sexta-feira, 30 de Julho de 2010

O tornel


Esta pequena e útil peça, primitivamente de madeira, conheci-a em Alcoutim, onde me foi explicado o seu funcionamento e aplicação, que facilmente se compreende.

Era feita de chaparro ou azinho pelo homem do campo que dela necessitava, pois são madeiras muito resistentes e por isso mesmo difíceis de trabalhar.

Depois de achatada, eram feitos dois buracos em cada uma das extremidades.

Enquanto uma corda a que na extremidade se fazia um nó se passava por um dos buracos e se prendia à estaca, a outra, pelo mesmo sistema, prendia-se à pata do animal.

Assim, as cordas podiam movimentar-se em todas as direcções evitando o seu ensarilhar.

É claro que existe o tornel de ferro de confecção industrial e que tem várias aplicações mas respeitando o mesmo princípio.

Encontrei nos dicionários que consultei as seguintes definições, onde o verbo e a construção da frase estão modificados, mas, naturalmente, com o mesmo sentido:- Argola cravada na extremidade de uma haste, sobre a qual gira para todos os lados (Dicionário Domingos Barreira); Argola presa a uma haste e que gira em todas as direcções (Dicionário Editora); Argola móvel em todas as direcções e adaptada à extremidade de uma haste (Lello Universal) e Argola cravada numa haste, sobre a qual se revolve para todos os lados (Torrinha).

Para minha surpresa não encontrei o termo no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea – Academia das Ciências de Lisboa / Verbo, 2001.

quinta-feira, 29 de Julho de 2010

Álvaro Cunhal - sete fôlegos do combatente -Memórias


O Escaparate de hoje tem plena justificação visto o autor, Carlos Brito, ser um filho adoptivo de Alcoutim desde tenra idade.

Numa realização de Edições Nelson de Matos, em formato de 15,5X23 cm, comporta 381 páginas contendo algumas fotografias a preto e branco que fazem parte da História do País e como não podia deixar de ser do PCP.

O trabalho, que acabei de ler, divide-se em três partes:- O LÍDER NA REVOLUÇÃO, O REVOLUCIONÁRIO NA DEMOCRACIA e CARISMA E SINGULARIDADES.

Carlos Brito, que privou e acamaradou com Álvaro Cunhal durante longo período, pelo que admito, será uma das pessoas que melhor o conheceu.

Confesso que depois da leitura mantive praticamente a mesmo opinião que tinha sobre o histórico “leader” do PCP, até porque já lera Foi assim, de Zita Seabra, isto apesar de para mim serem livros completamente diferentes.

Por outro lado vou lendo espaçadamente “Álvaro Cunhal, uma biografia política” de José Pacheco Pereira.

São curiosos e interessantes alguns episódios narrados e bem demonstrativos, penso, da personalidade do político.

Estou certo que este livro irá ser, junto a tantos outros, um importante depoimento para ajudar a analisar e compreender Álvaro Cunhal, o que acontecerá no decorrer dos tempos.

Daqui saudo Carlos Brito por mais este seu trabalho, talvez o mais emblemático.

quarta-feira, 28 de Julho de 2010

Irá sair das ruínas a Ermida de São Domingos, na aldeia de Giões (Alcoutim)?

Pequena nota
Já se passaram quase vinte anos sobre a data em que publicámos este pequeno escrito na imprensa regional sobre um possível restauro desta capela que foi a primeira igreja matriz da freguesia de Giões.
Ainda que neste espaço já a tivéssemos referido na nossa rubrica Templos e que agora nos iremos repetir sobre os dados do seu passado, pensamos que se justifica plenamente a inclusão deste artigo na rubrica Ecos da Imprensa.
Daqui nos congratulamos com a decisão tomada e saudamos todos os que tenham contribuído para o seu restauro.

JV

(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 1 DE NOVEMBRO DE 1990)



Para o retemperar de forças periódico, vamos de” longada”até ao não poluído (até quando!) nordeste algarvio, com saídas fortuitas ao litoral para contrapeso da situação.

Sempre que possível, damos umas escapadelas a locais que já conhecemos, para os conhecermos melhor – há sempre algo para descobrir – ou a outros onde nunca fomos.

Desde há muito que nos interessa conhecer o Cerro das Relíquias, local bastante referenciado quando se fala no passado alcoutenejo.

O monografista algarvio, Ataíde de Oliveira, a ele se refere com certo desenvolvimento nalguns dos seus trabalhos. (1)

No cálido mês de Agosto da serra, que nos satura mas que ao mesmo tempo nos satisfaz, quebrámos o recosto da cadeira de repouso, metemo-nos no veículo automóvel e fomos a caminho de Giões, aldeia que conhecemos já lá vão mais de vinte anos. A nosso lado, quem ali exerceu, esporadicamente, funções docentes, há cerca de dezasseis anos e que teve a satisfação de saber que, pelo menos um do s seus alunos, já tinha obtido a licenciatura, o que afinal não admira, pelas qualidades já então reveladas.

Dessedentámo-nos, cumprimentámos amigos e conhecidos que encontrámos ou que fomos procurar. Pedimos a indicação mais rigorosa do Cerro das Relíquias e logo obtivemos o espontâneo oferecimento para nos acompanharem e … lá fomos.

Mas não é do Cerro das Relíquias que vamos falar hoje, o que ficará para outra oportunidade, se ela se deparar.

Acontece que nas conversas curtas que encetámos, nos apercebemos que existe vontade local para reconstruir a velhíssima capela de São Domingos.

Pensamos que existem, como é natural, diferentes pontos de vista sobre a sua utilização e restauro.

É um problema que pertence aos gionenses que resolverão da maneira que lhe parecer mais adequada. Pensamos contudo que “oferecendo” alguns dados de carácter histórico sobre o templo a quem os desconheça e nos leia, podemos contribuir para uma análise mais realista do problema.


A Ermida de São Domingos, a que levemente já nos referimos nestas páginas (2), situa-se fora da aldeia, mas perto dela, numa pequena elevação, passando-lhe a actual estrada para Clarines nas proximidades.

Funcionou como igreja matriz até 1565, ano em que já se encontrava numa fase adiantada a construção da actual.

Em 1534 é descrita como tendo paredes de pedra e barro, rebocadas, duas portas em alvenaria, a principal com ferrolho e a lateral com fechadura.

Era emadeirada de castanho e telha vã.

Interiormente, um arco de alvenaria e no altar-mor, como não podia deixar de ser, a imagem do padroeiro.

Pinturas na parede do Espírito Santo com Nossa Senhora e os Apóstolos, como se usava na época.

Dois altares de alvenaria. No do lado do Evangelho, estavam pintadas Nª Senhora, Santa Ana e Santo António, e no da Epístola, Santa Bárbara.

No cruzeiro, um crucifixo e outras imagens igualmente pintadas.

Possuía pia baptismal, de barro, e uma pequena, de pedra, para água benta.

Sobre a porta principal, um campanário de tijolo, com bom sino.

Trinta anos depois, na descrição feita pelos visitadores da Ordem de Santiago, à qual estava sujeita, as diferenças apontadas não são muito significativas.

Paredes e telhado, o arco cruzeiro e o altar de alvenaria e a imagem de São Domingos no seu lugar. A diferença é que agora se considera tudo já velho – sempre se tinha, passado trinta anos!

Diz-se agora que para ir ao altar, subia-se um degrau de alvenaria. É-se mais preciso indicando a porta principal de pedraria e redonda, formato que ainda é nítido nas suas ruínas, tendo desaparecido a pedraria, certamente para aplicação noutro lugar. (3)

Ainda se mantinha a porta lateral e fez-se referência à existência de três botaréus em cada uma das paredes laterais.

O campanário, já não tinha sino!

Foi mordomo da ermida. Afonso Fernandez, morador na aldeia, que tinha à sua guarda vários bens móveis, desde utensílios de altar, do culto, vestes sagradas e de altar.

Parece-nos de interesse transcrever as determinações feitas pelos visitadores, em 1566.

"Por acharmos que os fregueses desta freguesia tem obrigação ao corregimento desta hermida por aver sido sua matriz, mandamos aos elegidos e aos mordomos que a repairem do madeiramento e telhado e concertem o ladrilho e demarquem o adro ao redor com marcos que bem posão ser vistos para que não se entremetão os vezinhos a lavrarem nelle o que comprirão com pena de dez cruzados, ametade para os cativos e a outra ametade para o meirinho da Ordem". (4)

Não conhecemos o resultado destas determinações, revelaram-nos contudo que o templo era ladrilhado e que havia que ter cuidado com o adro. Haverá multas a aplicar?

Sabemos que a Confraria de São Domingos foi-se mantendo e em 1727 o retábulo do altar foi pintado. Contudo, em 1745 “a ermida do Santo está cahida” e a imagem é transferida para a igreja matriz. (5)

As Memórias paroquiais (1758) informam que a aldeia tem uma ermida do Senhor São Domingos e acrescentam que em alguns dias acodem em romagem algumas pessoas que têm padecido de sezões, terças ou quartãs por ser nesta freguesia e seus arredores o Santo Advogado contra as referidas enfermidades.

A Câmara em correição pelo concelho em Janeiro de 1843, na passagem por Giões, determina que “o caminho que vai da Ermida de São Domingos para a Parochia, deve ser feito pelo Povo, por diante da cerca de José Pereira”. (6)


Aqui tendes o que foi possível compilar sobre este templo.
O que resta? O que ainda existe?

O amplo adro onde além dos enterramentos se juntava o povo em romaria e as quatro paredes que têm aguentado com “resignação” as intempéries. Pelo espólio, podemos verificar a semelhança com a sua vizinha de Clarines, em boa hora reconstruída, e no que respeita à planta, área e configuração da fachada.

Os trabalhas de argamassa que acompanham as duas águas da empena de bico, são vulgares nas redondezas, como acontece por exemplo nas capelas de Santa Justa, no monte do mesmo nome e na do espírito Santo, na aldeia de Martim Longo.



Terão os gionenses o entendimento e a força necessária para restaurar (reconstruir) aquela que foi durante muitos anos a sua igreja matriz? Pensamos que sim e que não lhes faltará a ajuda das autarquias e de outras Entidades mas … não desvirtuem para que não se perca a memória colectiva do seu povo.

A reabertura ao culto não deixaria de ser a 4 de Agosto.


NOTAS

(1)-As Mouras Encantadas e os Encantamentos no Algarve, 1898
(2)-“Giões (Alcoutim) – Um pouco do passado e do presente”, in nºs 1061 e 1062, respectivamente de 22 e 29 de Julho de 1977
(3)-Encontrámos em 1974, englobadas numa parede, duas pedras trabalhadas provenientes de qualquer templo, uma datada de 1744 e com motivos religiosos
(4)-Visitações da Ordem de Santiago no Sotavento Algarvio, Hugo Cavaco, CMVRSA, 1987.
(5)–A Escultura de Madeira no concelho de Alcoutim do séc. XVI ao séc. XIX,Francisco Lameira e Manuel Rodrigues, Faro, 1985.
(6)-Acta da Sessão de 11 de Janeiro de 1843.

terça-feira, 27 de Julho de 2010

D. Afonso de Noronha, 5º Vice-Rei da Índia


O 4º filho de D. Maria Freire e de D. Fernando de Meneses foi D. Afonso de Noronha que casou com D. Maria de Eça, filha de Fernando de Miranda e de D. Catarina de Eça, Senhora de Santos-o-Velho.

Foi Comendador de Olalhas, de S. Miguel e de S. João da Castanheira, na Ordem de Cristo.

Aposentador-mor do Reino, por carta passada por El-Rei D. João III, em Lisboa, a 13 de Fevereiro de 1525,cargo já desempenhado em tempos por seu avô materno. Parece que veio a vender este ofício, com faculdade Real, a Lourenço de Sousa da Silva.

Substituiu o seu irmão, D. Nuno Álvares de Noronha como Capitão de Ceuta, que governou de 1538 (ou 1540) a 1549 com grande reputação.

Quando em 1548 D. Afonso de Noronha teve que se deslocar a Lisboa, foi sua mulher, D. Maria de Eça, que ficou a capitanear e a governar a Praça.

É no seu tempo que aparecem em África os primeiros jesuítas, em missão junto dos cativos cristãos, entre os quais Luís Gonçalves da Câmara, que veio a ser mestre de D. Sebastião, e o padre João Nunes Barreto, que veio a ser patriarca da Etiópia.

Devido à acção de conquistas do xerife Mulei Moâmede Xeque Almadi as praças portuguesas do Norte de África ficaram debaixo de grande ameaça tanto por terra como por mar, aqui devido à acção de Barba-Roxa.

A tentativa da construção de uma fortaleza no morro Seinel, devido aos vários condicionalismos, não obteve êxito, pelo que D. João III acaba por resolver abandonar as praças de Arzila e Alcácer Ceguer, voltando ao Reino D. Afonso de Noronha.

É nesta altura e tomando em consideração os bons serviços prestados em África que o Rei o nomeia Vice-rei da Índia, substituindo D. João de Castro. Foi 5º Vice-Rei e 16º Governador.

Parte com a sua armada composta de seis naus, em Maio de 1550 e acompanham-no alguns fidalgos que se tinham distinguido nas guerras do norte de África.

Chega a Goa e toma posse do governo a 6 de Novembro de1550. Manda construir as fortalezas dos Reis Magos próximo de Goa e a de Mascate de fortes muralhas. Ormuz, Ternate e Malaca foram valorosamente defendidas por D. António de Noronha e D. Jorge de Meneses.

Voltando a Malaca, derrota o rajá de Chembé e o samorim de Calicute. É durante o seu vice-reinado que os Portugueses sofreram os primeiros ataques dos Turcos.

Enquanto governou houve alterações nas atribuições dos vice-reis, que teriam de funcionar junto com um conselho, que os auxiliaria nos negócios do estado.

No tempo do seu governo estiveram na índia o missionário Francisco Xavier, que morreu em 1552 e Luís de Camões.


O seu vice-reinado durou quatro anos sendo substituído por D. Pedro de Mascarenhas.

Entregando o cargo a D. Pedro de Mascarenhas em 16 de Setembro de1554, regressa a Portugal em Janeiro seguinte.

Foi acusado por alguns de certa falta de energia durante o seu mandato, ainda que tenham sido conseguidos bons feitos militares como o desbarato da armada turca dirigida contra Ormuz.

Regressa a Portugal onde parece ter vivido com indícios de pobreza, servindo o honroso cargo de mordomo-mor da Infanta D. Maria, filha de D. Manuel e da Rainha D. Leonor.

Faleceu com mais de 75 anos, foi sepultado, como muitos dos seus familiares, no Convento de S. Domingos de Santarém, há muito desaparecido.

Do seu casamento resultaram cinco filhos, sendo quatro varões.

Aqui fica esta pequena nota biográfica do 4º filho dos 1ºs Condes de Alcoutim.

______________________________

Bibliografia
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.
Dicionário Ilustrado da História de Portugal, Lisboa, Publicações Alfa, 1985.
Enciclopédia Verbo. Luso Brasileira de Cultura, Edição Século XXI.
Nobreza de Portugal e do Brasil, 3 Vols., Lisboa, Editorial Enciclopédia, 1961.
História Genealógica da Casa Real Portuguesa, António Caetano de Sousa, Ed. QuidNovi/Público – A.P. da História, Vol V. 2007.
Tratado de todos os Vice-Reis e Governadores da Índia, Editorial Enciclopédia, Limitada, Lisboa/Rio de Janeiro, 1962.
Brasões da Sala de Sintra, (3 vols.) Anselmo Braamcamp Freire, Lisboa, 1927.
Os Vice-Reis da Índia no período da Expansão (1505-1581) – José F. Ferreira Martins, alfa, 1986.
Lello Universal, Dicionário Enciclopédico Luso-Brasileiro.
História de Portugália (Uma história de Portugal no Feminino), Manuel Dias Duarte, Editor Ausência, Braga, 2004.
Wikipédia, a enciclopédia livre.

segunda-feira, 26 de Julho de 2010

Colaborador José Temudo

Pequena nota
Nas minhas permanências, cada vez mais fugazes, no concelho de Alcoutim, ainda que o grande número de visitantes do ALCOUTIM LIVRE não resida nele, sempre existem alguns que conhecendo-me, quando me encontram, questionam-me no sentido de saber algo sobre o colaborador que admiram pelos textos que aqui têm sido apresentados em prosa e em verso.
Apesar de eu já ter feito algumas considerações sobre o assunto, pensei não ser descabido apresentar aqui uma pequena nota biográfica no sentido de esclarecer os nossos visitantes/leitores.
Para os alcoutenejos que rondam os oitenta anos, o nome da família Themudo acaba por não lhes ser estranho como tenho verificado em várias circunstâncias.
Para conhecimento dos leitores, aqui ficam os dados que nos foi possível compilar.

JV



JOSÉ TEMUDO nasceu em 1929 na hoje cidade de Vila Real de Santo António, sendo filho de José Themudo e de D. Marina Ramos Themudo.

Era então o seu pai, originário de Silves, aspirante de finanças uma profissão que mudou de nome e que presentemente não tem paralelo.

Promovido, entretanto, a Secretário de Finanças de 3ª classe é colocado no concelho de Alcoutim.

Nessa altura os chefes das Secções de Finanças (mais tarde Repartições de Finanças) tinham a “estória” do sexénio, isto é, se não pedissem transferência para outra repartição, ao fim dos seis anos eram colocados onde existisse vaga e conforme a administração entendesse.

[Em Alcoutim, anos 30]
José Temudo acompanha os pais para Alcoutim quando tinha cerca de três anos e é lá que inicia a instrução primária ministrada pelo professor Trindade e Lima e que acaba por concluir em Monchique.

Terminados os estudos liceais, que começa no Fundão, inicia aos 19 anos o exercício de funções públicas como proposto do tesoureiro da Fazenda Pública do concelho de Chaves.

De 1953 a 1957, presta serviço militar obrigatório em Mafra, como cadete, depois em Chaves e por último em Goa, como alferes miliciano e onde conheceu o também alferes Palma, mais tarde capitão, com residência na Corte Tabelião e sendo natural do Pereiro.

[Aos 38 anos, na força da vida.]
Nomeado tesoureiro da Fazenda Pública de 3ª classe através de provas públicas a nível nacional, é colocado no concelho de Terras do Bouro, transferindo-se depois para Esposende.

Após concurso para a 2ª classe, (1965) vai para Idanha a Nova de onde requer transferência para Paços de Ferreira, lugar que ocupa.

Para atingir o topo da carreira profissional apresenta-se a concurso para a 1ª classe, (1971) é aprovado e colocado em Bragança, capital do distrito, acabando por pedir transferência para a Póvoa de Varzim.

Quando se encontra neste concelho e com a carreira profissional feita numa altura de grandes mudanças de serviço presta a sua valiosa colaboração à classe, lembrando-se principalmente dos mais jovens, publicando, que eu saiba porque os adquiri e utilizei, dois trabalhos importantes: TESOURARIAS DA FAZENDA PÚBLICA – APONTAMENTOS SOBRE MOVIMEMTAÇÃO DE FUNDOS (86 pp A/4) e APONTAMENTOS SOBRE TAXA MILITAR, (101 pp A/4) ambos de 1983 e com a colaboração de José Maria Correia do Monte, tesoureiro-Ajudante.

Aposenta-se em 1992 com sessenta e três anos, tendo fixado residência em Vila do Conde desde 1976.

Casou em 1954 com uma ex-colega do liceu, depois professora do ensino primário oficial o que deu origem a quatro filhos, tendo falecido o único varão. Duas das filhas são doutoradas, uma em medicina e professora universitária e a outra em engenharia agrónoma e investigadora. A mais nova é licenciada em História e arquivista de profissão.

Dos quatro netos, três são estudantes universitários e o mais novo está no 3º ano do 1º ciclo.

[Nos dias de hoje e decano dos colaboradores deste blogue]
José Temudo que me habituei a admirar pela sua competência técnica e verticalidade e que conheci no início da minha carreira profissional, sem que eu o saiba explicar, continua “ligado” a Alcoutim.

As palavras que se seguem são suas e bem demonstrativas.

Tinha oito anos quando saí de Alcoutim, afinal do meu Paraíso. Arrancado pela raiz, como rosmaninho.

(… …)

Plantem-me solitário/num cerro duro e seco de Alcoutim/ para alimento de estevas, de rosmaninho e de alecrim. (1)

Como é do conhecimento dos nossos visitantes/leitores, José Temudo cultiva a prosa e o verso.


NOTA
(1)–Extraído de “Aconteceu em Alcoutim”

domingo, 25 de Julho de 2010

Moinhos hidráulicos nas ribeiras em Alcoutim

Pequena nota
Como tinha sido prometido, aqui estou a apresentar um texto que pretende referir os moinhos hidráulicos no concelho de Alcoutim, através dos tempos.
As primeiras coisas que escrevemos sobre o assunto e já lá vão duas ou três dezenas de anos, tiveram por base a informação oral que muitas vezes, como depois verificámos, nos chegou deturpada da realidade por vários motivos.
Tentamos hoje corrigir os erros que nos foram possíveis, convictos que outros ainda perduraram.
Restará dizer que conhecemos bem poucos moinhos principalmente pela dificuldade de os alcançar e o que constitui entrave para um melhor texto.

JV


A par dos moinhos de vento e aproveitando a força das águas nas ribeiras, também em finais do século XV já existiam azenhas e moinhos na zona de Alcoutim. (1)

Em 1482 na Comenda de Mértola havia dezasseis moinhos de enxurrada, sendo três no Vascão.(2)

Esta informação conjuga-se com a anteriormente referida.

O Foral Novo de Alcoutim (1520.03.20), não podia esquecer as moendas e os moynhos (...) & dos moynhos levara aquella maquia verdadeira soomente que se leva e manda levar per nosso Regimento e ordenaçam nos semelhantes lugares. (3)

[O moinho do Pego Fundo representado no desenho de Duarte de Armas, Séc. XVI]
A Capela de Nª Sª da Conceição beneficiou de uma dádiva do Marquês de Vila Real (1º Conde de Alcoutim), D. Fernando de Meneses. Na visitação efectuada a esta capela pela Ordem de Santiago, (1534) os visitadores anotaram: - Achámos que tem agora mays de remda a dita irmida quinhentos reaes que ho marques de Villa Reall manda dar de huns foros de hum moynho que esta jumto da dita vyla en cada hum anno a dita irmida. (4)

Sabe-se igualmente que uns moinhos no Esteiro da Amarela, na Ribeira de Cadavais, foram doados a D. Fernando de Meneses, 1º Conde de Alcoutim. (ANTT - Livro 1 de Mistic, Fls. 68 v.)

Há uma indicação de um moinho neste esteiro que se diz construído por João Freire de Andrade e que pertencia em 1467 ao Conde de Alcoutim. (5). Possivelmente tratar-se-á do mesmo engenho.

A palavra azenha designa usualmente os moinhos de roda vertical (6), enquanto o moinho é accionado por uma roda motora, de palhetas, horizontal. Segundo afirma Francisco Dias Costa no Sul do país, a azenha é quase desconhecida e inexistente. (7)

As ribeiras do concelho, Vascão, Foupana, Odeleite e Cadavais possuíram vários moinhos, podemos mesmo dizer que algumas dezenas.

Na de Cadavais, perto do Pego Fundo, existiu um que pelo menos remonta ao século XVI e de que ainda haverá vestígios. Pensamos que este moinho é o que terá pertencido ao Conde de Alcoutim e que já referimos.

Tanto este como o do esteiro da Amarela além de moinhos de enxurrada aproveitariam igualmente o efeito das marés.

Nesta ribeira existe um moinho conhecido por moinho de Cadavais, situado nas proximidades do “monte” da Corte Tabelião.

Passemos agora à Ribeira do Vascão que separa em parte o Alentejo do Algarve e nomeadamente o concelho de Alcoutim do de Mértola.

Naturalmente que só os situados na margem direita pertencem ao concelho de Alcoutim, mas a verdade é que muitos dos situados na margem esquerda tiveram tanta ou mais importância como os que se situam na direita e eram procurados principalmente por gentes deste concelho até porque teriam povoações mais próximas. A escolha da margem possivelmente teve a ver com uma questão técnica, já que o maior número se encontra na margem esquerda.

[O moinho do Ferreiro na freguesia de Martim Longo]
Nos limites do concelho, freguesia de Martim Longo, aparece-nos o moinho da Cascalheira que ainda laborava em 1996 e tinha três casais de mós, ainda que só estivessem a trabalhar dois. Este moinho fazia parceria com o moinho de vento do Pereirão.

Em seguida encontrava-se relativamente bem conservado o de Mar da Costa, ou Amaro da Costa, o da Abelheira e continuando em sentido descendente o moinho do Ferreiro (ou do Rato) penso que recentemente restaurado.

[O moinho da Cabeça, concelho de Mértola]
O moinho da Cabeça pertence ao concelho de Mértola (S. Miguel do Pinheiro) e fica próximo da ponte que liga Castelhanos a Penedos.

Já na freguesia de Giões vamos encontrar o moinho de Penedalque (ou Penedal) e o moinho da Estrada, ambos com 32 m2 de superfície coberta (quando assim se encontrava) e mais para jusante o da Figueira.

[O moinho das Relíquias, muito ligado a Giões]
Confinando com a freguesia de Giões, mas no concelho de Mértola, vamos encontrar os moinhos das Relíquias (freguesia de S. Sebastião dos Carros) mesmo junto à ponte e o do Alferes, muito badalada há uns anos num concurso televisivo, relativamente bem conservados e que foram utilizados pelas gentes de Giões.

[Moinho do Alferes, no concelho de Mértola]
Na área da freguesia do Pereiro, o moinho Novo que deixou de laborar na década de setenta dos nossos dias. Além deste havia o moinho do Malheiro no barranco do mesmo nome. (8)

Da ponte da estrada nacional nº 122 para a foz, existiam vários moinhos, tanto numa margem como na outra.

Na direita ficava o moinho de Baixo cuja localização e nome só por poucos são lembrados. Mais abaixo o moinho da Corte Miguel situado em local quase inóspito. Igualmente na margem direita, o Pisão da Hastieira, já numa zona de influência da maré, a pouco mais de 1 500 m da foz, existindo alguns vestígios como os do tanque de imersão dos tecidos. Depois o moinho Novo funcionando pelo efeito da maré. Deixou de funcionar nos primeiros anos do século passado. (8)

O último moinho pertencente ao concelho de Alcoutim e já perto da foz é o de D. Miguel ou do Melão devido à sua configuração ovalada.

Bastante assoreado, mantém-se firma devido à sua forte e firme construção, devendo ainda as mós encontrarem-se soterradas.

Este moinho, segundo afirmam, foi construído por Miguel Angel de Leon, após 1860, cidadão espanhol, que chegou a presidir ao município local, tomando posse em 2 de Janeiro de 1878, mas que em 19 de Setembro teve de abandonar o lugar por ter sido anulada a sua naturalização. É o que conhecemos melhor devido à figura que encerra.

Na margem esquerda e consequentemente pertencendo ao concelho de Mértola encontram-se os moinhos dos Clérigos, que fez parte da Herdade dos Colgadeiros, o D. Ana, que foi propriedade de Jacinto Celorico Palma de Castro Marim, e moinho Pedro, propriedade de Manuel Silvestre das Cortes Pereiras e de um Ildefonso da Mesquita. Nele trabalhou António Inácio, vulgo Ti Glindim, considerado moleiro, também das Cortes Pereiras. Deixou de funcionar em 1961. (9)

O açude do moinho de Dona Ana ia-se todos os anos embora! Para resolver o problema, a proprietária teria oferecido ao Santo da sua devoção metade do rendimento que obtivesse. Nunca mais o açude se desmantelou, conforme a lenda refere. (10)

O moinho do Melão (ou de D. Miguel) inspirou a seguinte quadra popular:


Na Ribeira da Foupana e na área da freguesia de Vaqueiros, existiram dois moinhos, o do Meio (ou do tio Baltazar) e o de Baixo (ou da tia Rita).

Na freguesia de Martim Longo funcionaram os moinhos da Barrada, da Volta, de Cima, da Toca da Moira, Traguiçada e das Mestras, continuando a trabalhar os moinhos do Furadouro, que hoje, possivelmente, já estarão parados.

O moinho da Rocha Chada e o do Pego do Salto que deixou de moer na década de sessenta dos nossos dias, situam-se na área da freguesia do Pereiro.

Na freguesia de Alcoutim ficam os moinhos do Freixo e o da Palmeira que estava ainda em bom estado de conservação.

[Moinho dos Bentos, na Ribeira de Odeleite]
A Ribeira de Odeleite na freguesia de Vaqueiros possuía o moinho dos Bentos, da Várzea (ou da Rocha) e o da Malhada, este último ainda funcionava nos anos oitenta.

Em 1941 ainda havia em condições de trabalhar vinte e cinco moinhos. (11)

Pelos lucros que davam, também os moinhos de água foram monopólio real e da nobreza.

Contrariando os moinhos de vento, alguns, continuavam a laborar, não há muitos anos.

Tal como em relação aos seus homónimos de vento, nas heranças, todos pretendiam manter o seu quinhão.


NOTAS

(1)–História de Portugal, Joaquim Veríssimo Serrão, Vol. II, 1978, p. 272
(2)-Introdução à História da Agricultura em Portugal, A.H.Oliveira, 1968.
(3)-Livro dos Forais Novos do Alentejo.
(4)-Visitações da Ordem de Santiago no Sotavento Algarvio, Hugo Cavaco, 1987, p 142.
(5)–“Moinhos de Maré no Rio Guadiana”, António Mendonça, 6º Congresso do Algarve, Racal Clube, 1990, p 45.
(6)-Dicionário Ilustrado da História de Portugal - Ed. Alfa - 1982.
(7)–Floridas na Pedra, A Hidrografia do Vascão e a Serra do Caldeirão ou Um, O Homem e o Meio, Edição IN LOCO, 1996, p 46.
(8)–A Freguesia do Pereiro (do concelho de Alcoutim)”do passado ao presente”, José Varzeano, 2007, p 58.
(9)–Engenhos Hidráulicos Tradicionais, Rui Guita, 1999.
(10)-Contado por Manuel Joaquim dos Santos de Afonso Vicente.
(11)-Acta da Sessão da C.M.A. de 5 de Julho de 1941.

sexta-feira, 23 de Julho de 2010

Jardos, pequeno "monte" de topónimo curioso e na freguesia de Vaqueiros

["Monte" dos Jardos. Vista parcial. Foto JV, 2010]

Para se poder alcançar de veículo automóvel esta pequena povoação que sempre pertenceu à freguesia de Vaqueiros, antes do 25 de Abril, era impossível por absoluta falta de estradas e quando elas começaram a aparecer durou algum tempo a construção de pontes, sendo a primeira na ribeira de Odeleite designada por ponte dos Bentos e só depois foi possível, mais a Este, a dos Galachos por ficar próxima deste aglomerado populacional.

Lembramo-nos perfeitamente das grandes dificuldades que os habitantes do concelho daquela zona tinham em se deslocar à sede do concelho para tratar dos assuntos que só nela podiam na altura ter lugar.

Iam como podiam, a pé ou de burro, fazendo o percurso ainda de noite, até à estrada nacional nº 122 onde apanhavam o transporte público, regressando à tarde em sentido contrário.

Possivelmente por estas circunstâncias, ainda que a freguesia de Vaqueiros pertencesse a Alcoutim, as povoações situadas na margem direita da ribeira de Odeleite, como é o caso de Jardos, estavam afectas ao termo de Tavira, visto tornar-se mais fácil a ligação àquela cidade do litoral.

A divisão de freguesia por vários termos acabou com a legislação do regime liberal então instituído no país, mais precisamente em 1836.

Como quase sempre acontece, a informação escrita mais antiga que possuímos é a que nos transmite as Memórias Paroquiais de 1758 e nelas o cura de Vaqueiros, António de Barros, que respondeu ao questionário formulado, refere esta circunstância.

Em meados do século passado, crianças de povoações mais próximas da escola da Várzea tinham que optar pela do Zambujal, mais distante, visto na época invernosa a ribeira de Odeleite não dar passagem além de motivar situações de perigo.

A construção da estrada nº 508 veio servir toda esta região e depois de passarmos pela ponte dos Galachos, no sentido Sul, encontramos à direita um pequeno ramal de umas centenas de metros, asfaltado em 1992, leva-nos à pequena povoação que nos recebe num pequeno largo onde chegava o comércio ambulante.

Dava então nas vistas, quando a visitámos pela primeira vez, em fins dos anos 80, do lado direito uma grande figueira.

O “monte”, que se situa numa pequena elevação, tem acesso também por outra estrada, a 1050, na altura não asfaltada e proveniente do “monte” das Casas.

As Memórias Paroquiais a que já nos referimos, indicam-no como possuindo três vizinhos (fogos), ao nível de muitos outros na freguesia.

Silva Lopes, na Corografia do Algarve ignora-o, tanto quanto se refere à freguesia em si como na indicação dos fogos em 1839.

Em 1984 tinha dezoito habitantes em sete fogos, havendo um emigrante. Iluminavam-se na altura com quinze candeeiros a petróleo e foi um dos “montes” estudados para a instalação da energia fotovoltaica que veio a contemplar o monte do Vale da Rosa.

Veio a ser electrificado ao mesmo tempo do seu vizinho Preguiça, em 1989. (1)

Os arruamentos estão pavimentados tendo sido beneficiados em 2006, o que aconteceu também ao troço de acesso. (2)

[Troço de acesso em reparação]

Possui lavadouro público e a água foi levada ao domicílio em 2004. (3)

Caixas de correio em painel. Recolha de lixo.

São vários os erros detectados no concelho em placas toponímicas e aqui já referimos alguns. Também a que indica este monte tem JARDO e não JARDOS como temos sempre ouvido pronunciar e lido em documentação, aliás, como escreveu o Cura António de Barros em 1758.

Quanto ao topónimo, em dicionário da especialidade (4) só encontrámos indicado uma vez Jardos, precisamente o de Alcoutim, mas tem dois no singular masculino e um no feminino, além de outros que se presumem derivados, pelo que o topónimo não é inédito.

Jardo é um apelido conhecido em Portugal desde os primórdios da nacionalidade. A sua origem parece estar no francês jeune pelo que, falando-se de pessoas se traduzirá por loiro. Monte dos Jardos quererá dizer que pertencia a elementos da família Jardo ou de indivíduos alourados? (5)

Antigamente jardo era uma espécie de lã de cor cinzenta. (6)

Onde estará a razão do topónimo?


NOTAS

(1)-Jornal do Algarve de 30 de Março de 1989.
(2)-Alcoutim, Revista Municipal, nº 13 de Dezembro de 2006, pp 13 e 15.
(3)-Alcoutim, Revista Municipal, nº 11, de Janeiro de 2005, p. 9
(4)- Novo Dicionário Corográfico de Portugal, A.C. Amaral Frazão, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1981, p399.
(5)-Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, José Pedro Carvalho, Horizontes/Confluência, 2º Vol 1993, p 823.
(6)-“A Freguesia de Vaqueiros (Alcoutim) - do abandono de séculos aos nossos dias”, José Varzeano, in Jornal do Algarve de 17 de Outubro de 1985.

quinta-feira, 22 de Julho de 2010

D. Nuno Álvares de Noronha

D. Nuno Álvares de Noronha ou Nuno Álvares Pereira de Noronha como consta do seu epitáfio sepulcral foi o terceiro filho de D. Fernando de Meneses e de D. Maria Freire de Andrade, 1ºs Condes de Alcoutim e deve ter nascido por volta de 1490.

Foi Mordomo-Mor da Rainha D. Catarina, mulher de D. João III de quem foi Vedor da Fazenda.

Destinado para a carreira das armas, foi capitão e governador de Ceuta de 1529 a 1539, tendo-lhe sucedido no cargo, o irmão D. Afonso de Noronha.

Em 1 de Fevereiro de 1547 foi procurador de sua cunhada, D. Beatriz, 2ª Condessa de Alcoutim e na altura tutora de seu filho D. Miguel de Meneses.

Casou com D. Maria de Noronha (Vila Nova), filha de D. Martinho Castelo Branco, 1º Conde de Vila Nova e da Condessa D. Mécia de Noronha, que faleceu em 5 de Fevereiro de 1578.

Foi sepultado no Convento do Carmo em Lisboa, junto de sua mulher tendo para o efeito dotado a Capela da Invocação da Cruz.

[Convento do Carmo, em Lisboa]




Morreu sem deixar descendência.

________________________________________

História Genealógica da Casa Real Portuguesa, António Caetano de Sousa, Edição QuidNovi/Público – Academia Portuguesa da História, Vol. V, 2007

Brasões da Sala de Sintra, Anselmo Braamcamp Freire, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1927

Wikipédia a enciclopédia livre

quarta-feira, 21 de Julho de 2010

Placa epigráfica de 1876



Esta placa epigráfica situa-se na fachada da Igreja da Misericórdia de Alcoutim, hoje transformada em capela mortuária.

Segundo pensamos, está no lugar onde originariamente foi colocada.

Existe outra com menos caracteres que estava situada na antiga cadeia da vila edifício onde teria funcionado o primeiro poder político-administrativo local quando o concelho foi criado.

Tendo sido derrubado o edifício a placa foi preservada e colocada no novo prédio à mesma altura em que se encontrava.

Placas semelhantes podem encontrar-se na vila de Mértola e na vizinha Sanlúcar do Guadiana.

Pretendem todas chamar a atenção para a grande enchente do Guadiana ocorrida em Dezembro de 1876 e que tantos prejuízos causou em toda esta região.

Houve, contudo, outra enchente que não devia ter sido inferior, ocorrida em 1823 e sobre a qual conhecemos muito pouco e cuja altura não ficou assinalada.

Com a construção de várias barragens na bacia hidrográfica do grande rio do sul não irá ser fácil verificar-se situação semelhante à referida.

terça-feira, 20 de Julho de 2010

Os limites do concelho de Alcoutim com os de Loulé e de Tavira (Freguesia de Cachopo) nos meados do séc.XIX

Pequena nota
Possivelmente estes limites que apresentamos neste texto poderão ter sofrido alguma alteração que desconheço.
Não percorri “marco” a marco as linhas divisórias mas certamente que por estas zonas ainda existirá gentes que as conheçam e que poderá apontar alterações se efectivamente existirem.
Pensamos contudo que não deixa de ser interessante a transcrição do texto das actas que apresentam naturalmente a linguagem e escrita da época e já são decorridos 160 anos!

JV

O vereador fiscal da Câmara de Alcoutim em sessão municipal de 2 de Janeiro de 1850, chama a atenção para o facto de serem notórios os abusos e vexames cometidos pelos “rendeiros do ver”, tanto deste concelho como dos limítrofes, para com os habitantes dos “montes” confinantes e tudo devido à falta de uma linha divisória. Pede à Câmara que tome providências no sentido de se efectuar tal divisão, uma vez que o assunto não tinha ficado resolvido da primeira vez que tinha sido posto.

A Edilidade decidiu convidar as Câmaras de Tavira e Loulé, para consigo e com a presença de informadores virem a marcar a linha divisória entre os concelhos.

Marcado o dia 28 de Fevereiro de 1850 para a divisão com Loulé, a Câmara fez-se representar pelo Presidente, Dionísio Guerreiro, de Giões, vereador José da Costa Afonso, da Finca Rodilha, sendo também presentes o Administrador do Concelho, José Cláudio da Fonseca e o secretário da Câmara, Pedro José Roiz Teixeira.(1)

[A Herdade da Finca Rodilha nos dias de hoje e que foi propriedade de José da Costa Afonso, então vereador da Câmara de Alcoutim]

A divisão foi feita pela forma seguinte: à ponta do Barranco do Malfeitoso, direito à altura da Boavida; segue pelas águas vertentes a dar ao Serro do Pego do Redondo; daí direito ao Barranco do Sabolal; segue por este a cima direito ao Serro em frente das Casas do Malhão até à estrada que vem do Ameixial para Martim Longo; mete pela estrada abaixo até à partilha da Herdade do Pereirão e segue pela partilha desta abaixo a dar à Ribeira do Vascão.
“Para comodidade dos habitantes dos montes do Lourencinho, Casa Nova e Pereirão, demarcou-se para ficar livre e comum para pastagem dos gados dos ditos montes, o terreno que vai da altura do Malhão, isto pela parte do concelho de Loulé e pela parte do concelho de Alcoutim, pela partilha da Herdade do Pereirão ao nascente, direito ao Barranco do Freixo até dar ao Vascão”.

[Casa Nova do Pereirão nos dias de hoje. Foto JV, 2010]

No que respeita à divisão com o concelho de Tavira, na parte em que confina com a freguesia de Cachopo, a reunião teve lugar no dia 4 de Março e os representantes da Câmara foram os vereadores, José da Costa Afonso (da Finca Rodilha) e Manuel Luiz e os cidadãos, José António, do Tremelgo, Miguel Gliz (Gonçalves) Teixeira e João José Viegas, de Vaqueiros.

Começa a divisão ao Barranco do Malfeitoso, ribeira abaixo até ao Pego de Domingues, meia ladeira da umbria, onde está um marco, a dar à altura da umbria, onde está outro marco, a dar ao cabo de cima do Barranco do Zambujal, onde está outro marco; água corrente, sai do barranco do Zambujal à partilha da Herdade da Castelhana, onde está outro marco; a dar ao Serro da Castelhana, onde está outro marco; a dar às juntas (!) da ribeira; cumeada acima da Rocha do Sequeira onde está outro marco a dar ao Serro da Horta do Hergoaçal, aonde está outro marco; e a dar ao Serro do Val de Vascão, a dar ao Serro do Calvário, Val da Escaleira abaixo a dar à estrada aonde está um marco, a dar à altura do Serro da Amendoeira, daí ao Serro da Sobrancelha, cumeada abaixo a dar à Eira do Carapuço e dar à Eira da Perolada, Cumeada da Cabra assada, águas vertentes a dar à Foupanilha e barranco dos Pascoaes; águas correntes, Barranco das Estreadas acima até à altura, onde está um marco, águas vertentes até à cumeada de Monchique, onde está outro marco, Barranco das Amendoeiras abaixo, onde está outro marco, meias ladeiras a dar a eira das Amendoeiras, onde está outro marco, águas vertentes a dar ao Serro das Amendoeiras, onde está outro marco; metade pela corga dos Fragis a dar à ribeira e vai pelo barranco das águas acima a dar `a cumeada dos cardos, onde está outro marco a dar ao barranco dos Canais e vai pelo barranco acima a dar à partilha do limite das Taipas com o da Azinhosa, a dar à boca do Barranco do Tojo, pelo barranco acima a dar à partilha do limite de Marroquis, a dar à cumeada `a partilha de cima e dá partindo o limite das Alcarias com o da Cabeça Gorda e daí partindo o limite da Cabeça Gorda com o d’Alcaria e também o limite de Val da Rosa com o da Cabeça Gorda.

[Alcarias. Foto JV, 2010]

Ficou por demarcar, segundo o vereador, Manuel Luiz, o limite da freguesia de Vaqueiros com o de Santa Maria de Tavira em consequência dos comissionados por aquele concelho não se acharem habilitados com os necessários esclarecimentos.(2)

Nas pesquisas que continuámos, não conseguimos encontrar a formalização desta partilha.

NOTAS

(1)-Acta da Sessão da C.M.A. de 20 de Fevereiro de 1850. Já apresentámos neste espaço notas biográficas de Dionísio Guerreiro (2009.06.16)e Pedro José Roiz Teixeira, 2009.09.23) que eram irmãos. José da Costa Afonso era grande proprietário no concelho sendo na altura proprietário da grande herdade da Finca Rodilha. José Cláudio da Fonseca foi também Presidente da Câmara.
(2)-Acta da Sessão da C.M.A. de 14 de Março de 1850.

segunda-feira, 19 de Julho de 2010

Alcoutim aguarda confiante que a abertura da barra restitua ao Guadiana o papel de elo de ligação

Pequena nota
Com este artigo que pensamos ter sido publicado no Diário Popular em 1968 termina a colaboração do nosso saudoso Amigo com a imprensa diária, colaboração que veio a ser premiada com um prémio pecuniário ao correspondente.
Anos depois, Luís Cunha dá início a uma nova colaboração, agora com a imprensa regional, por intermédio do Jornal do Algarve.

JV






Escreve

Luís Cunha






[O Guadiana na sua foz, em Vila Real de Santo António]

Como teste de vitalidade e segura esperança num futuro promissivo, não se abre hoje jornal algum em que se não contenham notícias denunciando o caminho certo afinal encontrado:- é aqui uma fábrica nova dando emprego a milhares de braços e alimento a milhares de bocas; - além uma outra sociedade com igual promessa, enquanto algures se instalam linhas de montagem de autos ou tractores, motos, geradores, “contactores” e sabe-se lá que mais de complicada aparelhagem eléctrica e industrial de toda a qualidade e uso.

É uma azáfama de manifestações criadoras por todo o Portugal d`aquém e d`além mar apertando mais e mais os velhos laços de família dispersa.

São fantásticas barragens, fontes novas e energia e riqueza, alicerces sólidos da edificação, pilares básicos dum movimento progressivamente ascensional.

Factores de toda a ordem, geográficos, económicos e sociais condicionam a escolha dos locais em que se ergue, -aproveitando em melhores condições as riquezas naturais do solo, aqui se monta uma nova indústria e ali uma outra de produtos de exportação beneficiando dos factores do porto; - cá é a densidade da população propícia ao recrutamento de mão de obra; - lá a própria vontade do industrial na concentração de interesses e mais longe ainda a privilegiada posição de encruzilhada.

Por todo o mundo português a vida se agita nesse impulso criador ao ritmo acelerado do jacto.

Fábricas em comboio, florestas de chaminés, é isto que diariamente os jornais anunciam: - o homem vencendo as mais adversas condições.

Mas não é justo esperar, nem talvez de desejar, que em um todo tão vasto e heterogéneo as vença a todas a um tempo.

Daí que algumas regiões dispondo de enormes reservas, riquezas potenciais, aguardem confiantes a oportunidade.

É o caso de Alcoutim medindo ainda o tempo pelo cantar do galo e altura do sol, e o espaço pela jeira e passadas do burro: - espera que a abertura da barra, restituindo ao Guadiana o papel de elo de ligação, sugira em algum espírito audacioso os benefícios que a região oferece a qualquer indústria dependente de transporte de matérias primas em quantidade e a grandes distâncias.

Alcoutim prepara-se entusiástica e confiadamente para a sua oportunidade, para não receber de chofre o primeiro impulso.

domingo, 18 de Julho de 2010

D. João de Noronha, filho secundogénito dos 1ºs Condes de Alcoutim

Pequena nota
Na rubrica CONDES (de Alcoutim) e onde incluiremos os dados a eles relativos (já foram publicadas pequenas notas biográficas sobre os seis existentes) e os seus descendentes que mais se notabilizaram.
Depois de D. Leonor de Noronha, referiremos hoje em nota breve o seu irmão mais velho, D. João de Noronha.

JV

[Catedral de Ceuta]

O segundo filho de D. Fernando de Meneses e de D. Maria Freire de Andrade, 1ºs Condes de Alcoutim, foi D. João de Noronha que teria nascido cerca de 1485.

Era irmão do 2º Conde de Alcoutim, D. Pedro de Meneses.

Foi destinado à carreira militar tendo servido no Norte de África como capitão de Ceuta que governou com grande reputação entre 1522 e 1524 e na ausência do irmão, notabilizando-se como guerreiro o que era próprio da sua estirpe.

Veio a perder a vida com cerca de 40 anos em luta com os mouros a 16 de Agosto de 1524.

Levado o seu corpo para a cidade, foi sepultado na sua Catedral.

Foi precedido nessas funções de Governador da Praça por Gomes da Silva de Vasconcelos e sucedido por seu irmão, D. Pedro de Meneses, 3º Marquês de Vila Real e 2º Conde de Alcoutim.

Apesar de não ter casado, deixou dois filhos bastardos, D. Antão de Noronha que foi criado em Ceuta e veio a ser o 9º vice-rei da Índia e D. André de Noronha que seguiu as letras, estudando em Coimbra tornou-se Reitor da mesma Universidade e Bispo de Portalegre de que tomou posse em17 de Julho de 1560.

________________________

História Genealógica da Casa Real Portuguesa, António Caetano de Sousa, Ed. QuidNovi/Público – Academia Portuguesa da História, Vol. V, pp 120 e 146.

Wikipédia, a enciclopédia livre.

sábado, 17 de Julho de 2010

O palheto



A entrada de hoje da rubrica de Etnografia refere-se a um utensílio que só conheci em Alcoutim e que hoje começa a ser difícil de encontrar e muitos dos que o possuem já não o utilizam mas têm-no como objecto de estimação.

Estou a referir-me ao palheto, cuja foto apresenta um exemplar que foi muito usado e que demonstra alguns anos de existência, facto confirmado pela possuidora, pois já veio da casa dos pais.

Como se pode ver é um objecto de madeira, muito tosco, em forma de espátula.

A um pedaço de ramo mais ou menos direito e de madeira rija para poder ser durável, o alcoutenejo, depois de deixar o espaço suficiente para se lhe poder pegar com segurança, com uma faca, como chamam às navalhas que não dispensam no bolso, começam a desbastá-lo de um lado e de outro dando-lhe a forma de espátula.

Devido à situação de paragem que os rebanhos muitas vezes originam no pastoreio, como acontece com o descanso, o pastor ocupava por vezes o tempo, servindo-lhe de distracção, com a confecção de estes pequenos utensílios, ainda que pudessem ser feitos por qualquer outra pessoa.

Para terminar direi que o palheto se destinava a mexer as papas de farinha de milho, prato bem do agrado das gentes do concelho.

sexta-feira, 16 de Julho de 2010

Origens de um lugar comum

[Afonso Vicente, vista geral. Foto JV, 2009]

Tanto na imprensa regional (quando isso era viável), como em livros, revistas e agora no ALCOUTIM LIVRE, temos tentado dar a conhecer naquilo que nos é possível a história e as “estórias” das pequenas povoações do concelho de Alcoutim, algumas bem pequenas e outras já despovoadas e em ruína acelerada.

Acontece que por meados do século passado, os naturais começaram a abandonar os montes procurando melhores condições de vida, o que faziam principalmente para a periferia de Lisboa e Setúbal e depois para o litoral algarvio.

Quando muito levavam consigo feita a Instrução Primária (4ª classe), que obtinham muitas vezes à custa da deslocação a pé de quilómetros diários, à escola mais próxima.

Alguns, nomeadamente os mais novos, aproveitaram as melhores condições de vida para se cultivarem e instruírem obtendo mesmo cursos superiores – honra lhes seja feita.

Sabem os nossos leitores que destes homens e mulheres, saídos do mesmo ”monte”, dos seus filhos, SETE fizeram a licenciatura em medicina e alguns a especialidade?

Na nossa óptica é uma curiosidade interessante e por isso a referimos.

Nenhum pretendeu exercer a actividade profissional no concelho de origem de seus pais, pois os projectos de vida a que se propunham não passavam naturalmente por aí.

Na cerca de uma centena de montes espalhados por todo o concelho, haverá algum caso curioso como o que acontece em AFONSO VICENTE?

Temos o privilégio de conhecer e ter bom relacionamento com três deles, dois ainda bem jovens.

Que continuem a visitar o monte das suas raízes, são os nossos votos.

quinta-feira, 15 de Julho de 2010

A Casa e o Estado do Infantado - 1654-1706



Editado pela Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica em 1995 é constituído por 268 páginas de 16X23 cm e de autoria de Maria Paula Marçal Lourenço, tendo prefácio do Professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão.

Debruça-se desde a sua fundação até ao termo do reinado de D. Pedro II.

A constituição desta Casa teve por fim dotar o Infante (filho 2º) de um conjunto de bens cujo rendimento permita sustentar os encargos da Casa e daí, entre outros, nela incluídos os bens confiscados à Casa de Vila Real por traição do seu titular.

No trabalho, como não podia deixar de ser, há referência a Alcoutim nas páginas. 53, 54 (mapa da geografia senhorial) 81 (em que remete os leitores para o nosso trabalho, Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia, 1985), 123 (indicando o escrivão dos órfãos e os seus proventos em 1659), 145 (Licenciado João Gonçalves Costa, nomeado procurador da portagem de Tavira e Alcoutim), 146 (Belchior Baptista Delgado, nomeado em 1685, Procurador letrado do Almoxarifado de Tavira e Alcoutim) e 147 (Lourenço Drago Bajão, nomeado em 1691 Procurador do almoxarifado de Portagem de Tavira e Alcoutim) são entre outras algumas das referências que anotámos.

A leitura deste trabalho leva-nos a conhecer factos politico-administrativos desta importante CASA que o liberalismo extinguiu.

Adquiri o trabalho numa loja da Imprensa-Nacional – Casa da Moeda, em Lisboa.

quarta-feira, 14 de Julho de 2010

Em defesa dos "Três Setes"

(PUBLICADO NO JORNAL DO BAIXO GUADIANA Nº 67, DE SETEMBRO DE 2005, P. 15)

[Apultana de paus, naipe representativo dos camponeses]

Se algumas vezes os temas para a escrita vão amadurecendo com o decorrer do tempo, outras assim não acontece – um objecto, um dito, a observação de uma cena, por exemplo podem-nos trazer rapidamente à cabeça um assunto e o seu desenvolvimento. Foi o que nos aconteceu hoje.

Por volta das cinco da tarde é meu hábito interromper os meus trabalhos distractivos, desço as escadas e cinquenta metros percorridos entro num dos cafés que normalmente frequento, sentando-me sempre à mesma mesa, desde que, como é evidente, esteja vaga, o que normalmente acontece, já que o café é espaçoso e a mesa é pouco procurada.

Por norma não é preciso pedir a bebida já que os meus hábitos são conhecidos. Quase sempre me acompanha alguma folha de texto que aproveito para corrigir e modificar.

Hoje dei os mesmos passos não levando contudo nada para ler.


Na mesa em frente, o que vi pela primeira vez, dois moços da minha idade, jogavam uma partida de cartas, com baralho novinho. Um deles, é cliente da casa, conhecendo-o por esse facto.

Como não tinha nada para ler, fui observando a jogatana, apercebendo-me que estavam jogando a bisca lambida, próprio para duas pessoas e habitual por esta região. Se não fosse esta, seria a de nove, mais complicada e também muito usada por estes sítios.

As inevitáveis questões que o jogo sempre traz foram naturalmente aparecendo, com a verificação das jogadas decorridas e tentativas de demonstração de arrenúncias (renúncias). A partida foi decorrendo com civismo, enquanto cada qual ia bebericando no seu copo, um de cerveja e o outro de um sumo. Lá terminaram a partida e o perdedor foi pagar a despesa feita, como é tradição por estas bandas.

Mas o que tem a ver isto com Alcoutim?

Além de em todo o concelho ainda ser hábito jogar à carta e não jogar as cartas como se diz genericamente por todo o país, os alcoutenejos praticam um jogo que nunca vi praticar em qualquer outra parte, nomeadamente no Ribatejo, Beira Alta ou Estremadura, zonas que conheço melhor.

Quando há trinta e oito anos cheguei a Alcoutim e vi jogar os “Três Setes”, fiquei admirado, não por ser mais um jogo, mas por ser muitíssimo diferente dos outros que conhecia e, na minha modesta opinião, ser mais difícil devido ao maior número de hipóteses a considerar em cada jogada.

Quando por estas paragens encontro jogadores inveterados de cartas, é meu hábito perguntar se conhecem os “Três Setes”. Enumeram-me muitos jogos que conhecem, mas de “Três Setes”, não sabem nada!

Não o tenho procurado só a nível oral, quando encontro livros em que o assunto pode ser referido, lá estou eu a procurar os “Três Setes” mas até agora só encontrei uma leve referência na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.

Possivelmente, o jogo de cartas mais popular e vulgar por todo o país, será o da “Sueca” que os jogadores dizem, para cumprimento das regras, foi inventado por quatro mudos. Desconheço a sua origem não sabendo se tem a ver com o país nórdico que sugere. Diziam-me os velhos de há quatro décadas que era jogo quase desconhecido no concelho, aqui jogavam-se os “Três Setes” e o “Truco”!

A novidade começou a impor-se e os “Três Setes” passaram a segundo plano mas sendo ainda praticamente o único jogo praticado nos lugares mais recônditos do concelho, onde a penetração da “Sueca” se tornava mais difícil, devido ao isolamento.

Após o 25 de Abril e devido à chamada de atenção para a conservação do nosso património em todos os seus parâmetros, os “Três Setes” voltaram a emergir.

Ainda recentemente conheci um bom jogador de “Três Setes” que não sabia jogar à “Sueca”! Claro que não é um jovem.

Sem procurar definir as regras dos “Três Setes”, direi que é um jogo em que entram quatro jogadores, formando duas equipas. Baralho de quarenta cartas pois são retirados os “8”, “9” e “10”.

Não há trunfo e o jogo obriga a naipe. O valor das cartas tem a seguinte ordem decrescente: - terno, duque, ás, rei, valete (conde ou cavalo), dama, sete, sena, quina e quadra.

[Jogando a "Sueca"]

Antes de jogar a primeira carta de cada partida, o jogador deve acusar (pode deixar de o fazer e sendo assim, não conta), isto é, denunciar que possui uma ou mais apultana, ou seja o conjunto de terno, duque e ás do mesmo naipe e se tem três ou quatro ternos, duques ou ases. A apultana dá origem à marcação de três pontos ou tentos e os ternos a quatro ou três, conforme for o seu número, o que acontece igualmente em relação aos duques e aos ases, sendo obrigatório dizer o naipe da carta que falta.

São disputados em cada jogo onze pontos, incluindo o ganho pela terra, isto é, por quem fizer a última jogada (vaza).

A partida termina aos quarenta e um pontos e cada três figuras (além dos tradicionais rei, valete e dama, inclui-se o terno e o duque) equivale a um ás que por sua vez faz um ponto ou tento.

Ter uma arrufada é ter muitas cartas do mesmo naipe, o que umas vezes é mau e outras bom, depende do jogo do parceiro e de quem sai.

Que eu saiba, o jogo dos “Três Setes” pratica-se na Serra Algarvia e regiões limítrofes, onde se pode incluir o Barrocal, o Litoral e o sul alentejano.

Este jogo sugere-nos origem mediterrânica, mais propriamente do antigo Reino de Nápoles e isto porque apultana nos parece tratar de corrupção de napolitana. Será?

Sem dúvida que em tempos recuados povos dessas zonas vieram Guadiana acima e por aqui se fixaram, trazendo nomes, usos e costumes que lhes faziam lembrar as origens.

O pequeno monte de Lombardos, na freguesia do Espírito Santo, concelho de Mértola, não terá a ver com a Lombardia? E a zona rústica próximo da vila, designada por Toscana não lembrará a antiga região hoje pertença da Itália? E a zona rústica das Provenças, para os lados de Santa Marta, não terá a ver com a antiga província, hoje incluída na França?

Organizar Grandes Torneios de Sueca, deixando os “Três Setes” completamente esquecidos, é o mesmo que trocar aguardente de medronho por uísque , vinho por cerveja, forros de cana por esferovite, figos de tuna por kivis, galo de cabidela por galo com cerveja, enfim ... é chover no molhado.

Todos nós temos o direito à escolha, cada um come do que gosta.

O que eu não entendo é que Entidades ou pessoas responsáveis, fomentem e dêem guarida ao desvirtuamento de um concelho, de uma região. ASSIM, NÃO.

terça-feira, 13 de Julho de 2010

Monchique, pequeno monte na freguesia de Vaqueiros



A referência mais antiga que dele possuímos é a que nos fornece as Memórias Paroquias de 1758 que o indica como tendo dois fogos, o que acontecia a variadíssimos na freguesia. Uns desenvolveram-se, outros continuaram como pequenos povoados e outros extinguiram-se completamente.

Em 1839 Silva Lopes continua a atribuir-lhe dois fogos. (1)

Devido ao número exíguo dos seus habitantes, são incluídos nos “isolados” nos últimos recenseamentos. Tem por isso menos de dez habitantes.

O topónimo, segundo os especialistas, não é fácil de abordar, sendo considerado duvidoso ou mal esclarecido o étimo do vocábulo. (2)

José Pedro Machado diz que não tem aparência de arábico, embora possa ter passado por esta fieira (3), enquanto José Cunha diz que provem do árabe “Munt Sàquir” que significa “Montanha Sagrada”, “Monte Santo”. (4)

Esta pequena povoação situa-se na freguesia de Vaqueiros e só saiu do isolamento em que se encontrava com uma terraplanagem que partindo do Montinho da Revelada, passando próximo dele chega ao limite do concelho por este lado, ligando com o Monte da Amoreira, do concelho de Tavira. (5)

Pouco depois, em 1988, veio a ser pavimentada passando a fazer parte da E.M. nº 505 que se estende em sentido contrário e vai ligar às Furnazinhas, concelho de Castro Marim.


[Outro aspecto da pequena povoação. Foto JV, 2010]

A estrada é relativamente estreita mas suficiente para o movimento. A azinheira domina e não faltam as curvas e contracurvas que vão vencendo os montículos. Por vezes aparecem plantações de pinheiros ou azinheiras numa tentativa de florestação. O veículo acaba de fazer uma subida e à nossa frente surge-nos uma lindíssima paisagem que nos obriga a sair do carro. É um vale profundo a que se seguem cerros que se vão sobrepondo uns aos outros até se diluírem no espaço. É das mais belas paisagens que conhecemos no concelho e que até não está referenciada como tal.

Continuando o nosso caminho, aparece-nos à nossa direita, na aba de um pequeno cerro, o monte que procuramos, com placa toponímica identificativa.

Situa-se a cerca de 4 km do Montinho da Revelada.

Para o visitarmos, temos que tomar um pequeno desvio asfaltado. Uma ou duas casas relativamente recentes, tipo vivenda, possivelmente pertença de ex-emigrantes e outras ao modo antigo, encontrando-se algumas em ruínas.

[Antigo poço apetrechado de bomba elevatória e nova estação. Foto JV, 2010]

Um lavadouro público e água distribuída por fontanários, sendo visível a estação elevatória. Recolha de lixo.

Algumas oliveiras de porte elevado dão nas vistas e não deixam de aparecer também as típicas tuneiras cujo fruto era uma das bases da alimentação do porco que se matava pelo Natal e constituía o governo para o ano seguinte.

Em 10 de Dezembro de 1992 inaugurou-se o fornecimento de energia eléctrica (6) e os telefones fixos chegaram em 1995. (7)

Os arruamentos são arranjados em 2009. (8)

Os habitantes da freguesia de Vaqueiros requereram ao Administrador do Concelho, em 1891, para se realizar no dia 15 de Janeiro, uma montaria aos lobos que fazem grandes estragos nos gados. Uma das bandeiras será colocada no Cerro da Horta do Castanho, próximo deste “monte”.(9)

NOTAS

(1)–Corografia do Algarve, 1841.
(2)–Dos Topónimos e Gentílicos, de Xavier Fernandes, Vol. II, 1944, p 336.
(3)–Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, Horizontes/Confluência, Vol. II, 1993, p 1012.
(4)–Glossário Toponímico – Galiza, Portugal e Brasil (http://glossariotoponimiagpb.blogspot.com – em 12.07.2010).
(5)-Boletim Municipal nº 4 de Abril de 1989.
(6)-Boletim Municipal, nº 12 de Abril de 1993.
(7)-Alcoutim - Revista da C.M.A., nº 1, de Maio/Junho de 1995.
(8)–Alcoutim, Revista Municipal, nº 15 de Julho de 2009, p. 17.
(9)-Ofício nº 6 de 7 de Janeiro de 1891, do Administrador do concelho de Alcoutim ao Administrador do concelho de Tavira.

segunda-feira, 12 de Julho de 2010

A Ribeira do Vascão

Pequena nota

Com a abordagem à Ribeira do Vascão no que concerne ao seu trajecto no concelho de Alcoutim, completámos o que pretendíamos fazer, referir as ribeiras que se desenvolvem, pelos menos em parte por terras alcoutenejas.
Referimos a Ribeira de Cadavais ou de São Marcos, depois a de Odeleite, passando a seguir para a da Foupana.
Terminamos hoje com a do Vascão.

JV

Das quatro ribeiras do concelho de Alcoutim é a única que por ele não passa, visto que só a sua margem direita banha terrenos alcoutenejos em grande parte do seu trajecto, enquanto a esquerda o faz em relação a outros concelhos, nomeadamente o de Mértola.

Nasce na Serra do Malhão (Caldeirão) no sítio chamado Vale de Éguas, concelho de Loulé. No Inverno é caudaloso recebendo vários contributos, entre eles o Vascãozinho ou Vascanito, o que impede a sua passagem onde não há pontes, no entanto no Verão quase se seca, deixando, contudo, vários e grandes pegos.

A partir das proximidades da Casa Nova do Pereirão, freguesia de Martim Longo, serve de linha divisória entre o Algarve e o Alentejo.

A primeira ponte existente no concelho de Alcoutim é a que liga Casa Nova à freguesia de Santa Cruz, concelho de Almodôvar. Estava a funcionar em 1997 e foi adjudicada por 100 mil contos.

[Ponte da Casa Nova do Pereirão]

Até à foz não passa junto a qualquer povoação ainda que muitas do concelho de Alcoutim, tal como do de Mértola lhe fiquem perto.

O Monte do Pessegueiro fica-lhe relativamente próximo, indo acontecer o mesmo ao dos Castelhanos ambos da freguesia de Martim Longo.

Em 1991 já havia estrada pavimentada até à Ribeira do Vascão onde veio a ser construida uma ponte inaugurada em 1998, tendo por localidades mais próximas Castelhanos e Penedos (São Miguel do Pinheiro).

[A Ribeira do Vascão, aos Castelhanos. Foto JV, 1992]

Para trás ficou outra ponte que no sentido Martim Longo – Pessegueiro alcança-se por uma estrada à direita, antes de chegar ao maior monte do concelho de Alcoutim.

As três pontes referidas são tudo obras realizadas depois do 25 de Abril, anteriormente utilizavam os vaus que em algumas épocas do ano davam passagem como o que servia Diogo Martins (Mértola) e Lutão (Alcoutim).

A ribeira continua o seu curso, por vezes emaranhado, pela freguesia de Giões, onde perto do Cerro das Relíquias existe uma ponte que a liga a S. Bartolomeu da Via Glória.

Próximo do Monte de Clarines e na margem esquerda, por isso no concelho de Mértola, ficando-lhe perto o Monte de Besteiros, freguesia do Espírito Santo, há uma nascente de águas sulfurosas desde sempre muito procuradas pelas gentes das redondezas e mesmo de lugares distantes para cura dos seus males. Antigamente ia-se de burro e dormia-se numa cabana. Hoje, já lá se chega de automóvel e existe casa de alvenaria com vários quartos e competentes banheiras onde os doentes se podem instalar.

[A Ribeira do Vascão na Água Santa. Foto JV]

A nascente emerge de uma fissura na rocha da encosta. Tem uma construção, espécie de guarita, com bica, de onde a água deverá ser canalizada para os balneários e possivelmente para uma outra construção ao lado, que deverá corresponder ao local de aquecimento da água. Ambas as construções se encontram num plano acima dos balneários, construídos na cobertura destes. Dessa guarita, a água é também conduzida por calha para uma outra mais abaixo com duas bicas e daqui segue para a ribeira por canalização.

Segundo nos consta, encontra-se tudo encerrado certamente por imposição legal.

As águas são indicadas para tratamento de reumatismo, doenças de pele e digestivas.

Junto ao local existem algumas árvores frondosas que proporcionam, no Verão, boas sombras, tornando-se um lugar de laser.

É também nesta freguesia que tem como afluente o barranco do Malheiro que divide a freguesia de Giões da do Pereiro.

[A Ribeira do Vascão à Ponte das Sedas. Foto JV, 1992]

Até à sua foz vamos encontrar mais uma ponte que é a mais antiga de todas, conhecida por ponte de Sedas e situada na Estrada Nacional nº 122, que liga Vila Real de Santo António a Mértola e construída na primeira metade do século passado. Separa o Alentejo do Algarve.

Tendo um curso de cerca de 70 quilómetros vai desaguar no Rio Guadiana, do qual é um dos principais afluentes em território nacional tendo por povoação mais próxima o Monte do Vascão, antigamente designado por Fonte Almece.

[A Ribeira do Vascão na sua foz]

Na freguesia de Alcoutim, entre outros, recebe o barranco do Tamejoso.

Era bastante procurada para a pesca, nomeadamente para a apanha da apreciada lampreia, efectuada de maneira muito singular.

Até meados do século passado, espalhavam-se por todo o seu curso moinhos e azenhas que iam transformando o grão em farinha, principalmente de trigo, que originava o pão cozido nos fornos locais e que constituía a base da alimentação destes povos.

Estes engenhos movidos pela força da água, tal como os moinhos de vento o foram, irão ter uma abordagem própria.

sábado, 10 de Julho de 2010

Alcoutim Livre, imparável!

Acabámos de atingir as



Bastaram 2 meses e 17 dias para o perfazer!

O número continua em linha ascendente, o que nos dá satisfação e forças para continuar o trabalho que idealizámos em defesa de ALCOUTIM e do seu CONCELHO.

Sabemos que o contributo é pequeno para o que merece e necessita e infelizmente não ajudará a evitar a desertificação que começou a acelerar há cerca de quinze anos.

Como diz o povo, “quem dá o que pode, a mais não é obrigado!”

O ALCOUTIM LIVRE é um blogue sem parangonas, baseado em textos sérios ilustrados por fotografias ou desenhos.

Estas últimas “5.000 visitas” deram uma média diária de 64,9 tendo aumentado em relação às anteriores 5 mil, 17,3.

Apresentamos seguidamente um gráfico elucidativo da evolução verificada e que é bem demonstrativo do aumento da sua procura.



Aproveitamos também a oportunidade para apresentar um mapa demonstrativo da origem das visitas, que se espalham por todo o Mundo.



Ainda que agradeçamos a todos os que o fizeram voluntária ou involuntariamente, não podemos deixar de ter uma palavra especial para as visitas originárias do Brasil, que são em número considerável e diárias.

Atendendo ao aceleramento das visitas, iremos só fazer outro balanço quando forem alcançadas as 30.000, o que pensamos se irá verificar dentro de seis meses.

A TODOS O NOSSO AGRADECIMENTO DESEJANDO QUE CONTINUEM A VISITAR, A DIVULGAR E A CRITICAR, SE ASSIM O ENTENDEREM, O ALCOUTIM LIVRE, UM ESPAÇO ABERTO E DE LIBERDADE PARA OS QUE PRETENDEM PUGNAR POR UM ALCOUTIM MELHOR, ONDE TODOS POSSAM TER O SEU LUGAR.

sexta-feira, 9 de Julho de 2010

As maganas das barrigas negras não me deixaram dormir!

Pequena nota

Quero ser muito sucinto nesta pequena nota fazendo apenas realçar dois pontos:
.1 – O magnífico quadro que nos dá o autor do” Alcoutim Romântico” que existiu e que já passou;
.2 – Mais um precioso testemunho sobre Luís Cunha, na verdade o Homem que fazia a diferença em Alcoutim.
Os meus parabéns por tão belo texto.

JV






Escreve

Amílcar Felício






Aquela Rua das Portas de Mértola nas noites escaldantes de Verão dos finais da década de cinquenta, era pequena para tanta gente! Havia noites então, em que para lá dos adultos que para ali vinham passar o serão, quase toda a miudagem das redondezas se concentrava ali.

Tratava-se na sua maior parte dos filhos das famílias mais características de Alcoutim, de um modo geral com quase meia dúzia de “rebentos”, pois naqueles tempos não se brincava em serviço! Desde os Lázaros aos “Afonso Costas”, aos Carolinos, aos Eliseus, aos Cunhas, aos Barões, aos filhos do Sr. António do “Vinagre”, do Sr. António Sapateiro, do Ti Pandareta, do Mestre Pinto, da Da. Maria Tomásia etc., passando pelas famílias mais pequenas com dois ou três como os Soeiros, os Emílios, os Brandões, os Canelas, os Melões ou os Nãmeaces, quase toda aquela juventude convergia ali para a brincadeira.

Naqueles tempos viviam ou faziam a sua vida na Rua das Portas de Mértola e na Rua da Misericórdia cerca de 80 pessoas. E à noite, enquanto os adultos sentados nos poiais das casas conversavam ou cantavam à alentejana à espera que o fresco chegasse, a rapaziada divertia-se à grande inventando todo o tipo de brincadeiras e tropelias!

Quando por ali passo numa ou outra noite de um qualquer Verão dos nossos dias e vejo a Rosa, o marido, o Fernando “Pandareta” (*) e a esposa ao fresco – restos de um passado que a borracha do tempo vai apagando sem contemplações – ainda me ressoam os ecos da algazarra daquelas noites.

[Rua da Misericórdia. Foto JV, 1969]

E a verdade é que não precisávamos de grandes sofisticações para nos divertirmos. Desenrascávamo-nos com a prata da casa. Na realidade a abundância de matéria prima existente na Vila como pedras, canas, paus, cordas, pau de piteira, bolas de trapo e por vezes até bexigas de porco que transformávamos em excelentes bolas de futebol nos anos em que não faziam o “palaio” (deixem-me lá matar saudades do velho “palaio”, hoje não me apetece paio!) davam asas à nossa imaginação e às brincadeiras que nunca mais acabavam.

Se exceptuarmos a “sofisticada” roda ou arco em ferro, que apontava já para a época da “idade dos metais” que viria a seguir, os nossos “brinquedos” naqueles tempos bem poderiam ter sido os brinquedos dos meninos da “idade da pedra”, pois a matéria prima de que eram feitos seria praticamente a mesma. Até uma grande parte da garotada naqueles tempos andava descalça, imagine-se!

Com pedras jogávamos à galinha, à malha, à fisga, ao berlinde e quando as coisas corriam para o torto até “jogávamos” à pedrada. As raparigas brincavam à calha, ao jogo das 5 pedrinhas. Saltavam também à corda e jogavam aos 4 cantinhos ou à cabra cega.

Mas a pedra também constituiu um precioso objecto pedagógico que ensinou muita gente a ler e a escrever. Os meus amigos da Corte do Tabelião, da Corte da Seda e do Marmeleiro com menos posses de um modo geral, foram verdadeiros artífices – a necessidade aguça o engenho – e para evitar comprar lápis de ardósia para escrever, lá iam “lixando o negócio aos meus velhos” e faziam eles próprios os seus belos lápis de xisto e por vezes até os berlindes. Até “fabricavam” para o professor Amaral escrever no quadro, um lápis grosso tipo marcador de que não me recordo como lhe chamávamos. Não tenho qualquer ideia de se usar giz naqueles tempos!

[Ribeira de Cadavais em 2010. Foto JV]

Realmente, no seu trajecto diário a pé para irem à escola a Alcoutim, tinham todo o tempo do mundo para escolher as melhores “taliscas” do caminho. Tempos terríveis para aquela juventude caramba! Mas lá voltavam eles todos os dias, quer chovesse quer ventasse com as suas “talegas” de pano às costas, uma mais alta do que comprida e meio arredondada no fundo com o almocinho, que normalmente era pão com toucinho entremeado ou nos dias de festa com chouriço (o presunto era raro), outra mais rectangular com os deveres da escola. O pessoal da Corte do Tabelião deixava os viveres na taberna do meu avô António Joaquim aonde almoçavam (actual estabelecimento comercial da D.ª. Rosa), o pessoal da Corte da Seda assentava arraiais na taberna do Sr. Simões, hoje habitação da família Canelas.

Esta prática levava a miudagem naquele tempo a baptizar os lápis ou como “lápis de pedra” se fossem para escrever na ardósia ou como “lápis de papel” se fossem de carvão para escrever em papel. Já no Liceu em Lisboa com os meus 11 anitos e com esta terminologia que julgava universal, fui a uma Papelaria comprar um “lápis de papel”. Fiquei vermelho de vergonha: “aqui não vendemos isso, só vendemos lápis de carvão e canetas” diz-me a empregada com cara enjoada... e eu a vê-los na prateleira. Caí em mim naquele momento, mas não dei parte de fraco. Fui a outro lado comprá-los e já lhes chamei pelo próprio nome!

Com paus jogávamos “ao palito” e até havia artistas que faziam o seu próprio “peão”. Aproveitávamos também o pau da piteira que imitava perfeitamente um stick para as jogatanas de hóquei em patins – talvez o desporto mais popular da altura – embora o nosso fosse mais do “género” de hóquei em campo pois não “usávamos” patins. As balizas eram as sarjetas da estrada quase sempre em frente uma da outra. Com uma cana entre as pernas “cavalgávamos” quilómetros num “puro-sangue lusitano” que até relinchava e até corridas de bicicleta fazíamos na altura da Volta a Portugal com um arame a fazer de guiador.

[Boca da Ribeira. Foto JV, 2010]

E quando chegava a abertura da caça a 1 de Outubro, esse ritual ancestral que trazemos no ADN desde a alvorada da humanidade, num tempo ainda muito genuíno e em que muitos ainda caçavam por necessidade, era o empolgamento total que se apoderava da garotada! Íamos até ao cerro da Mina ou até perto do Marmeleiro à espera dos caçadores para participarmos no final da caçada. Era uma autêntica loucura para a miudagem!

A caça penso, traz associada uma falsa sensação de força, de poder, no mínimo de força e de poder sobre a presa. E ter poder sem conseguir exercê-lo transforma-se numa desonra. Agora imagine-se aqueles que traziam o “chibato” como é que eles se sentiriam? Eram uns fracos naturalmente! Mas era também o momento dos miúdos se “empertigarem” e fazerem sentir alguma força crítica, zurzindo atrás deles meeehhhh...!, meeehhhh...!, meehhhh...!. Parecíamos as vuvuzelas do Campeonato do Mundo na África do Sul. Fazíamos-lhes esperas mas eles sorrateiramente, sumiam-se a maior parte das vezes sem darmos conta.

Existia também antes da abertura da caça um “aperitivo especial” em Agosto salvo erro. Tratava-se da caça à Rola e à Barriga Negra. O Alcoutim Livre tem publicado diversos textos que mostram as preocupações e o realismo das análises do Sr. Luís Cunha sobre o Alcoutim de então. Eu vou entrar um bocadinho pelo seu lado humano, para revelar um pouco a personalidade de um homem, nuns tempos em que os jovens estavam no fim da fila – era uma sociedade de adultos e para os adultos – ao contrário dos nossos dias em que os jovens assumem o topo da hierarquia à nascença, não sei se bem se mal. Sei que as gerações do meu tempo terão particulares responsabilidades nesta inversão radical de valores, no seu anseio de cortar a todo o custo com as amarras que a sufocavam. Mas isso é outra conversa.

Numa daquelas noites escaldantes da Rua da Portas de Mértola com os meus 12 ou 13 anos, pergunta-me o Sr. Luís Cunha conhecedor daquele empolgamento pela caça, “queres ir amanhã comigo ao Pego do Corvo à Barriga Negra?”. Era o mesmo do que perguntar à fome se tinha vontade de comer! Caramba, às 3 horas da manhã já lá estava à porta de casa dele, pois não tinha conseguido pregar olho! Era o meu primeiro dia de caça com que tinha sonhado tantos anos!

Mas o melhor ainda estava para vir. Deixou-me levar a espingarda até ao Pego do Corvo, fizemos a “taimeira” e fiquei de dedo no gatilho à espera que elas chegassem. Que excitação caramba! Mas as maganas não apareceram. Felizmente para elas e para mim... Eram umas aves do tamanho de uma perdiz, muito esquivas que se deslocavam em bando, com um bater de asas muito duro e barulhento, muito raras e de peito negro. Possivelmente com o abandono da agricultura extinguiram-se também, assim como o “Algrevão” (Alcaravão), uma ave média, rara também e muito solitária, de pernas muito altas e que até servia para “alcunhar” este ou aquele que tivesse a perna mais longa “ até parece um “algrevão”.


Perante a minha desilusão diz-me o Sr. Luís Cunha no regresso, “deixa lá, vamos aqui pelo cerro da Mina e se aparecer alguma perdiz atira-lhe que a gente diz que foi tiro à Rola e levamo-la escondida”. Ele sabia o prazer que me dava prolongar aquele momento de fascínio “mascarado” de caçador. Mas nada...nem uma. Menos um problema de consciência para resolver, digo eu agora. Tinha sido o meu 1º dia de caça a sério mas foi o último também. Graças ao amigo Luís Cunha que tinha um olhar diferente sobre a juventude.

(*) Ainda me lembro do Álvaro “Pandareta” e da sua bicicleta “prega-saltos” para distribuição do correio, do Manel “Arrana” (Manel diz lá “a rã”, “arrana” dizia o Manel, contava o meu pai), do Henrique “Chapa de Aço”, do Manel Botelho, do Zé Pedro e das “suas” belas pintoras dinamarquesas, do Dimas, do Rui Simão, do Rui Valério, do Rogério Trindade meu padrinho e a quem devo o nome. Perdi-lhe o rasto. Sei que foi a sua homenagem ao grande advogado democrata e jornalista lisboeta da 1ª metade do séc. XX Amílcar Ramada Curto. Dizia-se em surdina que tinha fugido para a Rússia e que era locutor na Rádio Moscovo. Nunca consegui confirmar se foi verdade ou imaginação popular, pois também me aconteceu quando desertei nos finais da década de sessenta, “ter ido fazer a Guerra da Argélia” contra os franceses, que tinha acabado 10 anos antes, ou de me terem visto disfarçado em Sanlúcar onde nunca pus os pés, para visitar os meus pais...
O velho Valério – grande conversador, grande tagarela – enquanto foi vivo sempre me chamou Amílcar Ramada Curto e assim chegaram os Amílcar a Alcoutim. Ainda lá mora o meu afilhado Amílcar Teresa.
Naturalmente que me lembro também daqueles que de uma maneira ou outra, nunca cortaram o cordão umbilical com Alcoutim como o Zé Cavaco irmão da Prachedes, o Manel Justo, o Joaquim Rita, o Carlos Manuel, os meus tios Zé e Alfredo Afonso, o Zé e o Alfredo Martinho, os diversos manos Balbinos, o Euleutério e o irmão, o Manel Peres e o Justino, os Baptistas, o meu compadre António da Teresa, o Gaspar Santos, o Carlos Brito, o Fernando Dias e o irmão João Dias etc. Uma geração brilhante que Alcoutim não soube aproveitar! Aproveitou o país. Possivelmente devo ter esquecido algum nome e acrescentado um ou outro nome que não são da mesma fornada, mas quase que me atrevo a afirmar sem receio de errar, que saiu dali a melhor colheita que Alcoutim produziu no século XX quer do ponto de vista profissional, apesar dos parcos meios e oportunidades de que dispuseram de um modo geral, quer pelo empenhamento social de que tantos deles deram provas e em tempos tão difíceis! Um bom tema para a pena “afiada” do nosso amigo Gaspar Santos!