segunda-feira, 24 de novembro de 2008

A Lenda da Horta da Fonte dos Mouros


(Ataíde de Oliveira)
A freguesia de Vaqueiros, situada no interior do concelho de Alcoutim e nas faldas da Serra do Caldeirão, dominadora daquelas paragens e onde naturalmente os mouros se fixaram até à sua expulsão concluída por D. Afonso III, deixaram vários vestígios, alguns que ainda hoje se podem verificar, por exemplo na toponímia, como é o caso de alcaria (a aldeia) representado nos montes de Alcaria, Alcarias e Alcaria Queimada.

Muitas são as palavras que a nossa língua aglutinou e transmitiram-nos técnicas agrícolas ainda hoje conhecidas e mesmo utilizadas nas quais se incluem o enxerto de zambujeiros em oliveiras. Deixaram-nos igualmente a técnica de construção em taipa, hoje posta em desuso mas que foi muito utilizada em casas e mesmo em muros protectores de terrenos como ainda actualmente se pode verificar.

As lendas de mouras encantadas também ficaram e continuam a perdurar na memória do povo.

Estas lendas, que aparecem do norte ao sul do país, talvez com mais intensidade no sul, pois foi por estes sítios que permaneceram mais tempo, baseiam-se fundamentalmente na tríade: “beleza feminina”, “riqueza representada por barras de oiro” e a “luta desumana a travar para obter o prémio”, muitas vezes representado pelo conjunto da bela agarena e do tesouro.

Para além disto, aparecem naturalmente outras circunstâncias como os amores entre as princesas árabes e os cavaleiros cristãos, castelos, covas, grutas e poços e outras acrescentadas pelos seus contadores no decorrer dos séculos.

Bem, mas vamos ao que nos propusemos contar: A LENDA DA HORTA DA FONTE DOS MOUROS.


(Vaqueiros, vista do sul, 1989.Foto J.V.)
Nas proximidades do Monte do Zambujal, a cerca de trezentos metros, existe uma fonte aberta em rocha, onde há uma figueira, sobre a qual tem aparecido uma bela moura, chamada a princesa, admiravelmente vestida, que pede às pessoas, às quais aparece, a desencantem a troco de muitos tesouros, guardados por um mouro gigantesco, cuja habitação está escondida em uma cova logo abaixo da referida Horta. Esta cova é ainda hoje designada pela Cova da Moura. Um pouco mais abaixo existe um pego, chamado o Pego do Mouro, onde muitos afirmam estar depositado o tesouro prometido pela moura.

Para ser desencantada a moura, é mister que o sujeito trave luta com o mouro gigantesco e o vença. É aqui que está toda a dificuldade. Ninguém se atreve a lutar com o mouro pelo receio de ser vencido ou morto.
Ainda que não se conheça a data do encantamento, pensa-se que este aconteceu quando os mouros foram expulsos da região.

É nestes termos que Francisco Xavier Ataíde de Oliveira descreve esta lenda no seu trabalho “As Mouras Encantadas e os Encantamentos do Algarve”, Tavira, 1898 com edição recente de 1994. A informação devia ter sido obtida através do colaborador local, P. João de Sousa Valente.

Esta lenda é referida igualmente em Mitos e Lendas de Vaqueiros, Edição Alcance, 2003.
Também eu a referi no meu trabalho, Alcoutim, capital do nordeste algarvio (subsídios para uma monografia), 1985, pág. 391.