sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Crónica de Verão





Escreve


Amílcar Felício



[Jovens de Alcoutim daquele tempo]

Se até o Governo e a Assembleia da República vão a banhos ao fim de 2 meses de trabalho, depois de nos darem a entender que este ano não ia haver nada para ninguém, no seguimento do que dizia o outro “ de que nem iriam ter tempo para se sentar”, porque é que nós não haveremos de fazer o mesmo? Começam de facto a convencer-me, aqueles que dizem de que “vida melhor do que a de ministro... só a vida de ex-ministro!”

Assim e antes que venha para aí mais algum corte também no subsídio de férias, aproveitemos a crónica desta semana para ir até Vila Real de Santo António beber um copo e ver como paravam as modas por lá noutros tempos. Acho que também merecemos!
Em 1963 ou 1964 posso-vos garantir que sair de Alcoutim para ir passear àquela Vila Pombalina ainda era uma pequena aventura que requeria algum planeamento, nomeadamente pela logística do transporte para que tudo batesse certo na ida e no regresso. Hoje em dia é tudo diferente e qualquer pessoa pode ir até lá nas calmas à hora de almoço, tomar a bica e voltar logo a seguir para o trabalho da tarde, como se fosse ao Quiosque do Rio tomar café. Ainda bem!

Os automóveis em Alcoutim naqueles tempos contavam-se pelos dedos de uma só mão e ainda sobravam muitos dedos. Eu francamente só me lembro do carro do Dr. João Dias na década de cinquenta e já bem entrados na primeira metade da década de sessenta do carro do Sr. Paulino Chefe de Finanças e de uma ou duas carrinhas de caixa aberta, salvo erro dos Gomes das Cortes Pereiras e do Ti Guerreiro talhante se a memória não me falha e a quem pagávamos o gasóleo, para nos deslocarmos para uma jogatana a este ou àquele Monte do Concelho, sempre com a bandeira do Grupo Desportivo 1º de Dezembro imponente a esvoaçar no tejadilho.

De resto o parque motorizado e “desmotorizado” (*) era constituído naqueles tempos por umas bicicletas a pedal e uma ou outra a motor, muitos burros e algumas carroças, mais uma mula, um macho ou uma égua. Havia também barcos a remos e o velho Gasolina com a sua figura castiça o “Fachenita” que fazia regularmente o percurso fluvial Mértola-Vila Real-Mértola e a velha camioneta de nariz empinado, que chegava de Lisboa às 5 horas da tarde e acabava a carreira naquela Vila Pombalina, voltando a Alcoutim no dia seguinte às 10 horas da manhã a caminho de Lisboa novamente. Ainda me lembro do martírio que esta coitada passava nos anos cinquenta para chegar à Praça pela rua das Portas de Mértola, pois ainda não existia a estrada junto à ribeira, que na altura eram os quintais das casas que de uma maneira geral ainda lá existem com a mesma arquitectura exceptuando uma ou outra claro e as duas casas em frente à família Canelas que foram deitadas a baixo, para fazer um ajardinado a 45º...
[A cidade pombalina. Foto JV, 2011]

Às vezes apetecia-nos sair da rotina e fazer alguma coisa de diferente num ou outro fim-de-semana. Dávamos descanso à lancha do Xico Balbino e aos passeios e patuscadas no Guadiana, às jogatanas de futebol na Fonte Primeira ou em Martim Longo, aos bailaricos em Giões, no Pereiro ou nos Montes do Rio que tinham as caras mais bonitas do Concelho, ou aos passeios a Sanlúcar para umas cervejolas no Estrela e saborear as suas formidáveis tapas à borla, que muitas das vezes eram gambas que vinham das Canárias ao preço da uva mijona.

Os passeios com as espanholitas eram o pão nosso de cada dia e às vezes até de cada noite e acabavam quase sempre a dançar as sevilhanas ao som da minha velha viola que era a única coisa que sabia arranhar e mais um ou outro flamenco , contagiando-nos com a sua alegria e o seu salero sem limites e contrariando assim o nosso histórico fatalismo. Era uma lufada de ar fresco!


Éramos bem recebidos e sentíamo-nos bem em Espanha. Apetecia-nos sempre voltar, pois quem é que não gosta de se divertir e andar alegre ainda por cima quando se é jovem? E a verdade é que tínhamos conseguido relacionar novamente as juventudes das duas povoações ribeirinhas, que viviam de costas voltadas desde a fratricida guerra civil que as tinham separado à força fazia já mais de duas décadas, criando laços de amizade que perdurariam pelo tempo fora e até um ou outro casório!

Encontrava-me com a família por mero acaso em Sanlúcar no dia do funeral de Dom Miguel Ferreira, salvo erro em Fevereiro de 2009. Quando descíamos a rua do seu antigo comércio para irmos dar os pêsames à família, fomos surpreendidos pelo funeral que já subia a Avenida. Inclinávamo-nos respeitosamente à passagem do féretro quando estupefacto, vejo a filha Angélica que já não via há dezenas de anos afastar-se do cortejo perante o olhar geral, para nos vir cumprimentar afectuosamente ao passeio. Demos-lhe as nossas sentidas condolências pela morte de um Homem Bom e de um Verdadeiro Amigo dos Portugueses. Será preciso dizer mais alguma coisa para se entender o relacionamento entre portugueses e espanhóis naqueles tempos? Se havia lá mais algum português não dei conta, pois não conhecia mais ninguém. Possivelmente como se mudaram os tempos etc., etc., etc. ...

[Sanlúcar do Guadiana. Foto JV, 2011]

Mas deixemos as partes tristes da vida e não nos esqueçamos que temos que ir para Vila Real de Santo António...
Estávamos nos princípios da década de sessenta e o turismo começava a desabrochar no Algarve a um ritmo alucinante. Alguns dos estrangeiros pareciam que tinham descoberto o Paraíso na terra e assentavam arraiais com armas e bagagens, deslumbrados quer com o clima quer com a beleza da região ainda virgem, beleza que eles – mas principalmente nós – haveríamos de ir descaracterizando irresponsavelmente ao longo destas quatro ou cinco últimas décadas, pela ganância do lucro fácil.

Constava-se que havia quem lhes vendesse um espaço equivalente a um galinheiro ou uma pocilga por trezentos contos, o que era uma pequena fortuna nas nossas contas naquela época. Nas contas deles claro, comprar uma Mina de Ouro àquele preço não passaria de uns miseráveis patacos suponho, pois tinham um nível de vida seguramente dez a vinte vezes superior ao nosso. Possivelmente que antes da UE nos encharcar com a ilusão dos fundos, aquela época algarvia foi certamente a nossa última ilusão – embora regional – de termos chegado novamente ao Brasil. Enquanto uns partiam para a aventura da emigração, os que ficavam naquela região olhavam para os estrangeiros na altura como quem olha para a árvore das patacas. Vendia-se-lhes o Algarve por uma fortuna pensávamos nós e eles compravam-no por tuta-e-meia.

Outros estrangeiros vinham aos magotes atraídos pelo baixo preço da estadia no Paraíso.

Fazia parte do nosso grupo o Eckard, um geólogo alemão com 1 metro e 98 centímetros que fazia a sua tese em Alcoutim por indicação expressa do seu professor na Alemanha, por particularidades da nossa região que me escapam. Provavelmente por se tratar de uma zona de regressão marinha da época Glaciar, pois era visível a existência de areias e conchas no cimo do Cerro da Mina cuja descoberta nos espantava, quando em miúdos explorávamos as minas que lá existem armados em bandeirantes e nos questionávamos na nossa santa ignorância, se o mar não teria já andado por ali antes de nós.

Claro que Alcoutim baptizou-o de imediato de “O Pedrinhas”. Apesar de não ter que dar contas a ninguém nem horário de entrada ou de saída, era de uma regularidade no trabalho impressionante. Parecia um relógio suíço. Dominava perfeitamente o português. Sei que tinha 198 centímetros porque certo fim-de-semana encontrámo-nos em Lisboa para um curto convívio e decidimos ir ver determinado filme ao velho cinema de S. Jorge.

Ficámos na plateia. Ao lado do Eckard estava uma menina que tinha uma amiga no 1º balcão e que não resistiu no intervalo, gritando-lhe lá de cima: oh não sei quantas (!) esse aí ao teu lado tem mais de 2 metros! O Eckard levanta-se na sua corporal imponência, vira-se para o 1º balcão e rectificando de imediato a medida grita-lhe em voz alta: você está mesmo muito enganada minha querida, faltam ainda 2 centímetros! Tinha aprendido a conviver com o humor português e adaptava-se perfeitamente!

No trato até já nem parecia um estrangeiro naquele corpalhaço disforme de alemão louro, que não enganava nem o mais pitosga. Nunca lhe conseguimos arrancar uma palavra sobre a crueldade e o terror nazi. Estava bem industriado. Dizia-nos sempre que sobre esses assuntos não queria nem gostava de falar! Parecia-nos que tinha vergonha ou então a consciência pesada, sabe-se lá! Às vezes tentávamos que bebesse mais uns copos para ver se lhe desatávamos a língua, mas nunca perdia aquela postura formal que todos os homens do norte europeu têm e que é tão diferente dos latinos, pois primeiro que o álcool chegasse lá cima à cabeça, dizíamos nós, evaporava-se certamente.

Até que um dia descobrimos a receita: o vinho Lagoa que tinha uma graduação no mínimo de uns 14º. Foi engraçado ver aquele corpalhaço disforme com uns copos descomposto chegar ao Cais Velho certa tarde e naquela barafunda toda com o Guarda Fiscal à mistura, ver ir o boné deste parar ao rio. Claro que a partir daquele dia nunca mais quis beber vinho Lagoa e voltou à formalidade do costume, derrotando a nossa estratégia!

E lá chegámos finalmente certo fim-de-semana a Vila Real – a viagem era mesmo longa e complicada não vos dizia (!) – atraídos possivelmente pela miragem da invasão estrangeira de que apenas nos chegavam os ecos a Alcoutim. Descobríamos com os nossos próprios olhos de que se tratava de facto de Novas Invasões mas desta vez já não eram só as Francesas, mas fundamentalmente Inglesas! Sentamo-nos numa das esplanadas da Avenida Central para apreciar aquela Nova Invasão bebendo naturalmente umas cervejas. O Eckard que muito se sensibilizava pela maneira como o recebíamos, queria mostrar a sua gratidão e pagar toda a despesa, chamando o empregado. Ao perguntar-lhe quanto custava cada cerveja, responde-lhe este sem pestanejar de que eram a 10 escudos cada (não vos quero mentir mas o preço normal acho que eram 25 tostões e ele pedia-nos quatro vezes mais!) ao que eu lhe pergunto de imediato: “mas você não está enganado companheiro”? Responde-me ele sem papas na língua, “desculpem lá amigos, mas pensava que eram estrangeiros!”.

[Equipa de futebol de Alcoutim, 1964]

Esta mentalidade de lucro fácil que naquele tempo até poderíamos considerar um expediente com piada, contra aqueles que nos compravam ao desbarato (afinal não se tratava mais do que uma simples desvalorização da moeda, habilidade que os políticos praticariam algumas décadas depois!), acabaria por se transformar anos mais tarde já sem qualquer desculpa, em Política Geral que marcaria aquela região até há bem pouco tempo, espantando muito turista que preferiam ir para Espanha a muito melhor preço em condições equivalentes. Mas acho que já aprendemos...

Nota: (*) Sempre que encontrava o “Sargento” Diogo, personagem que já tenho referenciado diversas vezes nas minhas crónicas, tinha que lhe pagar um copo por uma dívida de gratidão que se arrastava desde os finais de um Inverno rigoroso da década de quarenta, com apenas 1 ou 2 anos de idade. Efectivamente contraí uma grave doença que mata por asfixia (o popular garrotilho) e o médico encontrava-se em Martim Longo. Foi o “Sargento” Diogo que de bicicleta a pedal foi a Martim Longo chama-lo e assim me salvou a vida. Contava-me sempre esta estória e acrescentava que quando chegou à Portela Alta, ia tão cansado que a roda se atolou na lama e ele caiu ficando ferido e todo sujo, mas dada a gravidade do problema lá continuou a toda a velocidade sem hesitar, cumprindo a missão até ao fim! Assim se desenrascavam os alcoutenejos...
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