Numa recente visita a Alcoutim e como é nosso hábito, fomos dar uma volta pelo concelho onde encontramos sempre coisas que desconhecemos e nos permitem um enquadramento com outras que há muito são do nosso conhecimento.
Um dos objectivos era conhecer a realidade deste “monte” a que hoje se chega por carreteira sinuosa e com desníveis acentuados. Encontrámo-la assinalada à entrada da aldeia de Vaqueiros, do lado esquerdo para quem entra no sentido Norte.
Depois de algumas centenas de metros percorridos, encontramos um desvio à direita que nos levaria, segundo indicação fixa, ao vizinho monte de Malfrade.
Seguimos o nosso trajecto e depois de uma descida vamos encontrar uma bifurcação; para a esquerda leva-nos a Ferrarias e para a direita à Mesquita. O caminho começa a empinar e a segunda velocidade é a mais adequada.
Confessamos que não esperavamos encontrar tal indicação pois não é hábito e que nos tem levado a situações complicadas para sair delas, como há pouco nos aconteceu.
No cimo do serro lá se encontrava o “monte” que procurávamos. A antiga povoação, quase toda em ruínas, desenvolve-se do lado direito. Ao chegarmos começámos por espraiar a vista pelo vale e serranias que se seguem onde se podem ver plantações recentes de pinheiros, ainda que o mato seja dominante.
Percorremos cerca de 3,5 km.
A primeira notícia que temos do “monte” é-nos fornecida pelas Memórias Paroquiais de 1758 que lhe atribui 4 fogos, o mesmo indicado para o vizinho Ferrarias, enquanto são atribuídos ao Malfrade apenas dois.
Em 1839, Silva Lopes anota-lhe já nove fogos, enquanto atribui 8 ao Malfrade e ao Balurquinho e apenas 2 a Monchique. (1)
Em 1934 é deliberado pela Câmara Municipal subsidiar com 700$00 a abertura de um poço, sendo encarregado de fiscalizar os trabalhos o membro da Comissão Administrativa, Manuel Marques Ginja, de Martim Longo. (2)
O “monte” deve ter ficado despovoado no terceiro quartel do século passado. Em finais dos anos sessenta ainda conhecemos um indivíduo que tinha lá uma “vendinha” onde vendia um copo de vinho ou um cálice de aguardente.
Nos anos sessenta, na gestão do Presidente da Câmara, António Maria Corvo, o poço foi apetrechado com uma bomba elevatória manual que ainda existe mas inoperante por falta de manutenção.
Após o 25 de Abril, entre outras coisas, a electricidade foi chegando aos montes mais recônditos do concelho mas a Mesquita já não foi contemplada por se encontrar desabitada.
Em 1998 recebemos a informação que o monte era constituído por cinco fogos, todos desabitados. (3)
As edificações ainda existentes, quase todas em ruína, demonstram alguma organização e onde a par das habitações existia pelo menos um forno para cozer pão, possivelmente comunitário como acontecia muito por todo o concelho.
Pilheiras e poiais como é próprio da região. Arramadas e palheiros com boqueirões não faltando o lintel de grauvaque.
Vários vestígios arqueológicos foram identificados nas suas redondezas, incluindo uma anta, como indica o Regulamento do Plano Director Municipal de Alcoutim. (4)
Quanto ao topónimo, embora em alguns casos se trate de apelido tornado topónimo, não há dúvidas que outros revelam memória de antiga existência local de templos ou locais de oração dos muçulmanos (5) e nesta zona a toponímia e achados arqueológicos comprovam terem existido comunidades árabes.
Encontrámos nove povoações com esta designação, sendo todas a Sul do país, nomeadamente no Algarve, onde os árabes permaneceram mais tempo. (6)
NOTAS
(1)–Corografia ou Memória Económica, Estatística e Topográfica do Reino do Algarve, Lisboa, 1841 (Anexo nº 4-A).
(2)–Acta da Sessão da CMA de 8 de Março.
(3)–Informação prestada por Virgílio Neto, 1º Presidente da Junta de Freguesia de Vaqueiros eleito democraticamente.
(4)-Diário da República, I ª Série, nº 285, de 12 de Dezembro de 1995.
(5)–Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, José Pedro Machado, Horizonte/Confluência, 1993.
(6)–Novo Dicionário Corográfico de Portugal, A.C. Amaral Frazão. Editorial Domingos Barreira, Porto, 1981.