
Tive conhecimento deste costume, hoje completamente caído em desuso e que só os mais velhos recordarão, num “monte” da freguesia de Alcoutim, não haverá muitos anos.
Mas afinal o que é a rifa das laranjas?
Aquilo a que vulgarmente se chama a fruta era e é pobre na freguesia do Pereiro. Figos, marmelos, algumas romãs e uvas provenientes de “parrões”, eram o que se podia produzir nos lugares de melhor terreno e normalmente situados junto de ribeiras e barrancos.
O fruto proveniente do enxerto de um pereiro bravo e o dado pelas tunas (opúncias) constituíam as alternativas.
O homem, procura, entretanto criar frutos mais apetecíveis, mais finos, mais atractivos, pelo que, nos locais mais propícios, planta a sua laranjeira. Com redobrados cuidados consegue que se vá desenvolvendo e algumas conseguiram portes assinaláveis.
E agora o que fazer aos apetecíveis frutos tornando o investimento rentável?
Nessas alturas não havia dinheiro disponível para comprar um quilo ou dois de laranjas! Mesmo quem o tivesse, faria um mau governo, para utilizar uma expressão local.
O que fazer então?
O proprietário, apanhando uma canastra de laranjas, promovia a sua “rifa”, isto é, fazia constar no povo que nesse dia haveria rifa de laranjas na sua casa ou na casa de fulano, muitas vezes numa casa comercial.A notícia corria célere e à hora marcada juntavam-se os jogadores, que iam dos mais idosos aos adolescentes enviados por familiares.
O produtor de laranjas lá estava a um canto da casa, sentado na sua cadeira de tabua e tendo ao lado a canastra de laranjas.
Cada pretenso jogador comprava umas tantas. Ao iniciar-se a rifa, quem pretendesse entrar no jogo colocava no bolo a sua parte, isto é, uma laranja. Munido de um baralho de cartas, um dos jogadores, depois de previamente embaralhadas e partidas, dava três cartas a cada jogador e tirava o trunfo. Quem tivesse o maior trunfo, arrecadava a totalidade do bolo e nova jogatana se realizava, rodando naturalmente o jogador que dava as cartas. As laranjas iam desaparecendo e quem já não tinha, voltava a abastecer-se. Enquanto uns deixavam de jogar pois já tinham laranjas suficientes, outros iam aparecendo e tentando a sua sorte.
Com esta maneira simples, o produtor conseguia vender a produção, assegurando o seu rendimento.
Era assim a rifa das laranjas!
Nota
Extraído com adaptação de "A Freguesia do Pereiro (do concelho de Alcoutim) «do passado ao presente»", Edição da Junta de Freguesia do Pereiro, 2007, p. 191















