas.

[Recordando o velho comércio. Foto GS, 2009]

Havia uma actividade comercial quiçá mais moderna e mais desenvolvida do que em Alcoutim. Entrando no cais de Sanlúcar encontrávamos em frente à esquerda o Bar Estrella (onde pela primeira vez provei cerveja, na primeira festa a que permitiram passagem a seguir à Guerra Civil), depois o Casino ou Cassino e, na rua principal íamos encontrando sucessivamente o Miguel Ferreira, o Domingos Montez e uma outra loja cujo nome não recordo. Nestas três últimas casas comerciais encontrávamos de tudo. Desde arreios para animais, cordas, ferramentas agrícolas, mercearia, pólvora e cartuchos para armas de fogo, perfumaria e artigos de drogaria, bem como para vestir. Muitas senhoras, quando era possível passar, iam a uma das duas cabeleireiras existentes em Sanlúcar, um serviço que ainda hoje Alcoutim não possui.

Da actividade económica sanluquenha saliento a indústria de carvão vegetal por vê-la anunciar nos cartazes das festas. E também a cestaria de cana. Observávamos uma intensa actividade agrícola nas várzeas e nas eiras, a criação de gado cavalar que aparecia solto e a pastar de dia e de noite nas encostas à volta de Sanlúcar, (a prado como eles dizem) e as cavalhadas durante a festa.

Mas antes da Guerra-civil (1936/39) Alcoutim participava da actividade comercial com um armazém/entreposto de ovos. O Senhor Francisco do Rosário comprava ovos no concelho de Alcoutim que eram exportados para as grandes cidades andaluzas de Sevilha e Huelva via Sanlúcar. Ele até dizia alguns anos depois de cessar esse negócio, que pagava mais à empregada do armazém do que recebia a sua mulher que era Professora do Ensino Primário.

Também nesse tempo, nos mercados de gado, de Alcoutim e Sanlúcar se negociavam animais. Os bois e os cavalos atravessavam o Guadiana a nado, enquanto os animais de mais pequeno porte viajavam de barco.

[Sanlúcar. Gado de trabalho. Foto JV, 1973]

Na Sanlúcar dos anos 40 e 50, havia um artesanato com um bom peso económico, a cestaria de cana. A atestá-lo vê-se ali hoje, e nós fotografámos, o monumento ao canastreiro. Havia grande consumo de canastras para o acondicionamento do pescado nos portos de Ayamonte e Huelva. Aproveitavam, para a sua manufactura, a matéria-prima dos canaviais que tão bem se dão nas várzeas banhadas pelo Guadiana.

Após serem colhidas, as canas eram atadas inteiras, em feixes reunidos formando uma jangada, que no rio a maré favorável se encarregava de trazer para Sanlúcar. Um homem viajava em cima dessa jangada para a guiar sem muito afastamento da sua margem.

Já no Século XV os portugueses tinham usado este método. Lançavam ao rio grandes troncos de sobro ou de azinho. Eles desciam com a maré até serem capturados antes de saírem a barra. Constituíam as proas e quilhas das caravelas depois de afeiçoados nos estaleiros de Santo António de Arenilha.

[Canastreiro. Foto GS, 2009]

Em Sanlúcar as canas eram peladas e cortadas longitudinalmente em delgadas tiras para a manufactura dos cestos. Mas antes de os cestos serem tecidos, as tiras de cana eram colocadas de molho no rio com uma pedra em cima, pois a cana, entretanto, secara tornando-se quebradiça e pouco domável. Demolhar as canas era uma tarefa de jovens sanluquenhas que iam em alegre grupo até ao cascalho de Sanlúcar ou em frente ao Castelo Velho. Assisti a grande galhofa e risinhos dessas jovens que reagiam assim, neste último cascalho, à aproximação a um nadador de Alcoutim que namorava uma delas.

No princípio dos anos 40 vimos aparecer em Sanlúcar os camiões Pegaso de fabrico espanhol. Um camião que veio a evoluir para um bom veículo e a ser um orgulho espanhol. Mas a sua tecnologia, como é natural, não esteve de princípio completamente dominada e, muitas vezes, avariavam em Sanlúcar e era necessário deslocar lá mecânicos para os desempanar.

[Cais de sanlúcar. Foto de JV, 1986]

Lembramo-nos também da construção do cais de Sanlúcar no início dos anos 40. É do tipo muralha. Nem os seus objectivos nem o local escolhido, que é pouco profundo, o projectavam para a atracação de grandes navios. Mas impressiona, por mostrar dois aspectos importantes. A sua imponência que o elevam à cota da baixa da vila; e lhe permite a operacionalidade em caso de grandes cheias. Para manobrar pequenas cargas em condições de marés normais dispõe de grua.

Hoje a travessia de barco entre Alcoutim e Sanlúcar custa apenas um euro, a qualquer hora do dia.

Não posso deixar sem registo a algazarra, que algumas vezes ouvimos. Ouvia-se “perro dañado” e de seguida via-se uma correria de homens, nos campos em frente, com a espingarda pronta a atirar, mobilizados para dar caça a um cão que punha em perigo as populações. O alarido parecia-nos grandioso e até algo a despropósito e por isso em Alcoutim já sabiam do que se tratava e num encolher de ombros diziam mais um cão raivoso… Provavelmente não se levava muito a sério, no outro lado, a vacina contra a raiva que Pasteur tinha descoberto já havia alguns anos.


Pequena nota
Mais um interessante texto que este colaborador nos oferece retratando pelo menos uma visão de mais de sessenta anos!
As coisas nem sempre foram iguais como nos pretende mostrar através da sua privilegiada memória, do seu olhar atento e da singeleza da sua escrita.

JV

domingo, 27 de dezembro de 2009

Montes desaparecidos ou despovoados na freguesia de Giões

[O Monte do Viçoso depois do abandono]

Na continuação do que fizemos em relação à freguesia do Pereiro vamos hoje abordar a mais pequena do concelho, a de Giões.

São poucas as situações verificadas.

As Memórias Paroquiais (1758) referem a existência como habitado o monte da Cacelinha que segundo informa fica próximo da aldeia sede de freguesia. Quinze anos depois sabemos que lá vivia, certamente com a família, António Gonçalves que na Câmara fez o manifesto de seis reses.

Nos Anuários Comerciais dos princípios do século passado são indicados como povoações da freguesia: Minhova, Cacela e Mingordo.

Aqui Cacela deve estar por Cacelinha, palavra de origem árabe que significa prado ou pastagem de gado.

Na Minhova, em 7 de Setembro de 1841, ainda é exposta uma criança do sexo feminino.

O Monte de João Velho e que presumo localizar-se nesta freguesia é referido em actas das Sessões da Câmara Municipal da segunda metade do século XIX.

Outro dos montes indicado como povoado é o de Mingordo que deve ser elisão de “Moinho Gordo” e que penso se localizaria nas proximidades da ribeira do Vascão e talvez relacionado com algum moinho na ribeira. Nas suas proximidades uma mina de cobre registada em 1878.

Gordo porquê? Pela alcunha ou nome do proprietário? Ou seria pelo seu volume? Seria pela “gorda” produção do mesmo?

Navegamos no campo das hipóteses e até porque desconhecemos o local onde se situaria e de que julgo ainda existirem ruínas.

Outro dos montes indicados como habitado era designado por Carrascal não tendo eu mais qualquer elemento para poder referir.

As maiorias destes montes eram constituídas por um único fogo, quando muito por dois ou três e daí o seu desaparecimento. Nessas alturas, viver num monte grande ou num monte pequeno e isolado era muito semelhante. Estes montes tinham inspiração nos conhecidos montes alentejanos que acabaram por sofrer transformações parecidas ainda que as suas dimensões como domínio da terra fossem muito maior e mais produtiva.

Há uma investigação a fazer nesta vertente mas a verdade é que até agora ninguém a fez.

É muito pouco o que aqui fica referido mas este pouco será desconhecido da maioria dos alcoutenejos.

Deixámos para o fim a abordagem do último monte que se despovoou na freguesia. A sua deterioração tem sido veloz e o saque levou o pouco que existia numa povoação de gente trabalhadora.

Em 1976 ainda o habitavam 11 pessoas, número muito semelhante ao que têm hoje a maioria dos montes do concelho. Penso que os últimos moradores teriam saído na década de oitenta. Isto pode-nos levar a concluir que dentro de vinte anos grande número de montes do concelho estará em igual situação.

Em 1839, Silva Lopes, no final do seu trabalho (Corografia do Algarve) apresenta um mapa com os fogos existentes, quando se refere à freguesia de Giões não indica os deste monte que já existia certamente.

O monte era constituído por três núcleos populacionais que sumariam dez ou doze fogos. Situava-se numa pequena elevação circundada pelos barrancos dos Paus e de Cacela que iam dar à ribeira do Vascão.

Como era próprio da época, chegaram a realizar-se simultaneamente dois bailes e isto porque havia no monte cerca de dezasseis moças e só com elas se podia contar pois dos outros montes só vinham os rapazes e não raparigas o que nessa época era impensável.

sábado, 26 de dezembro de 2009

A candeia



Apresentamos hoje mais um utensílio completamente caído em desuso e que se usou por todo o País, nalguns locais há menos de um século.

Destinava-se à iluminação e era constituído por um pequeno vaso onde se deitava um óleo, normalmente azeite que alimentava uma torcida pela combustão e que saía de um bico.

Este tipo de iluminação já era utilizado pelos romanos e pelos árabes aparecendo com muita frequência em escavações feitas por arqueólogos e conhecidas por lucernas.

Aproveitámos o sistema mas naturalmente fizemos evoluir o utensílio.

Feita de barro, lata ferro ou de qualquer outro material, era indispensável e usou-se no concelho de Alcoutim pelo menos até ao primeiro quartel do século passado.

Penduravam-se normalmente na parede.

Acompanhou depois o uso do petróleo, primeiro usado pelo mesmo sistema em pequenos depósitos de lata. Os candeeiros com chaminé de vidro vêm muito depois e tiveram igualmente uso simultâneo. Utilizavam-nos quando se iam deitar.

Não esquecer que Alcoutim recebeu a electricidade em 1965 e os montes cerca de dez ou mais anos depois.

Os dois exemplares que apresentamos, um de ferro e outro de lata, tiveram uso efectivo e hoje, depois de embelezados, servem de objectos decorativos.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Estórias e Opiniões sobre o surf em Peniche



[A ofertante num carvão de Isabel Cordeiro, 2009]

Fui este NATAL contemplado pela minha neta, com um exemplar deste trabalho de 164 páginas e formato A/5 que reúne treze estórias e trinta artigos de opinião que o autor, José Miguel Nunes, publicou entre Setembro de 2007 e Dezembro de 2009 no Jornal de Peniche On-line, onde colabora desde a sua fundação e mantém a coluna “História e Estórias do Surf Penicheiro”.

Primeiro como praticante desde tenra idade e depois como analista, tem dedicado muitas horas de trabalho à temática que sempre o apaixonou, defendendo os seus pontos de vista com equilíbrio, ponderação e frontalidade, sem ser serviçal e não andando a reboque de ninguém.

Ainda que este tema esteja fora do meu “mundo de interesses”, não deixei de fazer a minha leitura atenta. As “estórias”, reais e em que não deixa de referir os amigos com quem partilhou, estão contadas com graça, num português fluido sem deixar de utilizar termos de uso local e o linguajar próprio da sua época.

Naturalmente que nas “opiniões”o tipo de escrita é completamente diferente como não podia deixar de ser.

Este primeiro ensaio, com muito bom aspecto gráfico, poderá, ser melhorado numa segunda edição que desejo se concretize mas em moldes diferentes.

Primeiro temos que respeitar as prioridades.

Este “livro” faz falta a Peniche.

Além de colaborador do ALCOUTIM LIVRE, José Miguel Nunes é meu filho como muitos visitantes já saberão e teve a amabilidade de me dedicar este seu primeiro trabalho, o que faz nos seguintes termos:



Pequeno apontamento...

Desde sempre me lembro de te ver rodeado de livros, desde sempre lembro de te ver a escrever artigos para diversos jornais e revistas sobre a tua paixão, História Local.

Lembro-me do teu primeiro livro ser todo “batido” na velhinha máquina de escrever, na mesa da casa de jantar lá de casa. Depois desse já publicaste mais dois, estes já não à máquina, mas sim à frente de um computador, que entrou inevitavelmente na tua vida com tal fulgor, que se tornou um instrumento inseparável, nem na mesa da casa de jantar, pois mudaste-te de armas e bagagens para o teu refúgio mais prezado, o escritório, que montaste assim que tiveste possibilidades para isso, e no qual te rodeaste dos bens mais preciosos que possuis, as muitas centenas de livros que tens vindo a adquirir ao longo da tua vida.

Talvez por tudo isto, também eu a certa altura, nem sei bem como, acabei por começar a escrever qualquer coisa sobre a minha paixão, o surf.

Ainda não escrevi nenhum livro, nem sei se algum dia escreverei, poderá nunca se proporcionar, e mesmo que se proporcione, não sei se tenho capacidade para o fazer, pelo menos com a qualidade que os teus apresentam, no entanto queria deixar-te uma espécie de livro, uma compilação dos meus artigos, que de algum modo acredito terem também a tua marca, pois a frontalidade com que escrevo aquilo que penso foi algo que aprendi contigo.

Não querendo de modo algum ser pretensioso, se porventura esta “compilação”, não lhe chamarei livro, ganhar lugar na tua estante, lado a lado com os, esses sim, livros, da tua autoria, é algo que me deixará imensamente satisfeito e honrado.

Em 1985, dedicaste-me o teu primeiro livro, com a frase que nunca esqueci: “onde pulula sangue alcoutinense”, vinte e quatro anos depois, apesar de o teu sangue não ter o travo a sal que o meu por força das circunstâncias acabou por adquirir, chegou a minha vez,

para ti PAI.

Peniche, Dezembro de 2009


Pequena nota

Peço desculpa aos meus visitantes/leitores pela publicação deste Pequeno apontamento..., que tem muito de pessoal mas que considerei de interesse partilhar convosco pelos valores que encerra.
Passados 24 anos foi-nos dada a resposta mais apetecida, mas confesso que só muito recentemente julguei ser possível
O beijo de agradecimento ao “meu menino de oiro”.

JV